Crise dos 25 anos: situação econômica gera angústia para quem quer construir a vida

Crise dos 25 anos é marcada pela reavaliação de escolhas e de decisões (Getty Image)
Crise dos 25 anos é marcada pela reavaliação de escolhas e de decisões (Getty Image)
  • A "Crise dos 25" é caracterizada por um momento de reflexão e revisão de escolhas

  • Jovens têm cada vez mais dificuldade em conseguir independência financeira

  • Situação econômica gera ansiedade, dívidas e preocupações com o futuro

Quando eu chegar aos 25, a minha vida estará resolvida. Terei cursado a faculdade, viajado pelo mundo, financiado um imóvel e viverei tranquila em um apartamento com os meus gatos. Talvez até aprenda a dirigir. Pelo menos foi isso que pensei quando a maioridade bateu na porta e descobri que iria demorar para me tornar independente.

Sexta faz 25 anos que eu nasci na zona leste de São Paulo. E nunca mais saí daqui. Estou em crise. Não só eu como também 80% das pessoas que têm entre 25 e 33 anos também estão. Pelo menos foi isso que uma pesquisa realizada pelo Linkedin identificou.

Para 65% dos brasileiros, a compra da casa própria é um dos motivos que mais gera ansiedade. Já 75% disseram que as dificuldades respingam em relacionamentos. Um percentual de 37% está assustado com as dívidas.

Conhecido como quarter-life crisis (crise do quarto de vida), o termo surgiu pela primeira vez nos estudos do psicólogo alemão Erik Smith Erikson. O momento etário é marcado pela reavaliação de escolhas e de decisões.

Mas essa não é a única questão que preocupa. "Existe hoje uma dificuldade grande para os jovens que estão começando a construir a vida agora. Isso não era assim no Brasil até alguns anos atrás. Pelo contrário. Até 20 ou até mesmo 10 anos atrás era relativamente fácil para quem começava a construir uma carreira ou uma vida", explica Paulo Roberto Feldmann, coordenador de projetos da FIA Business School.

O país do futuro ficou no passado

Nessa idade, a minha mãe estava mobiliando uma casa para chegar com um bebê no colo. Já minha avó se preparava para casar e sair de Tobias Barreto, em Sergipe, para construir a vida na capital paulista. Ela queria que as filhas e as netas pudessem estudar.

Eu estudei. Cresci com a geração que acessou o ensino superior através de programas sociais. Me diziam que o Brasil era o país do futuro. Usufrui do ProUni e do FIES. Assim como mais de 3,2 milhões de pessoas, recebi um título universitário em troca de uma dívida que devo levar mais alguns anos para pagar.

Não me arrependo. O salário aumentou e as condições de trabalho melhoraram quando recebi o título de bacharel. Devo estar na estatística do Sindicato de Mantenedoras dos Estabelecimentos de Ensino Superior (Semesp), que aponta uma elevação de 182% na renda de quem concluiu a faculdade.

Na família, fui a única que conseguiu fazer home office na pandemia. Foi nesse mesmo período de crise sanitária que fiquei desempregada. Gastei o dinheiro que juntava para viajar pelo mundo para pagar as contas de casa.

Entrei para o percentual de 53% de brasileiros que conseguiram se manter apenas por três meses sem pedir dinheiro, como apontam dados do Banco de Desenvolvimento da América Latina.

"O Brasil tem uma taxa de desemprego muito alta, que neste mês caiu para 10%, mas tem oscilado na faixa dos 12% e 13%. Há também uma porcentagem enorme de pessoas trabalhando de forma informal. Estamos atravessando uma fase difícil, sem contar a inflação", ressalta Feldmann.

Eu quero sair e construir meu próprio lar

Quando voltei a conseguir trabalhos, financiar uma casa estava fora de cogitação. A taxa Selic atingiu a marca de 12,75%, o maior nível desde o início de 2017.

Juliana Alves foi mais corajosa. A designer editorial decidiu adquirir um apartamento junto com a namorada. "Comprei o apartamento bem no início da pandemia. Os preços dos produtos aumentaram muito e chegamos a pagar 2% de INCC. Quando fomos assinar com a Caixa, realmente veio a bomba: R$ 20 mil a mais em juros que tivemos que parcelar em 30 vezes. Não sobrou dinheiro para mais nada", explica.

O professor da FIA explica que a remuneração média do brasileiro caiu muito e ficou ainda mais difícil realizar o sonho da casa própria. "Nós estamos longe da média de renda de 2013. Aconteceu uma queda de 20% a 25% no período de nove anos para cá. Além disso, os financiamentos estão muito caros, com taxas de juros muito altas e com prazos que não são mais longos, o que deixa a situação muito difícil".

Com o pé no acelerador nessa estrada esburacada

Já que eu não conseguiria sair de casa agora, aproveitei a retomada das atividades para tirar a carta de motorista. Dizem que a galera mais nova não tem interesse em dirigir. Um levantamento realizado pela CNN apontou que o número de jovens com habilitação caiu 10,8% em 6 anos.

Não é sem motivo. A média de preços oferecidos pelas autoescolas em São Paulo é de R$ 1.200, conforme dados apurados pelo Sindicato das Auto Moto Escolas e Centros de Formação de Condutores do Estado de São Paulo. Isso é apenas R$ 12 a menos do que o salário mínimo.

Com a habilitação em mãos, fui pesquisar o preço dos carros. Nos últimos anos, até mesmo Os automóveis mais antigos tiveram elevações de preço. O Monitor de Variação de Preços da KBB Brasil apontou que os veículos com até três anos de uso ficaram 17,22% mais caros. O maior aumento foi registrado entre os modelos de quatro a 10 anos de uso, que ficaram em média 22,46% mais custosos.

“O valor dos carros usados estão altíssimos, então sinceramente já descartei essa possibilidade por enquanto”, desabafou Juliana.

Acorde, você precisa ganhar dinheiro

A pesquisa do Linkedin também mostra que o sonho de 46% das pessoas é encontrar emprego pelo qual se apaixone, enquanto 39% quer ter as qualificações certas para o mercado de trabalho. Ás vezes, nem isso é suficiente.

Apesar de dizer que sente satisfação no trabalho que realiza, Juliana diz que recebe um salário baixo. Ela acredita que a nossa geração tem mais dificuldade em ganhar bem.

“Acho que são vários fatores, incluindo a flexibilização de leis trabalhistas que faz com que várias áreas tenham o trabalho bem desvalorizado. Muitas pessoas trabalham como PJ com salário baixo e sem vínculo empregatício”, defende. A jovem de 25 anos ainda diz que os índices de desemprego poderiam justificar a desvalorização das profissões.

A crise dos 25 pode até ser um sintoma do amadurecimento. Mas os problemas encontrados pelos brasileiros que estão mais perto dos 30 do que dos 20 estão mais ligados à economia do que a questões filosóficas. Estou completando um quarto de século de existência e a vida resolvida vai ficar para depois. Me pergunte de novo daqui a 5 anos. Uma nova crise vem por aí.

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