Chefe da diplomacia dos EUA visita o Afeganistão para discutir retirada de tropas

Jay DESHMUKH
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O secretário de Estado americano, Antony Blinken

O secretário de Estado americano, Antony Blinken, chegou nesta quinta-feira (15) ao Afeganistão para uma visita surpresa, durante a qual apresentará o plano do governo Joe Biden de retirada de todas as tropas do país até 11 de setembro, quando os atentados de 2001 completam 20 anos.

A viagem, que não estava na agenda oficial, acontece um dia depois do anúncio do presidente dos Estados Unidos sobre a retirada de tropas, que acontecerá quatro meses depois da data limite de 1º de maio estabelecida pelo acordo do ex-presidente Donald Trump com os talibãs em fevereiro de 2020.

Blinken se reuniu com o presidente afegão, Ashraf Ghani, e comandantes militares americanos no Afeganistão para debater o anúncio de Biden de que chegou o momento de "acabar com a guerra mais longa dos Estados Unidos", que começou em 2001.

"Quero demonstrar com minha visita que permanece em vigor o compromisso dos Estados Unidos com a República Islâmica e o povo do Afeganistão", afirmou o secretário de Estado após a reunião com o presidente afegão.

"A aliança está mudando, mas a aliança persiste", completou.

Durante outra reunião com o primeiro-ministro Abdallah Abdallah, que lidera a delegação afegã nas negociações de paz com os talibãs, Blinken disse que "começa um novo capítulo que estamos escrevendo juntos".

Washington mantém 2.500 soldados no Afeganistão, que integram a missão da Otan no país da Ásia Central.

Antes do encontro com Ghani, Blinken se reuniu na embaixada dos Estados Unidos em Cabul com vários comandantes militares americanos.

"O que vocês e seus antecessores fizeram nos últimos 20 anos é realmente extraordinário", afirmou o chefe da diplomacia.

A notícia da retirada das tropas americanas gerou certa surpresa no Afeganistão e muitos analistas acreditam que pode levar o país a uma nova guerra civil ou permitir o retorno ao poder dos talibãs, que foram derrubados no fim de 2001.

"Podemos perder tudo pelo que trabalhamos e lutamos juntos durante os últimos 20 anos e isto pode colocar em risco a segurança de todos no Afeganistão", lamentou Metra Mehran, ativista em Cabul dos direitos das mulheres.

Washington, no entanto, considera que chegou o momento da retirada militar, após 20 anos de guerra e 2.400 soldados mortos.

"Não podemos seguir o ciclo de estender ou expandir nossa presença militar no Afeganistão esperando criar as condições ideais para uma retirada", afirmou Biden na quarta-feira.

Mas o adiamento da retirada em quatro meses irritou os insurgentes afegãos.

"Isto abre o caminho para os mujahedines do Emirado Islâmico para que façam ações em resposta", afirmaram os talibãs em um comunicado divulgado após a chegada de Blinken ao Afeganistão.

O porta-voz dos insurgentes, Zabihullah Mujahid, advertiu que "se o acordo for quebrado e as forças estrangeiras fracassarem em abandonar o país na data estabelecida, isto agravará os problemas e aqueles que não respeitaram o acordo assumirão as responsabilidades".

Os confrontos entre o exército afegão e os talibãs não param, apesar de meses de negociações de paz entre os dois lados no Catar.

Há uma década, os Estados Unidos tinham 100 mil soldados no Afeganistão. No fim da presidência Trump, o número caiu para 2,5 mil. Em fevereiro, a Otan contava com quase 10 mil soldados no país.

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