Subsídio do governo à natalidade gera novo "baby boom" na Polônia

Nacho Temiño.

Varsóvia, 29 mar (EFE).- A Polônia vê cada vez mais crianças nascendo graças à ajuda mensal de 500 zloti (pouco mais de R$ 380) por filho - a partir do segundo - que o governo concede às famílias desde o ano passado e que foi criticada pela oposição, por considerá-la uma medida populista, mas que já faz com que no país se fale de um novo "baby boom".

Só em janeiro deste ano, quase nove meses depois da nova ajuda à natalidade entrar em vigor, 2.300 crianças nasceram, 10% a mais do que no mesmo mês de 2016, conforme dados da Seguridade Social polonesa.

Se a tendência se mantiver, este ano poderia fechar com 400 mil nascimentos, o que representaria a maior explosão demográfica desde 2010.

Os dados incluem somente os nascimentos em hospitais públicos. Então, se forem somados os que aconteceram em clínicas particulares, é possível falar em um aumento considerável.

O Ministério de Família não duvida que este "baby boom" se deve ao programa 500+, a ajuda mensal de 500 zlotis por cada filho a partir do segundo para todas as famílias, independentemente do nível de renda, ou para o primeiro no caso dos mais desfavorecidos ou de crianças com deficiência.

Esta é a principal medida do governo de Beata Szydlo, do partido nacionalista e conservador Lei e Justiça (PiS).

A estes dados é preciso acrescentar o ligeiro aumento da natalidade registrado em 2016, com 16 mil bebês a mais do que no ano anterior, o que para o governo também se deve aos primeiros efeitos das ajudas.

Em um país onde um polonês ganha em média 11.600 euros por ano (R$ 38.500) - R$ 3.208 por mês -, a ajuda pode ser determinante para a subsistência das famílias, especialmente na zona rural e em pequenas cidades, onde a economia é mais precária.

A oposição criticou o programa 500+, que os líderes das formações liberais Plataforma Cívica e Nowoczesna consideram uma medida para "comprar votos" (segundo as pesquisas, Lei e Justiça mantém quase inalterável seu nível de popularidade desde que ganhou as eleições de 2015), e questiona a sustentabilidade dos subsídios.

Ninguém nega que a medida, que por enquanto beneficia, aproximadamente, quatro milhões de crianças e custou 3,5 bilhões de euros (R$ 11,6 bilhões) em seus primeiros meses, representa um custo elevado ao Executivo, que tenta compensar captando novas receitas através de impostos sobre grandes empresas, muitas estrangeiras.

Os negócios locais também são vítimas da ânsia arrecadadora do governo, que multiplicou as inspeções em busca de infrações que permitam aumentar os fundos dos cofres do Estado. Sob a condição de anonimato, empresários disseram à Agência Efe que em muitos casos as companhias estão transferindo a sede fiscal a outros países.

O Executivo polonês insiste que o subsídio à natalidade é sustentável e a primeira-ministra garante que o programa 500+ é um investimento para o futuro da Polônia. Faltando dados oficiais, alguns empresários lamentam que, desde que a ajuda entrou em vigor, é cada vez mais difícil encontrar funcionárias.

Sem querer ter o nome divulgado, a dona de um restaurante no sul da Polônia contou que agora muitas mulheres preferem "ficar em casa e receber as ajudas". Segundo a proprietária, assim como outros comerciantes, ela tem muitos problemas para encontrar trabalhadoras, o que afeta o funcionamento do estabelecimento.

Com a taxa de desemprego abaixo de 9% e a necessidade de mão de obra para trabalhos simples, alguns poloneses questionam se a política de subsídios pode provocar mais prejuízos do que benefícios, embora, por enquanto, ela pareça estar cumprindo o seu papel principal: incentivar as famílias a ter mais filhos. EFE