Chance de idoso ter reação adversa após tomar vacinas como a da gripe é mínima, mostra estudo em SP

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RIO — Pesquisa realizada em São Paulo mostrou que apenas 0,001% dos idosos tiveram reação adversa notificada após aplicação de vacinas previstas para a faixa etária na caderneta de vacinação, como a da gripe. Em um universo de 15 milhões de pessoas imunizadas, foram registradas 207 reações, sendo 89% delas leves, como dor ou vermelhidão no local da aplicação.

A informação é especialmente importante devido à baixa adesão à campanha de vacinação contra a gripe, que começou em abril: apenas 24% das vacinas distribuídas foram aplicadas e a cobertura não passa de 9% do público alvo total, segundo dados do Ministério da Saúde desta quinta-feira (6). O início da segunda etapa da campanha, na qual pessoas a partir de 60 anos serão imunizadas, está previsto para 11 de maio.

O estudo foi realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Católica de Brasília (UCB) e publicado na revista científica Cadernos de Saúde Pública, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), nesta sexta-feira.

Com base na plataforma de notificações do Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações, os pesquisadores analisaram intercorrências médicas desagradáveis registradas após a aplicação de imunizantes da caderneta de vacinação do idoso: influenza, hepatite B, dT (difteria e tétano) e Pn23 (pneumonia) — apenas a febre amarela não foi incluída, pois não havia dados disponíveis.

A análise incluiu mais de 15 milhões de pessoas acima de 60 anos imunizadas entre janeiro de 2015 e dezembro de 2017 no estado de São Paulo.

— O número de reações é pequeno, não é tão grande como as pessoas imaginam. Cada organismo reage de uma maneira, mas a maioria das reações foram no local da vacina: um pouco de dor ou vermelhidão — explica Beatriz Gutierrez, professora de Gerontologia da USP e uma das autoras do estudo.

Apenas 3% das 207 reações identificadas foram relacionadas a eventos graves. No entanto, na avaliação da pesquisadora, existe, entre os idosos, muita preocupação com possíveis efeitos adversos após a vacinação.

— O estudo mostra a segurança das vacinas. Existe também uma falta de conscientização, não só do idoso, sobre a importância da imunização, que deveria acontecer desde a época escolar. Se aprende cedo, quando chegar na velhice já vai estar incorporado. É um dos agravantes para que os idosos não procurem a vacinação — avalia Gutierrez.

Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), afirma que a vacina da influenza, especialmente, leva uma “fama” de causar gripe, o que se trata de um mito. Na verdade, é um dos imunizantes menos reatogênicos, explica a médica.

— Isso está relacionado ao fato de que a vacina não é 100% (de proteção), de que existem vários vírus que causam resfriados e confundem com a gripe, e tem a possibilidade de a pessoa já ter o vírus, ser vacinada, e acordar doente, dando a impressão que foi a vacina. Por isso, o ideal é vacinar o mais precocemente possível, e não deixar para durante o surto, quando a chance de já estar infectado aumenta muito — explica.

Da mesma forma que acontece com a Covid-19, os idosos são grupo de alto risco para a gripe, destaca Ballalai. Por isso a imunização é de extrema importância.

— A gripe pode causar síndrome respiratória aguda grave, podendo levar à hospitalização, necessidade de UTI, ventilação mecânica. Também é uma das maiores causas de pneumonia por bactéria. Nesse momento, ter um surto de gripe confunde porque o quadro clínico é muito parecido com a Covid. Existe o risco de coinfecção, aumentando a gravidade. E tem a estrutura de saúde: seria mais um concorrente para leitos — enumera.

Este ano, pela primeira vez, as vacinações contra a Covid-19 e a gripe ocorrem simultaneamente. É preciso esperar no mínimo 14 dias entre a aplicação dos imunizantes contra cada doença, orienta a vice-presidente da SBIm.

Importância da conscientização

A pesquisa realizada pela USP e a UCB também constatou que as reações foram verificadas em maior quantidade nas mulheres do que nos homens. O resultado pode estar relacionado à maior presença das mulheres na população idosa e à maior busca por atendimento nos serviços de saúde, “cuidando mais da saúde e aderindo melhor às campanhas de prevenção”, explicam os autores.

É fundamental, avaliam os pesquisadores, utilizar estratégias para conscientização do idoso sobre a importância da prevenção de doenças por meio da vacinação. Eles destacam que os resultados podem contribuir para campanhas de vacinação com subsídios para incentivar a população idosa e “desmistificar a existência de possíveis preconceitos em relação a certos tipos de vacinas”.

Gutierrez também destaca a importância de que pessoas que foram vacinadas e tenham reações adversas comuniquem os serviços de saúde, e que os profissionais façam a notificação desses casos.

— É importante para estudos como esse, e também para a própria indústria farmacêutica ter esses dados. Por exemplo, as reações mais graves estavam atreladas à associação de mais de uma vacina no mesmo dia. Estudos precisam ser feitos para elucidar isso. E para isso precisamos que as pesquisas no Brasil sejam financiadas — afirma a pesquisadora.

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