Chefe da ONU lembra 'crise esquecida' na República Centro-africana

Por Philippe RATER
O secretário-geral da ONU, António Guterres (foto), disse no Conselho de Segurança que o ministro da Defesa do Sudão do Sul havia pedido desculpas pelo ataque ao comandante da ONU, ocorrido em 21 de setembro na capital sul-sudanesa, Juba

O secretário-geral da ONU, António Guterres, viajará para a República Centro-africana na próxima semana para chamar a atenção do mundo sobre esta "crise esquecida" e seu alto custo no número de trabalhadores humanitários e capacetes azuis.

"A República Centro-africana está muito longe de chamar a atenção da comunidade internacional", disse Guterres à AFP e à Rádio France Internacional em entrevista concedida nesta quarta-feira (18).

"O nível de sofrimento do povo, mas também o trauma dos trabalhadores humanitários e dos capacetes azuis merece nossa solidariedade e estrita atenção", disse.

Guterres estará na cidade de Bangui na terça-feira por ocasião do dia das Nações Unidas, que celebra a entrada em vigor da Carta da ONU (1945), e também estará em Bangassou, no sul, onde explodiu um forte conflito armado em maio.

"Este é um gesto de solidariedade com as missões de paz que trabalham em um dos ambientes mais perigosos", disse.

Nos novos confrontos na República Centro-africana enfrentam-se grupos armados que competem pelo controle dos recursos naturais e áreas de influência ao mesmo tempo em que dizem estar protegendo suas comunidades.

Estas lutas envolvem sobretudo milícias cristãs e grupos ligados aos rebeldes Seleka, que em sua maioria são muçulmanos.

Desde o começo do ano, 12 trabalhadores humanitários e 12 integrantes de missões de paz foram assassinados neste país, o que demonstra "quanto se deteriorou a situação", afirmou o chefe da ONU.

Enquanto vários funcionários das Nações Unidas se mostraram alarmados por "sinais incipientes de genocídio", Guterres assegura que ocorreu uma "limpeza étnica" em muitas partes do país.

Para sufocar esta violência, Guterres afirma que os líderes religiosos têm um "papel absolutamente indispensável", pois são os que podem tirar as comunidades cristãs e muçulmanas destas lutas.

- Reforçar a missão da ONU -

A espiral da violência se alimenta de "grupos armados que receberam ajuda externa", disse, sem dar maiores explicações. "O discurso de ódio se faz mais presente nos comunicados de muitos líderes comunitários", acrescentou.

Guterres também se reunirá com as vítimas de abusos sexuais realizados por membros das missões de paz como parte de seu esforço por atender às repetidas acusações feitas a respeito contra os capacetes azuis em várias missões ao redor do mundo.

A Minusca, a missão da ONU na República Centro-africana, é uma das que enfrentam o maior número de acusações de estupros.

Esse tipo de acusação fez com que Guterres decidisse este ano a retirada de um contingente da República do Congo.

O chefe da ONU pediu na terça-feira ao Conselho de Segurança para reforçar a missão de paz na República Centro-africana com 900 capacetes azuis adicionais, embora os Estados Unidos, os principais contribuintes, pressionam para diminuir os custos.

"Estou convencido de que haverá um entendimento entre todos os membros do Conselho de Segurança, inclusive os Estados Unidos" para incrementar o número de tropas na República Centro-africana para proteger civis, disse.

O Conselho deve decidir no próximo mês se aprovar as tropas adicionais para a Minusca, que atualmente tem 12.000 capacetes azuis.

A violência desatou neste país depois da expulsão em 2013 do líder François Bozize pelos rebeldes Seleka.

A França interveio militarmente para expulsar estes rebeldes, mas o país continua mergulhado na violência.

Mais de 600.000 pessoas tiveram que deixar seus lares no país e outras 500.000 cruzaram a fronteira e hoje são refugiados. Metade da população, 2,4 milhões de moradores, precisa de algum tipo de ajuda.