Chacina do Salgueiro impediu jovens de prestarem Enem: 'acabou o sonho esse ano'

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SENSITIVE MATERIAL. THIS IMAGE MAY OFFEND OR DISTURB  Police officers stand guard as firefighters remove dead bodies found by residents in a forest after a police operation in Salgueiro slums complex in Sao Goncalo near Rio de Janeiro, Brazil, November 22, 2021. REUTERS/Ricardo Moraes
Chacina policial deixou ao menos nove mortos. Foto: REUTERS/Ricardo Moraes.
  • 501 candidatos inscritos em unidades próximas ao Salgueiro não foram ao exame

  • Abaixo-assinado pedirá ao MEC para moradores terem direito à reaplicação da prova

  • Estudante relata cenas de horror ao sair para fazer o Enem

A operação policial no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, no último domingo (21), que deixou ao menos nove mortos, afetou diretamente estudantes da comunidade que deveriam prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) naquele dia. Muitos precisaram adiar o sonho de conquistar uma vaga na Universidade Pública por conta da violência na porta de suas casas.

“Me senti frustrada, porque isso é uma coisa para a qual a gente se prepara o ano inteiro para chegar o dia e uma infelicidade atrapalhar e acabar com todo o nosso planejamento. Ainda mais um exame de nível nacional, uma das únicas formas que uma pessoa pobre tem de entrar numa universidade. Com isso, praticamente acabou o sonho esse ano”, desabafou uma estudante de 18 anos, que não foi identificada, ao jornal Extra. Ela quer cursar Enfermagem, Medicina ou Matemática.

Foram muitos os atingidos pela tragédia. No total, 501 candidatos inscritos e direcionados para os seis locais mais próximos ao Complexo do Salgueiro não compareceram ao exame, de acordo com a Fundação Cesgranrio, responsável pela execução do Enem no estado. Essas unidades tinham 2.054 inscritos - ou seja, quase um quarto não compareceu.

Segundo a jovem, havia uma grande movimentação de policiais no local naquele dia. Ela esperou que a situação se acalmasse, mas quando finalmente conseguiu sair, se deparou com policiais realizando revistas em moradores, sob agressões e gritos. Além disso, relata que não havia ônibus, e por isso voltou para casa.

“Em toda operação, ônibus nunca circula. Muitas vezes as pessoas se arriscam andando em meio à troca de tiros, em trajetos que chegam a dois quilômetros”, explicou.

Abaixo-assinado para o MEC

Um abaixo-assinado chegou a ser criado por moradores de São Gonçalo para pedir ao Ministério da Educação (MEC) que os vestibulandos da comunidade possam realizar a prova na data de sua reaplicação, nos dias 9 e 16 de dezembro. Na tarde desta terça-feira (23), o pedido já tinha mais de 3 mil assinaturas.

O edital do exame prevê que pessoas diagnosticadas com alguma doença infectocontagiosa na data da primeira prova ou que estiveram envolvidas em “casos fortuitos” ou acidentes poderão requerer para fazer a reaplicação da prova. Os casos são avaliados individualmente pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), vinculado ao MEC.

Nesta terça-feira, o Inep afirmou em nota que a reaplicação pode ser solicitada por desastres naturais que comprometam a infraestrutura do local de aplicação, falta de energia elétrica, falha no dispositivo eletrônico fornecido ao participante (quando for o caso) e por algum erro de execução de procedimento na aplicação “que incorra em comprovado prejuízo ao inscrito”, mas sem citar violência e problemas de Segurança Pública.

O morador de São Gonçalo e ex-candidato a vereador João Pires foi o idealizador do abaixo-assinado. Ele disse ao jornal Extra que pretende acionar a Justiça caso o MEC não permita que os alunos realizem a reaplicação do exame.

“Esses jovens não podem pagar o preço do fracasso da política de segurança pública do Rio de Janeiro. A gente precisa dar dignidade para que eles consigam fazer essa prova”, declarou.

Pires também está realizando o levantamento dos nomes dos estudantes afetados pela operação policial.

“Assinei o formulário e a petição, mas duvido muito que vá dar em algo. Estamos na luta. Eu infelizmente não posso fazer mais nada além disso”, lamentou a jovem vestibulanda. “Tenho muito medo de perder o Enem desse ano e só poder fazer no ano que vem. É uma frustração enorme não poder ter feito no último domingo. A possibilidade de só poder fazer em 2022 chega a desanimar”.

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