Chico Buarque, com todo açúcar e todo afeto, está certo: certíssimo

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Chico Buarque diz em um documentário que não mais cantará "Com açúcar, com afeto", que "mulher não merece ser tratada assim", que as "feministas têm razão".

Semanas depois do lançamento do filme, isso chega ao Twitter e rapidamente se transforma em "as feministas atacaram Chico Buarque e agora ele não vai mais cantar 'Com açúcar, com afeto'. Cancelaram o Chico! Censura!"

Se acalmem, crianças: basta procurar, apurar. Ninguém pediu ao Chico para não mais cantar "Com açúcar, com afeto". Nenhum grupo feminista fez um abaixo-assinado ou se pronunciou criticando a letra, ou pedindo o cancelamento do compositor. Ninguém.

Chico Buarque decidiu por contra própria que não vai mais cantar "Com açúcar, com afeto". Tem todo o direito de o fazer, a canção é dele. É no mínimo ingenuidade, quiçá maldade, pensar que o artista brasileiro que fez a mais ferrenha oposição à ditadura militar em sua obra permitiria que alguém o calasse a essa altura da vida. Vocês esqueceram que estamos falando de Chico Buarque de Holanda, o "Apesar de você", o "Vai Passar", o "Cálice", o "Deus lhe Pague"?

Acontece que Chico já não canta "Com açúcar, com afeto" há décadas. A última vez que o fez foi em um show com Maria Bethânia, em 1975. Ou seja, ele já tinha deixado de cantar e nós nem percebemos.

É justo que Chico — cujo pensamento não envelhece, basta ouvir a canção "Caravanas" ou ler seu recente livro de contos "Anos de Chumbo, que contêm preciosas análises do Brasil contemporâneo — tenha em algum momento por volta de 1975 entendido que as opressões vividas por mulheres justificassem essa decisão.

Se isso aconteceu, Chico fez o que tem feito em toda a sua carreira, muito mais e melhor do que a maioria dos homens: ouviu a experiência feminina e, diante dela, agiu. Qualquer um de nós pode cantar ou ouvir "Com açúcar, com afeto" quando quiser; a canção está aí em todas as plataformas.

Ademais, será mesmo que cancelar Chico Buarque está na pauta feminista? No país que é o quinto no ranking global de feminicídios, em que são registrados 165 estupros por dia, em que uma mulher negra ganha 43% do salário de um homem mesmo desempenhando a mesma função — será que as mulheres feministas (somos muitas, plurais) estão preocupadas em cancelar Chico Buarque? A pauta é urgente e é outra, são outras.

Sobre Chico e sua arte, é lógico que há toda a discussão do eu lírico, ainda mais quando se trata do mais genial letrista da canção em língua portuguesa. "Com açúcar, com afeto" é uma canção lindíssima, que com olhar atento pode muito bem ser usada de forma educativa. Afinal, ainda há um número considerável de mulheres brasileiras que vivem como a que é retratada por Chico na letra. E, sobretudo, há ainda um número gigantesco de homens que não dão a mínima para os afetos e os desejos de suas companheiras, esses trastes.

Mas também vale pensar que o tal eu lírico foi durante séculos praticamente um privilégio masculino. E é por isso que há tantas letras que tratam de mulheres submissas e tão poucas sobre mulheres libertas da dominação masculina, pra usar o termo tão bem cunhado pelo Bourdieu.

Durante muito tempo foi negado às mulheres o espaço público, inclusive o direito à arte. Por isso, comparativamente, há menos expressão artística e intelectual feita por elas, e feita com perspectiva de gênero.

Como sentenciou Virginia Woolf no célebre ensaio "Um teto todo seu", de 1929, "Uma mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu, um espaço próprio, se quiser escrever". No último século e meio, nós estamos conquistando com intensidade esse espaço. Sem cancelar o trabalho de homens, mas produzindo nossa própria arte, sob a nossa perspectiva. Ou vocês não ouviram a palavra de Elza Soares nos últimos 20 anos?

Não inventem polêmicas que não existem, não caiam em click baits, larguem os celulares e vão viver suas vidas. Ao Chico e às feministas, todo o açúcar.

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