Checamos: Lula acerta dado do Bolsa Família, mas erra sobre economia e gasolina em entrevista

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  • Em entrevista, Lula acerta sobre programa de transferência de renda e criação de universidades no Brasil

  • Contudo, errou dados sobre ranking econômico e autossuficiência do país em gasolina

  • Entrevista foi a mais assistida da história do programa e concorreu com live semanal de Bolsonaro

Durante entrevista ao podcast Podpah, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conversou sobre política e seus mandatos à frente da Presidência da República (2003-2010). A conversa transmitida pelo YouTube nesta quinta-feira (2), foi a mais assistida da história do programa e ficou entre os assuntos mais comentados das redes sociais.

O petista criticou o fim do programa Bolsa Família e acertou ao falar do benefício de transferência de renda e o preço do gás durante o seu governo, mas errou ao mencionar a colocação do Brasil entre as economias mais ricas do mundo durante seu governo e usou dado distorcido ao falar sobre a produção de gasolina no país. A entrevista foi exibida no mesmo horário da costumeira live semanal, realizada às quinta-feiras, no canal do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e registrou o recorde de audiência do podcast.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em entrevista ao podcast Podpah (Foto: YouTube/Reprodução)
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em entrevista ao podcast Podpah (Foto: YouTube/Reprodução)

Leia abaixo os trechos verificados pelo Yahoo! Notícias:

"[O programa Bolsa Família] foi eleito diversas vezes o melhor programa de transferência de renda no mundo. A ONU [Organização das Nações Unidas] cansou de indicar o Bolsa Família como modelo de programa de transferência de renda para as pessoas", declarou Lula em entrevista ao podcast PodPah.

A afirmação é verdadeira. Relatório do índice de Desenvolvimento Humano (IDH), divulgado pelo Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD), mostrou diversas medidas de proteção social e combate à pobreza e desigualdade adotadas pelo mundo e citou o Bolsa Família como um desses exemplos.

A organização ainda elogiou as estratégias brasileiras adotadas para evitar o retrocesso nos ganhos de populações vulneráveis, como o programa de transferência de renda e as cotas para afrodescendentes em universidades federais.

O estudo afirma ainda que os programas Bolsa Família, do Brasil, e Oportunidades, do México, são “exemplos de políticas ganha-ganha”, ou seja, onde todos são beneficiados. Na ocasião, a ONU reforçou a importância de tais programas durante o aumento dos preços dos alimentos sucedido pela crise de 2008.

Em 2007 o benefício social foi elogiado pelo Banco Mundial. "Uma revolução silenciosa muda a vida de milhões no Brasil e no mundo", é o nome do artigo que aborda como este modelo de política social foi adotado em outros países. "Os resultados do Bolsa Família mostram que é possível enfrentar a pobreza e a desigualdade de forma sustentada, integrando milhões de pessoas à economia e à cidadania, sem abrir mão do desenvolvimento econômico", diz um trecho do documento.

"Eu fui o presidente que mais fez universidades na história do Brasil", declarou Lula em entrevista ao podcast PodPah.

Durante a conversa, Lula afirmou que foi o presidente que mais criou universidades na história do país. A declaração é verdadeira. De fato, foram criadas 18 universidades federais no governo petista, sendo 14 delas na gestão Lula (2003-2010) e quatro no governo Dilma Rousseff (2011-2016). Três das universidades criadas por Dilma foram desmembradas de universidades federais antigas: a Universidade Federal do Oeste da Bahia (Ufob), a Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) e a Universidade Federal do Cariri (UFCA).

"Quando eu estava no governo, o Brasil era a sexta economia do mundo. Agora é a 13ª", declarou Lula em entrevista ao podcast PodPah.

A afirmação é falsa. Foi durante o primeiro ano do governo de Dilma Rousseff (PT), em 2011, que o país passou para a sexta colocação no ranking das maiores economias do mundo e não durante o governo Lula, como declarou o petista na entrevista. Na ocasião, o país havia ultrapassado o Reino Unido e se tornado a sexta maior economia do planeta. Atualmente, o país está na 13ª posição, segundo levantamento da Austin Rating.

"Sou o único presidente na história desse país sem um diploma universitário", declarou Lula em entrevista ao podcast PodPah.

A declaração é falsa. O petista não foi o único mandatário brasileiro a governar o país sem ter um diploma universitário. João Café Filho, presidente do país entre 1954 e 1955, também não tinha ensino superior completo. Contudo, ao contrário de Lula, Café Filho chegou a ingressar na Academia de Ciências Jurídicas e Comerciais do Recife, em Pernambuco, (PE), mas não chegou a concluir os estudos.

"Durante os oito anos em que fui presidente, não aumentamos o preço do gás", declarou Lula em entrevista ao podcast PodPah.

A afirmação é verdadeira. Durante o período em que Lula ocupou a cadeira da Presidência da República o preço do gás de cozinha não aumentou no país. Durante seus dois mandatos, o preço médio do botijão do gás de cozinha, chamado de Gás Liquefeito de Petróleo(GLP) teve variação de menos de 20 centavos, como mostra a série histórica.

"Por que o Brasil está vendendo a gasolina a quase R$ 8 quando nós somos autossuficientes?", declarou Lula em entrevista ao podcast PodPah.

Durante a conversa, Lula afirmou que o Brasil tem condições de lidar sozinho com a própria demanda de petróleo. Contudo, a alegação não é verdadeira.

De fato, o país possui quantidade suficiente de petróleo para ser autossuficiente. Mas precisa importar gasolina porque a capacidade de refino é abaixo da necessária para suprir a demanda interna, e parte do material que compõe o combustível não é produzido no Brasil.

Como já demonstrado pelo Yahoo! Notícias em verificações anteriores, o preço final da gasolina é definido por uma série de fatores. Em 2016, a Petrobras anunciou uma mudança na política de preços da gasolina que acompanha o valor internacional da gasolina e seus derivados. “A nova política prevê avaliações para revisões de preços pelo menos uma vez por mês. É importante ressaltar que, como o valor desses combustíveis acompanhará a tendência do mercado internacional, poderá haver manutenção, redução ou aumento nos preços praticados nas refinarias”, disse a empresa no comunicado.

A partir de então, a precificação adotada pela Petrobras passou a ser regulada pelo Preço de Paridade de Importação (PPI) para o petróleo e seus derivados. Dessa forma, a cotação do dólar e o valor internacional do barril de petróleo influenciam os preços cobrados ao consumidor final.

De acordo com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), além do ICMS (27,9%), o preço final da gasolina é composto por:

  • 32,9% – lucro da Petrobras

  • 15,9% – custo do etanol presente na mistura

  • 11,6% – impostos federais (Cide, Cofins e PIS/Pasep)

  • 11,7% – distribuição e revenda do combustível

Neste ano, houve nove reajustes no preço da gasolina pela Petrobras, e hoje o combustível sai das refinarias a R$ 2,78 por litro. A alta do preço dos combustíveis é uma questão polêmica no governo Bolsonaro e o mandatário trava um embate com governadores em torno da taxação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) — que compõe o preço final do combustível repassado aos consumidores — e atribui aos estados a alta no preço da gasolina.

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