Charles 3º reafirma legado da rainha e destaca herdeiros em 1º discurso como rei

LONDRES, REINO UNIDO (FOLHAPRESS) - Em seu primeiro pronunciamento à nação como rei Charles 3º nesta sexta-feira (9), o filho mais velho da rainha Elizabeth 2ª e seu sucessor no trono britânico buscou honrar o legado da mãe e sublinhar a relevância dos próprios herdeiros, os príncipes William e Harry.

Charles, 73, seguiu os austeros protocolos que regem a conduta da família real e centralizou seu discurso em um ideal de continuidade, sem gerar expectativas de grandes mudanças e apontando a rainha como sua grande inspiração. O pronunciamento foi gravado no Salão Azul do Palácio de Buckingham durante a tarde e televisionado pontualmente às 18h (14h em Brasília) pela BBC, rede pública de rádio e televisão.

"Ao longo da vida, a rainha, minha amada mãe, foi uma inspiração e um exemplo para mim e para toda minha família, e temos com ela a dívida mais sincera que qualquer família pode ter com sua mãe", disse Charles, com semblante pesado, de terno e gravata pretos, com uma foto de sua mãe posta ao seu lado, na mesa.

"Nos últimos 70 anos, vimos nossa sociedade se transformar em outra de muitas culturas e crenças. As instituições mudaram em resposta. Mas através de todas essas mudanças e desafios, nossa nação prosperou e floresceu. Nossos valores se mantiveram e devem se manter os mesmos."

Charles citou os filhos ao lembrar que, após tantos anos como príncipe de Gales, agora passa esse título a William. "Com Catherine ao seu lado, nossos novos príncipe e princesa de Gales vão continuar a liderar e inspirar nossas discussões nacionais, ajudando a trazer as margens para o centro, onde ajuda vital pode ser fornecida."

De forma menos solene, ele também expressou seu "amor por Harry e Meghan, enquanto eles continuam construindo suas vidas" do outro lado do Atlântico. O casal se separou oficialmente da família real em 2021 e protagonizou algumas das principais crises envolvendo a realeza nos últimos anos.

O rei disse "contar com a ajuda amorosa de sua querida esposa", Camilla Parker Bowles, que agora se torna sua rainha consorte. Por fim, lembrou que deve se afastar de algumas das atividades que tem tomado mais seu tempo nos últimos anos, em especial a caridade e os projetos de preservação do meio ambiente, para se dedicar aos assuntos de Estado.

O filho mais velho de Elizabeth, que segundo pesquisas é menos popular que a mãe, será proclamado rei neste sábado (10), em uma reunião do Conselho de Ascensão realizada no Palácio de St James, seguida de proclamações em todo o país. Sua coroação, no entanto, ainda não tem data marcada —e pode acontecer daqui a mais de um ano.

CONTATO COM OS SÚDITOS

Príncipe herdeiro por mais de 70 anos, Charles chegou a Londres por volta das 14h (8h em Brasília) desta sexta, após ter ido correndo à Escócia visitar a mãe no Castelo de Balmoral, onde ela acabou morrendo. Ele e Camilla vestiam roupas pretas e foram recebidos por uma multidão em frente ao Palácio de Buckingham.

Charles trocou palavras e apertou as mãos de diversos súditos, além de parar para ver as flores depositadas por britânicos e turistas no portão. Depois, seguiu para o palácio, onde a bandeira do novo soberano estava hasteada.

Antes de discursar, ele se reuniu com a primeira-ministra, Liz Truss, nomeada na terça-feira pela rainha —foi o último dever público da antiga soberana.

Monarca mais velho a assumir o trono britânico na história e o que passou mais tempo como príncipe herdeiro, Charles deve fazer de seu reinado um período de transição entre o da mãe, venerada pela dedicação ao serviço público, e o do filho William, 40, visto como a modernização da realeza.

Enquanto Elizabeth assumiu o trono quanto o Reino Unido ainda era uma potência, Charles herda um país que vive uma crise de identidade e se tornou um ator secundário na geopolítica global. Além de ter optado por uma guinada isolacionista com o brexit, o divórcio com a União Europeia, tem sua própria existência sob risco.

Estão no horizonte um novo referendo sobre a independência da Escócia, pressões crescentes para a integração da Irlanda do Norte à República da Irlanda e até um ressurgente nacionalismo em Gales —algo particularmente doloroso para um homem que ficou tanto associado à região.

LUTO ATÉ O FUNERAL

O governo declarou luto nacional até o funeral, cuja data ainda não foi confirmada, mas deve ocorrer em cerca de dez dias, e alertou sobre possíveis atrasos em alguns transportes públicos devido às multidões que se reúnem em frente às residências da realeza.

O Palácio de Buckingham também anunciou um período de luto a ser observado por membros da família e da casa real até uma semana após o enterro.

O Banco da Inglaterra disse que atrasaria em uma semana sua reunião mensal para definir as taxas de juros, devido à morte de Elizabeth.

As sessões regulares no parlamento foram substituídas por uma sessão especial para os legisladores prestarem homenagem à rainha. Os parlamentares também se reunirão no sábado, algo que raramente fazem, para aprovar uma mensagem de condolências ao rei.

"Desde as notícias chocantes de ontem à noite, testemunhamos a mais sincera manifestação de pesar pela perda de sua falecida majestade, a rainha", disse Truss aos legisladores, que fizeram um minuto de silêncio no início da solenidade.

"Sua Majestade, o rei Charles 3º, tem uma responsabilidade incrível que agora carrega por todos nós", continuou a primeira-ministra. "Ele já deu uma contribuição profunda por meio de seu trabalho em conservação, educação e sua incansável diplomacia. Devemos a ele nossa lealdade e devoção."

Elizabeth foi chefe de estado do Reino Unido e 14 outros reinos, incluindo Austrália, Canadá, Jamaica, Nova Zelândia e Papua Nova Guiné.

Charles, que automaticamente a sucedeu como rei, disse que a morte foi um momento de grande tristeza para ele e sua família.