Chef João Diamante: 'Lá atrás, meu sonho era ganhar R$ 1.200 de salário e comprar uma casa na comunidade'

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RIO — Pedra preciosa, dona de brilho e beleza rara. Assim pode ser definido o significado do sobrenome de um prestigiado chef de cozinha, nascido e criado na comunidade Nova Divanéia, no Grajaú, e morador há três anos de um apartamento comprado no mesmo bairro, fruto de sua ascensão profissional. João Diamante, proprietário do restaurante itinerante Na Minha Casa — atualmente em funcionamento na Avenida Engenheiro Richard 24, Grajaú — e idealizador do projeto social Diamante na Cozinha, não brincou de panela na infância, nem se aventurou no preparo das refeições da família; também não sonhou que o seu destino seria criar iguarias diante de um fogão. Mas quis o destino que descobrisse o seu talento culinário durante o serviço militar obrigatório, na Marinha do Brasil.

— A gastronomia entrou na minha vida por acaso. Quando entrei para a Marinha, a área em que eu conseguia sair mais cedo e, consequentemente, permitia que eu tivesse tempo para estudar era a cozinha. Eu logo me encontrei ali, sobretudo pelo prazer de servir ao próximo. Em pouco tempo, comecei a fazer cursos na área de gastronomia. Ao me aprofundar na busca de conhecimento, me apaixonei a cada dia mais. No serviço militar, fui auxiliar de cozinha, cozinheiro e depois tive a oportunidade de ser cozinheiro de autoridade, ou seja, cozinhar para o almirante, algo similar a ser um grande chef aqui fora. Fiquei na Marinha por cinco anos. Cursei a faculdade de Gastronomia e depois fui morar em Paris, na França, onde trabalhei com uma das maiores lendas da gastronomia mundial, o chef Alain Ducasse, no restaurante da Torre Eiffel — conta.

Uma caminhada surpreendente para quem precisou trabalhar ainda criança.

— Quem nasce em uma comunidade não tem o privilégio de ser exatamente o que quer. Quando era menino, fazia o que aparecia na minha frente. Comecei a trabalhar aos 7 anos, algo normal em uma favela. Não faltava comida em casa, não passava fome, mas eu queria ter algumas coisas, roupas, brinquedos, e não queria incomodar a minha mãe. Então, trabalhei na padaria da comunidade, como trocador de Kombi, em marcenaria... Fiz de tudo um pouco. Para minha sorte, eu me encontrei profissionalmente na cozinha — recorda.

O segredo do sucesso, aposta Diamante, não está necessariamente no preparo de uma receita especial:

— Não foram os pratos, o tempero, que me fizeram ter todo este reconhecimento. Foi um detalhe: a atenção para servir a comida na temperatura adequada, assim como as bebidas. O meu cuidado com o todo foi o que chamou a atenção na Marinha em relação ao meu trabalho. Sempre dei o meu melhor. Só depois veio a preocupação com a apresentação, o sabor e a criatividade nos pratos.

Quando olha para trás, o chef nem de longe imaginava conquistar o prestígio que tem atualmente. Diamante é apresentador do programa “Garimpeiros do sabor”, no canal Woohoo; participou como convidado do “Mestre do sabor”, da TV Globo; foi jurado da mais recente temporada do “Cozinheiros em ação”, do GNT; marcou presença duas vezes no “Mais você”, cozinhando ao lado de Ana Maria Braga; e foi entrevistado por Pedro Bial no “Conversa com Bial”, também da Globo, entre outros trabalhos na TV e em alguns canais da internet.

— Lá atrás, o meu sonho era ganhar R$ 1.200 de salário e comprar uma casa na comunidade. A partir daí, tudo que veio foi lucro. Imediatamente, senti que precisava compartilhar as oportunidades que havia ganhado com os que estavam precisando de ajuda. Nunca perdi o foco de quem sou, por isso sabia que precisava criar um projeto social — observa.

Esta bagagem de vida foi a inspiração para fundar o Diamante na Cozinha.

— Este projeto nasceu na França, porque, embora estivesse morando lá, jamais esqueci das minhas origens. Tenho a missão de sempre contribuir com a sociedade de alguma forma, até porque na minha infância fui acolhido por vários projetos sociais. Como a gastronomia já estava completamente inserida em mim, montei cursos de panificação, confeitaria e empreendedorismo gratuitos para atender as pessoas que se encontram em situação de vulnerabilidade social. Em cinco anos de existência, já formamos 240 alunos — ressalta o chef, que disponibiliza o perfil @diamantenacozinha, no Instagram, para contato.

Se o Diamante na Cozinha surgiu pelo desejo do chef de dar oportunidade a quem precisa, o restaurante itinerante Na Minha Casa também se tornou realidade motivado por uma causa social.

— Tudo começou porque eu chamava meus amigos da comunidade para irem aos restaurantes em que eu trabalhava e eles diziam que não tinham nem roupa para ir, muito menos dinheiro para pagar a conta. Isso me incomodava. Então, criei o projeto de um espaço com uma mesa grande, para 25 pessoas (esta parte da ideia sofreu alteração devido à pandemia), onde todos eram iguais, todos estavam lado a lado, do operário ao médico, passando pelo alto empresário. Apesar de atualmente não ser possível ter este mesão com todo mundo junto, o acolhimento é o mesmo. A comida é gostosa, afetiva, e a galera se sente em casa — garante. — Quero ter um restaurante com endereço fixo, mas sem nunca abrir mão do itinerante.

Ele ressalta detalhes: o projeto do Na Minha Casa só acontece na Zona Norte ou no Centro. No cardápio, um prato se destaca:

— A sensação do Na Minha Casa é uma costela suína defumada com molho de tamarindo, que a gente ata dca tamarindeira na rua, com musseline de batata-baroa e salada. E a quantidade é boa, porque brasileiro gosta de fartura!

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