Chanceler boliviana explica distanciamento da Venezuela e aproximação do Brasil

Por Maria Lorente
Chanceler boliviana, Karen Longaric, em entrevista à AFP em La Paz, em 29 de novembro de 2019

Até recentemente, a Bolívia era um dos principais aliados da Venezuela, mas desde que o governo interino de Jeanine Áñez assumiu o poder em 13 de novembro, deu uma guinada radical na política externa: distanciou-se de Nicolás Maduro e se aproximou de Jair Bolsonaro.

Responsável pelo ministério das Relações Exteriores, Karen Longaric, jurista e especialista em direito internacional, "rejeita a interferência" da Venezuela, segundo assegurou em entrevista à AFP.

Pergunta: No início deste ano, você escreveu que era "urgente redesenhar" a política externa da Bolívia, sem saber que meses depois estaria à frente do ministério das Relações Exteriores. Alguns dias após sua posse, a Bolívia rompeu os laços com a Venezuela, restabeleceu os laços com Israel e nomeou um embaixador nos Estados Unidos. O que mais resta a fazer?

Resposta: Queremos fortalecer os laços com todos os países. Infelizmente, com a Argentina, a situação é cada vez mais difícil dada a mudança de governo de (Mauricio) Macri pelo governo dos senhores Fernández (o presidente eleito Alberto Fernández e sua vice-presidente Cristina Fernández de Kirchner). Acreditamos que a situação será muito difícil, porque historicamente foram amigos de Evo Morales durante seus 14 anos de governo.

A relação com o Brasil estava baixa, bastante desvalorizada; é do interesse da Bolívia fortalecer laços, ativar a cooperação internacional e também abrir mercados com os Estados Unidos.

P: Você não acha que, por ser um governo transitório, cujo principal objetivo é a pacificação e a convocação de eleições no país, foram tomadas decisões muito fortes na política externa?

R: Não consideramos assim porque este é um governo constitucional que não tem limitação de ação. Baseamos nossas ações na Constituição política do Estado. Não vemos por que deveríamos parar o país durante os três meses que a transição durará até a entrega do governo a outros. Estamos fazendo a coisa certa, o justo.

Não poderíamos permanecer indiferentes à interferência ostensiva da Venezuela. Nos últimos dias antes da transição constitucional, verificou-se que autoridades diplomáticas venezuelanas estavam seriamente envolvidas em atos desestabilizadores. Nós tivemos que agir.

P: Você disse que "o México violou a essência do asilo" por manter asilados em sua embaixada na Bolívia ex-oficiais acusados de sedição e terrorismo. A Bolívia poderia romper relações com o México?

R: Eu não acho que chegaremos a esse extremo. Sim, sofremos desgaste na medida em que o governo de Andrés Manuel López Obrador não apenas tolera, mas também incentiva a atividade desestabilizadora realizada por Evo Morales.

P: Você declarou no Twitter: "Não foi golpe de Estado, acontece que Evo Morales finalmente acatou a decisão do povo", mas para muitos foi um golpe de Estado. Como você explica isso?

R: Como jurista, posso argumentar com absoluta certeza e convicção que não foi um golpe de Estado porque houve uma renúncia de Evo Morales, que não estava sob pressão. Evo Morales percebeu que ele realmente não deveria permanecer no poder porque, por 20 dias, marchas pacíficas, que reuniram toda a juventude sem distinção, pediram que ele deixasse o poder. Ele sentiu essa força moral pesando sobre si. Além disso, a Polícia, a Central de Trabalhadores e muitos setores que a apoiavam também começaram a dizer: "Evo deveria sair".

Aqui na Bolívia, os três poderes do Estado continuam funcionando: o Judiciário, onde não houve mudanças, o Legislativo que aprovou uma lei para convocar eleições nacionais. Então, onde está o elemento que permite chamar de golpe de Estado uma transição constitucional?

P: O que aconteceria se dentro de três meses o MAS (Movimento ao Socialismo, partido de Morales) vencer e reverter as decisões tomadas nesses três meses?

R: Acho que não, porque a visão dos jovens do MAS têm não é a mesma dos antigos líderes do MAS, que estão contaminados com alguns temas que não são bons para o país. Acredito que muitas dessas políticas serão ratificadas. Atrevo-me a dizer todas. Porque tudo o que é feito neste ministério é baseado nos interesses da Bolívia.