Chefe da Polícia Legislativa da Câmara diz acreditar que invasores foram treinados: 'Sabiam o que faziam'

Responsável por comandar a equipe da Polícia Legislativa que tentou conter manifestantes golpistas no dia 8 de janeiro, o diretor de Segurança da Câmara, Adilson Dias, acredita que os extremistas haviam passado por algum tipo de treinamento antes de invadirem as sedes dos três Poderes. Em entrevista ao GLOBO, ele cita, por exemplo, que tanto o preparo para lidar com bombas de como o conhecimento prévio dos locais que deveriam atacar para causar danos maiores são evidências que devem ser investigadas.

— Participei da linha de frente da Polícia Legislativa durante as manifestações de 2013, por exemplo, e posso garantir que a grande diferença entre os dois atos é que desta vez o grupo de invasores era treinado — afirmou ele, que detalha o modus operandi dos golpistas: — Eles sabiam o que faziam, agiam de maneira orquestrada. Em 26 anos na polícia, nunca vi algo parecido em termos de planejamento. Eles aguentaram o confronto por três horas e usaram técnicas, como pegar as nossas mangueiras anti-incêndio para lavar os rostos após inspirarem gás.

Outro ponto que chamou a atenção de Dias foi a intimidade com que os extremistas percorriam os corredores do Congresso e buscavam atalhos para chegar aos locais que seriam alvos da destruição:

— Sabiam onde ficavam as centrais elétricas e telefônicas, que foram atacadas. Tentaram destruir a central de monitoramento também. E a sequência dos fatos deixa claro que é provável o conhecimento desses acessos.

Segundo o chefe da Polícia Legislativa, o momento mais tenso do confronto ocorreu durante a tentativa de incendiar a Câmara. Dias conta que, neste momento, a brigada de bombeiros da Casa foi acionada e agiu rápido, evitando uma tragédia maior.

Oito policiais legislativos ficaram feridos durante a invasão. Ainda de acordo com o diretor, a Casa ofereceu acompanhamento psicológico e psiquiátrico para que os agentes possam lidar com o episódio.

O comandante das forças de segurança da Câmara não revelou qual foi o efetivo empregado no dia, mas admitiu que uma parte da equipe não estava de prontidão — uns porque estavam de férias, outros por atuarem na proteção de parlamentares. Mas, segundo ele, mesmo que 100% do efetivo fosse empregado, não seria suficiente para impedir a invasão.

— Nosso grande problema não era o efetivo. A área do Congresso Nacional é muito grande e precisaria de uma tropa de 20 mil ou até mais para cobrir tudo e evitar essa situação da invasão — afirmou. — Nosso principal orgulho é não ter permitido a invasão do plenário da Câmara, e a imagem que ficará para sempre na minha cabeça é a da bravura da corporação.