Chefia do Exército mudou. A relação entre Lula e militares também?

Brazil's President Luiz Inacio Lula da Silva attends a meeting with rector of Federal Universities and institutes at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil January 19, 2023. REUTERS/Adriano Machado
Foto: Adriano Machado/Reuters

Alexandre Padilha, ministro das Relações Institucionais, disse que Lula (PT) e os chefes militares saíram satisfeitos do encontro que tiveram na sexta-feira (20).

Parecia um novo dia de um novo tempo que, ufa, finalmente começou.

Quem acordou tranquilo no dia seguinte foi dormir sabendo que um dos presentes, o então comandante do Exército, general Júlio César de Arruda, havia sido demitido pelo presidente.

O encontro da véspera, ao que parece, não foi tão satisfatório assim.

Segundo os presentes, a tentativa de golpe de Estado promovido por bolsonaristas, com endosso de militares e pessoas próximas de militares, no dia 8, sequer foi abordada.

A não ser que o general tenha passado a reunião jogando Paciência no celular, não dá para imaginar outro assunto que tenha motivado Lula a tomar a decisão logo no dia seguinte a um encontro tão frutífero.

Já no sábado, aqui e ali as notícias sobre a “insubordinação inadmissível” do oficial começaram a aparecer. Ela estava expressa na hesitação em impedir que o ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro (PL) assumisse o comando de um posto estratégico em Goiás e também para evitar o desmonte de uma incubadora golpista acampada em frente ao QG do Exército em Brasília.

César de Arruda provavelmente saiu da reunião de sexta-feira com o destino selado. Não se sabe se ele já entrou demitido.

Isso, em si, já demonstra o nível de tensão entre Lula e parte das Forças Armadas. Uma tensão que, do lado de quem viu sua segurança ruir durante a invasão, tem razão de ser.

Lula sabe que antes, durante e depois da invasão do prédio dos Três Poderes havia militares da ativa envolvidos tanto nos atos como na agitação.

Braga Netto, candidato a vice na chapa derrotada de Jair Bolsonaro em outubro, era um deles.

Ministro da Defesa, José Múcio saiu da reunião de sexta-feira dizendo que todos os comandantes concordavam com a punição dos militares envolvidos na depredação. Pelo jeito, uns concordavam mais que outros.

Horas depois ele alegou “fratura na confiança” ao justificar a troca no Exército.

Já no domingo (22), quem acompanhou o desenrolar da crise for dormir novamente com a certeza, ventilada por emissários de um lado e outro da trincheira, de que agora tudo está pacificado, que quem despirocou será punido e que o novo governo finalmente começaria.

Afinal de contas, o novo chefe do Exército, general Tomás Miguel Ribeiro Paiva, havia dito aos seus subordinados do Comando Militar do Sudeste, dias atrás, que era necessário respeitar o resultado das urnas e que esse era o papel de uma instituição de Estado. Foi promovido dias depois por dizer o óbvio.

Vinte e três dias depois da posse, quem deseja passar a régua sobre o assunto e botar em campo ao menos um rascunho de agenda positiva, se houver, talvez não possa se dar ao luxo ainda de dormir em paz.

Durante o governo Dilma Rousseff (PT), Ribeiro Paiva chefiou o gabinete do então comandante do Exército Eduardo Villas-Bôas, marido de uma das agitadoras dos acampados em Brasília, que devem a ela a honra de uma visita pré-invasão.

Villas-Bôas foi o autor do famoso tuíte que, em abril de 2018, colocou a faca no pescoço do Supremo Tribunal Federal pouco antes do julgamento de um habeas-corpus impetrado pela defesa de Lula dias antes de sua prisão.

“Asseguro à nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais”, dizia o general em seu post.

Ribeiro Paiva, segundo a colunista Thaís Oyama, do UOL, foi quem sugeriu a inclusão dos termos “repúdio à impunidade” no texto.

Há quem ache que a mudança é o começo do novo dia de um novo tempo. Que, até agora, não começou. Ou que não terminou em 2018.