CEUs serão adaptados para receber pacientes com Covid-19 na periferia de SP, diz Covas

LUCIANA COELHO E ARTUR RODRIGUES
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 19.09.2019 - Fachada do CEU Aricanduva, na zona leste de São Paulo. (Foto: Martha Salomão/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A prefeitura de São Paulo vai transformar parte das 46 unidades de CEUs da cidade em abrigos para pessoas que precisem e queiram se manter isoladas por causa do novo coronavírus mas não tenham as condições de moradia para isso, afirmou o prefeito Bruno Covas (PSDB) à reportagem.

A medida, que deve ser posta em prática em duas semanas, visa conter o rápido alastramento do vírus por São Paulo, sobretudo nas periferias. A capital paulista concentra mais de 20% das mortes por Covid-19 no país, com 1.683 óbitos confirmados até esta terça. Se somados os casos de suspeita da doença, essas mortes mais do que duplicam.

São os dados usados para traçar as políticas de isolamento em uma cidade que enterrou no último mês, segundo o prefeito, mais de 300 mortos por dia —um salto em relação à média diária para os meses quentes, de 240 funerais.

Ante o cenário, Covas não prevê amenizar restrições tão cedo nem descarta um lockdown —proibição de circulação nas ruas exceto em caso de emergência ou para compra de comida e remédios.

Embora o governador João Doria, seu correligionário, anuncie nesta sexta (8) regras para o relaxamento parcial no estado, a capital vive o movimento oposto, com bloqueios de ruas e cidadãos sem máscara barrados no transporte público. Esquivando-se de adiantar o cenário, o prefeito afirma que os dados de saúde continuarão a nortear as regras na cidade.

Não a baixo custo. Com a pandemia e a quarentena, que define como “decisão acertada” e o melhor equilíbrio possível entre salvar vidas e evitar efeitos econômicos calamitosos, Covas estima que os cofres da prefeitura já tenham perdido cerca de R$ 8 bilhões entre queda na arrecadação e gastos urgentes, o que travou planos para obras e melhorias neste semestre.

Travou, também, a campanha na qual ele concorre à reeleição em um pleito por ora marcado para outubro, mas que Covas diz crer que será adiado, a despeito da grita contra a quarentena puxada pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido). “O vírus não é de esquerda nem direita, é uma realidade a ser enfrentada. Não é herança do PT, não é golpe, não é inventado pelo STF, não é da cabeça do Doria nem do Bruno Covas."

Em tratamento para conter um câncer no sistema digestivo e bem disposto, Covas conversou com a reportagem nesta terça (5) por videoconferência, da Prefeitura, mantendo as regras de restrição social.

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Pergunta - O governador vai anunciar as medidas de saída gradual da quarentena no estado sexta (8). O que esperar para a cidade?

Bruno Covas - Podemos esperar que mais uma vez sejam medidas adotadas combinadas e orientadas pela área da saúde. Não vai haver guinada.


Para a capital, isso significa o quê?

BC - Não é uma situação fácil, estamos com 82% dos leitos de UTI ocupados na cidade, número que na semana passada variava entre 70% e 75%. A situação não é tranquila, os números de isolamento vêm preocupando, há dias que chega a bater 48%. São números preocupantes que sem sombra de dúvida devem orientar a decisão tomada na sexta.


E qual é a avaliação da quarentena até agora?

BC - Positiva. Os números mostram que a gente teria tido dez vezes o número de mortes na cidade sem quarentena. Salvamos em torno de 20 mil vidas.


Ela não deveria ter sido mais rígida na região metropolitana?

BC - Tudo tem consequência. Quanto mais rígida, maior o desemprego, maior a pressão em cima da economia. Acho que foi no limite, considerando que a gente tem uma população que não tem cultura de poupança, diferente de população europeia. É outra realidade. A quantidade de pessoas que vivem numa situação de alta vulnerabilidade na cidade de São Paulo é muito grande. Fomos no limite de conseguir manter a população dentro de casa e minimizar os efeitos na área econômica.


Mesmo assim, tem gente passando fome. Como socorrê-las?

BC - Ampliamos o número de refeições distribuídas para a população em situação de rua e o número de cestas básicas distribuídas para a população em alta vulnerabilidade. A prefeitura distribuía algo em torno de 2.500 cestas básicas por mês. Em abril nós batemos 100 mil. A gente tem tentado focar na população de maior vulnerabilidade.


Alguns colegas do senhor no interior de São Paulo falam em insensibilidade do governador com as pessoas que não teriam como ficar sem trabalhar.

BC - Acho que chegamos a um bom ponto de equilíbrio entre proibir a atividade econômica para poder restringir a circulação de pessoas e liberar algumas atividades. Qualquer ação mais permissiva significa facilitar que o vírus se dissemine e a gente tenha picos maiores da doença. Qualquer ponto para o outro lado significa menos emprego para a população. Não é tranquilo. Nossa direção foi a que a Secretaria da Saúde apontou.


Como lidar com as críticas do presidente Bolsonaro ao isolamento, uma vez que o sucesso da medida pode fortalecer o discurso dele?

BC - É um paradoxo, porque quanto mais efetivo o isolamento, menos necessário ele parece. Os números estão aí para referendar que foi uma decisão acertada de se fazer e lamentar mais uma vez porque o que me parece é que o presidente quer politizar e partidarizar. O vírus não é de esquerda nem direita, é uma realidade a ser enfrentada. Não herança do PT, não é golpe, não é nada inventado pelo STF, não é da cabeça do Doria e do Bruno Covas. O vírus está aí e precisa ser enfrentado e é enfrentado como a ciência aponta.


