Chefe de gabinete de Flávio Bolsonaro que teria encontrado delegado da PF já teve sigilo quebrado

Juliana Castro e Juliana Dal Piva

RIO - Ao relatar que o senador Flávio Bolsonaro soube antes da operação que expôs a movimentação financeira de seu ex-assessor Fabrício Queiroz, o empresário Paulo Marinho cita que a informação foi repassada por um delegado da Polícia Federal em um encontro com Miguel Ângelo Braga Grillo, então chefe de gabinete do parlamentar na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Homem de confiança de Flávio e também do presidente Jair Bolsonaro, Braga teve o sigilo quebrado em virtude da investigação do Ministério Público do estado sobre a "rachadinha", assim como outros assessores e ex-assessores do então deputado estadual.

Atualmente, ele é chefe de gabinete de Flávio no Senado. Braga é coronel-aviador da reserva da Força Aérea Brasileira (FAB), o que lhe faz até hoje ser conhecido como Coronel Braga, e começou na função principal do gabinete do parlamentar na Alerj em dezembro de 2007. Os mais íntimos, porém, o conhecem como Grillo, uma brincadeira a partir de seu último sobrenome.

Segundo relato do empresário Paulo Marinho - suplente de Flávio no Senado - em entrevista ao jornal "Folha de S.Paulo", o senador relatou Braga recebeu, logo após o primeiro turno, uma ligação de um delegado da PF do Rio que dizia ter uma informação de interesse do filho do presidente. Este, consultado, mandou Braga encontrá-lo. A reunião teria ocorrido na porta da Superintendência da PF na Praça Mauá, zona portuária do Rio, na presença do advogado Victor Alves e de outra pessoa da confiança do senador, Val Meliga. Victor também é um dos assessores que tiveram o sigilo quebrado.

No fim de semana, Braga não quis comentar o relato de Marinho:

- Não me meto nessa área não. Obrigada - afirmou ao GLOBO, desligando do telefone em seguida.

Enquanto a tarefa de Queiroz sempre foi acompanhar o senador nas atividades de rua, como campanhas e visitas a sua base eleitoral, Braga sempre foi seu esteio junto à burocracia. Algumas vezes, representa o "zero um" junto a políticos. Como funcionário dos Bolsonaros, o coronel foi avalista da loja de chocolates de Flávio — hoje investigada por suspeitas de lavagem de dinheiro. Braga foi fiador de Flávio, com sua mulher, Dalva, no contrato de aluguel entre a loja e o Via Parque Shopping, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio. Na renovação do documento, ele também consta como avalista.

Por muitos, o coronel é descrito como uma pessoa metódica e centralizadora. Gosta que todas as demandas enviadas para Flávio passem por ele. Seu último salário líquido na Alerj, em janeiro de 2019, foi de R$ 15.600. No Senado, Braga recebe R$ 17 mil, já com os descontos.

Braga mantém um perfil discreto no dia a dia e tenta levar esse comportamento para as redes sociais. É sob o pseudônimo de Gregório Ferreira que se apresenta a alguns poucos amigos que mantém no Facebook. Entre eles, nomes da família Bolsonaro, como Carlos e o próprio Flávio — com seus perfis pessoais, diferentes das páginas políticas —, e outros, como um dos filhos de Fabrício Queiroz. Assim como outros admiradores dos Bolsonaros, já esbravejou por lá contra o PT, a Venezuela e o comunismo em suas postagens na rede social, sem se esquecer das críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF), em especial aos ministros Dias Toffoli, atual presidente da Corte, Ricardo Lewandowski e Gilmar Mendes.

A proximidade com a família começou em 2005, quando ele foi designado para ocupar um posto na Assessoria Parlamentar da FAB, em Brasília. Foi nos corredores da Câmara que o coronel e o então deputado federal Jair Bolsonaro se conheceram. Advogado, o militar começou o trabalho de interlocução com parlamentares — e, como defensor notório dos interesses das baixas patentes de todas as forças, Bolsonaro se tornou um dos políticos com quem Braga mais tinha contato. A assessoria do Comando da Aeronáutica foi seu último posto como militar da ativa. Na carreira, serviu na Base Aérea de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, e chegou a ser subcomandante da Base Aérea da Serra do Cachimbo, no Pará, no final dos anos 1990 e início dos anos 2000. Foi também adido aeronáutico junto à Embaixada do Brasil no Peru.

Na esteira do chefe, Braga também assumiu uma das vice-presidências do PSL em 2018, situação em que permaneceu até meados do ano passado, sob críticas dos deputados estaduais que se elegeram pela legenda.