Chanceler do Peru pede demissão após vincular Marinha a terrorismo

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BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Em menos de um mês à frente do Peru, o presidente Pedro Castillo já perdeu um ministro: o polêmico Héctor Béjar, 85, pediu demissão nesta terça-feira (17) após a Marinha do país repudiar as afirmações do agora ex-chanceler que vinculavam a força militar ao terrorismo.

As declarações, dadas em fevereiro, foram transmitidas por um programa de TV no último domingo (15). Nelas, Béjar diz que "o terrorismo no Peru foi iniciado pela Marinha", que "foi treinada pela CIA".

No dia seguinte à exibição das falas, os militares rebateram os comentários, segundo eles "carentes de veracidade" e "uma afronta a homens e mulheres que lutaram e lutam contra a delinquência terrorista".

Esta não é a primeira polêmica provocada por Béjar. Antes, ele havia sugerido que o Peru deixasse de sediar o Grupo de Lima, formado por nações que se opõem à ditadura chavista na Venezuela. Embora essa também seja a posição do próprio Castillo, o presidente vem mantendo o tema em suspenso.

A nomeação para se tornar chanceler foi uma surpresa, já que Béjar faz parte da ala mais radical do Perú Libre, o partido governista. Na esteira da reformulação da imagem do eleito, imaginava-se que Castillo fizesse uma escolha moderada para o posto. Ainda não foi definido quem será o substituto do ministro.

Béjar, um admirador do chavismo, foi amigo de Che Guevara e de Fidel Castro. Depois de quatro anos preso por suas atividades na selva peruana, estreou na política em 1970, quando foi anistiado pela ditadura militar do esquerdista Velasco Alvarado e passou a ser assessor do líder autoritário.

O afastamento de Béjar do governo de Castillo já havia sido pedido no último dia 12 por parlamentares de oposição, de legendas como Avança País, Renovação Popular e Força Popular, que não querem que o Peru abandone o Grupo de Lima e os esforços para que a Venezuela volte a ser uma democracia.

"A nomeação de Béjar foi uma surpresa total, porque ele já era considerado um homem aposentado, em razão de sua idade avançada. No meio acadêmico, é visto com respeito, uma pessoa culta, autor de vários livros e professor da Universidad de San Marcos [uma das principais do Peru], mas não sabíamos se tinha as qualidades para ser um chanceler, nunca havia exercido funções similares antes", disse à Folha Fernando Tuesta Soldevilla, analista político e professor da Pontificia Universidad Católica do Peru.

Para ele, "as palavras simpáticas aos atuais regimes de Cuba e Venezuela não caem bem junto ao mercado nem junto ao corpo diplomático bastante profissional que o Peru tem".

Advogado, doutor em sociologia, Béjar nasceu numa família de classe média da província de Huarochirí.

Nos anos 1960, entusiasmado com a Revolução Cubana, viajou a Havana e ali recebeu treinamento. Ao voltar ao Peru, entrou nas filas do MIR (Movimento de Esquerda Revolucionária). Foi preso em 1966, após um ataque desarmado pelas Forças Armadas. Anistiado e libertado, passou a integrar o Sistema Nacional de Mobilização Social, dedicado a promover e organizar movimentos sociais e militantes.

Depois dessa experiência, partiu para a vida acadêmica e lançou livros sobre a história recente do Peru, como o premiado "1965 - Notas de Uma Experiência Guerrilheira" e "Velasco", uma biografia do ex-ditador.

As frases de Béjar sobre Cuba e Venezuela estão alinhadas ao que Castillo pensa. Ao comentar os recentes atos anti-ditadura na ilha, disse que "há uma manobra tonta e evidente em curso, nascida dos setores mais extremistas dos EUA para impor uma agenda já fracassada". Sobre o chavismo, afirmou ser "uma obrigação moral defendê-lo, pois é uma das poucas possibilidades de mudar esta sociedade suja".

Ao definir a gestão Castillo, em uma entrevista a um site argentino, Béjar disse que "a atual onda de esquerda na América Latina será mais conservadora e menos progressista em relação a liberdades individuais, mas mais ampla quanto a direitos econômicos e sociais". O agora ex-chanceler, assim como Castillo, opõe-se ao direito ao aborto e ao matrimônio igualitário.

Em seu juramento de posse, Béjar afirmou que o Peru teria "uma diplomacia nacional, autônoma, democrática, social e descentralizada". Defendia também a criação de uma Comissão da Verdade para esclarecer os abusos do período da ditadura de Alberto Fujimori (1990-2000) e da guerra contra o Sendero Luminoso. Em seu confronto com o estado peruano, a guerrilha esquerdista protagonizou um período de grande violência no país, com saldo de mais de 70 mil mortos.

Na semana passada, Béjar disse, ainda, concordar com o presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, nas críticas ao atual papel da OEA (Organização dos Estados Americanos) e se mostrou simpático à criação de um novo bloco latino-americano sem a participação dos EUA, como era a Unasul.

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