A Secretaria de Saúde tem usado números aglutinados de casos confirmados e suspeitos, diferentes de outras esferas. Por quê?

BC - O aglutinado serve para apontar se alguma região você está tendo mais casos e precisa de atenção específica . A gente vê claramente que a proporção entre confirmados e não confirmados é muito diferente do centro para a periferia. Isso mostra ações que devem ser feitas pela prefeitura.


O que está sendo preparado para a periferia?

BC - Os CEUs, que ficam nas regiões periféricas, estão sendo preparados para serem áreas de abrigamento nessas regiões. Nessas regiões você tem um problema habitacional muito grande. Estamos preparando esses CEUs para poder receber essa população, para que ela possa fazer o isolamento dentro desses equipamentos, que é melhor do que dentro das habitações.


Seria uma espécie de asilo?

BC - Exatamente. Um equipamento híbrido, de assistência e saúde. Porque não são pessoas sintomáticas, são pessoas infectadas, mas são pessoas que desejam fazer o isolamento. Às vezes é melhor fazer isso nesse equipamento público do que fazer dentro de casa.


Tem data?

BC - A expectativa é que em duas semanas a gente já possa começar a receber em alguns dos CEUs.


O senhor anunciou lei sobre requisição de leitos privados. Haverá necessidade? Há resistência do setor?

BC - A gente tem que estar preparado. A gente tinha 507 leitos de UTI no início do ano. Estamos ampliando em 1.400 leitos, só o município, sem contar a ampliação pelo governo do estado. Desses, 650 já foram disponibilizados, e a gente já está com taxa média de ocupação de 82%. Vamos chegar nos 1.400 até o final de maio. Ainda assim estamos buscando mais 800 na rede privada, já que a gente tem 107 hospitais.

Se for o caso, a gente já tem autorização legislativa federal e municipal para poder fazer a requisição e depois discutir o preço. Mas a gente espera chegar nesse valor referência criamos de R$ 2.100 por leito, por dia, na cidade de São Paulo.


Por que houve demora para decidir a obrigatoriedade para o uso de máscaras?

BC - Porque não tinha máscara disponível ainda para todos. Quando começou a pandemia, houve uma disputa entre governos, prefeituras, estado, União, de compra de máscara. Quando isso se normalizou e as pessoas inclusive passaram a produzir máscaras de pano, a gente começou a ter a possibilidade de obrigar as pessoas a usarem.


Há críticas aos bloqueios nos grandes corredores. A prefeitura pretende fazer mudanças?

BC - Tudo está na mesa. Ou mudar os locais, adotar outra atitude que não o bloqueio. Vamos analisar os número e ver se é o caso de persistir. Alguma coisa precisa ser feita. Não dá para a gente deixar as pessoas circulando da forma que estão circulando. Não vamos nos pautar pela opinião da população que foi prejudicada, porque a ideia é realmente dificultar a circulação. Então, verificar se tem problemas com as ambulâncias, de que forma consegue se for o caso liberar o pessoal da área da saúde, se é possível ter um cartão para facilitar nos bloqueios, enfim, vamos adaptar.


Já há locais no país com anúncio de lockdown. Chegou-se a cogitar um lockdown em São Paulo?

BC - Isso continua em cima da mesa. Não está descartado, mas não há necessidade de se implementar isso hoje.


O secretário da Saúde, Edson Aparecido, disse que hospitais nas bordas da cidade têm absorvido muita gente de outras cidades da região metropolitana. Como isso está sendo tratado com outras cidades?

BC - O secretário está em conversa com outras cidades para tentar encontrar algum mecanismo de compensação, alguma forma de trabalhar conjuntamente. Ainda conseguimos atender à população. Não estamos tendo que solicitar comprovante de residência na porta das nossas UBSs, um cenário muito distante.


Com a quarentena e a pandemia, como estão as grandes obras e a zeladoria, bandeira da sua gestão?

BC - Por enquanto não tivemos redução no número, estão todas continuando. A gente tem conseguido fazer recape no período da manhã [com a quarentena]. Outros temas que são do dia a dia da cidade continuam sendo trabalhados, como distribuição de cobertores na operação inverno.


Mas há problemas visíveis na cidade, na zeladoria, sua vitrine. Como o foco na pandemia muda a lógica de política?

BC - O foco está no combate à pandemia, não tem como fazer, paciência. Tudo que a gente tinha no ano passado a gente continua a fazer. Tudo que seria suplementado a gente teve que suspender porque a receita provavelmente não deve se realizar como previsto. Estamos olhando o plano de metas para saber o que foi comprometido, porque partes dessas obras que deveriam se iniciar nesse primeiro semestre talvez se iniciem só no segundo. Então, paciência, não tem como, nesse momento, colocar a questão eleitoral na frente.


O senhor é a favor de adiar a eleição?

BC - Não tenho imparcialidade [para opinar]. Pelo que a gente tem visto no noticiário, esse adiamento deve se dar para novembro, dezembro.


O senhor está conseguindo seguir o tratamento em meio à pandemia?

BC - Continuo indo fazer sessões de imunoterapia. As oito sessões de quimioterapia fizeram sumir dois dos três tumores, um permaneceu, mudei o tratamento. Depois de três sessões, fiz uma nova bateria de exames e uma quarta sessão. Ela não tem a rapidez que o a quimioterapia, mas os os médicos ficaram muito contentes com o resultado.