Chefe da Funarte em SP é exonerada, e servidores temem concentração de projetos em Brasília

CAMILA MATTOSO
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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Coordenadora da representação Sul/Sudeste da Funarte, sediada em São Paulo, Ivone Francisco dos Santos foi exonerada do cargo nesta quinta-feira (15). Ela diz à reportagem que soube de sua saída do cargo somente nesta quinta (15) mesmo, com a publicação no Diário Oficial, e que não lhe foram apresentados motivos. "Essas exonerações acontecem assim: você acorda e se depara com elas. Você não tem a menor ideia do que houve, do que aconteceu. Não existe um motivo que eu conheça. Recebi mensagens hoje cedo de todo mundo lamentando, muito tristes, e elogiando o trabalho que fiz. É o retorno que tinha de colaboradores, servidores e artistas", diz Ivone. "Nós das regionais não temos contato com a Secretaria de Cultura ou o Ministério do Turismo. Na verdade, não nos conhecem. Não tem alguém de Brasília que venha aqui e diga 'deixa eu ver esse trabalho como é feito'", completa. A exoneração foi assinada pelo ministro do Turismo, Gilson Machado Neto, pasta à qual está subordinada a Secretaria Especial de Cultura. No começo de abril, o então presidente da Funarte, Lamartine Barbosa, foi exonerado. Em carta revelada pelo jornal Folha de S.Paulo, ele disse que não pôde aceitar imposições equivocadas de Mario Frias, secretário especial de Cultura. Servidores da secretaria temem que a exoneração de Ivone signifique encolhimento das atividades da representação regional ou até mesmo seu fechamento. Representações regionais da Ancine e do Pronac têm sido fechadas pelo governo federal, em movimento interpretado como de concentração de atividades na própria Secretaria de Cultura, enxugando atribuições de agências e fundações. Esses escritórios são considerados importantes por promoverem a interlocução com cenas artísticas regionais. A representação Sul/Sudeste da Funarte tem área de atuação que compreende São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A sede da Funarte fica no Rio de Janeiro. Como explica a página da fundação, a representação é responsável "pela administração do Teatro de Arena Eugênio Kusnet e dos Galpões da Funarte, que desde os anos 1980 são referência na vida cultural de São Paulo e passaram recentemente por uma completa reestruturação." Ivone diz à reportagem que o trabalho do governo federal na área cultural tem dificuldade em mostrar resultados devido à falta de continuidade na gestão. A Funarte, por exemplo, aguarda a nomeação de seu sexto presidente desde o início do governo Bolsonaro. "Como gestora, eu invisto nas pessoas. Não demiti ninguém enquanto estive na Funarte. Preciso investir, a não ser que seja um profissional que não trabalha bem. Quando você exonera alguém, a não ser que o motivo seja puramente político, tem que ter um motivo. Se não tem, então é político. Se é político, não posso fazer nada. Se eu tenho uma equipe e toda hora estou trocando, o problema está em mim. Não estou investindo. Ou não estou contratando bem. O problema é meu. Se eu não contrato bem, troco toda hora. A impressão é a de que para não acontecer nada, toda hora coloca um. E não acontece nada. Toda hora é um. Você não consegue produzir nada". Ela ressalta, por outro lado, que entende que demissões de servidores comissionados como ela são naturais em qualquer governo por razões políticas e que encara a decisão por sua saída com naturalidade. "Meu cargo era um cargo político. Você pode ser exonerado a qualquer momento, sem explicação. Qualquer governo faz isso. Moralmente falando, não é necessário que aconteça dessa forma. A lei diz algumas coisas, mas na vida real você não precisar ser exatamente como a lei para oferecer algum conforto. A gente desempenha um trabalho que é remunerado, claro, mas também em prol da cultura", afirma. A Funarte tem como missão promover e incentivar a produção, a prática, o desenvolvimento e a difusão das artes no país, sendo responsável pelas políticas públicas federais de estímulo à atividade artística brasileira.