Chico Buarque traz ao Rio espetáculo com forte carga política e emocional

O mundo não é o mesmo desde a turnê “Caravanas”, a última vez em que Chico Buarque juntou sua turma — músicos como o violonista e diretor musical Luiz Cláudio Ramos, o baixista Jorge Helder e a tecladista e cantora Bia Paes Leme — e saiu em turnê pelo Brasil. Na ocasião, em 2017, Chico tinha um disco recém-lançado (homônimo à turnê), do qual saía boa parte do repertório do show. Em Brasília, o presidente era Michel Temer, empossado após o conturbado impeachment de Dilma Rousseff (e Chico, como sempre, foi um dos mais ativos contra esse movimento).

Já o show “Que tal um samba?”, que chega amanhã ao Vivo Rio (com ingressos já esgotados para toda a temporada), se baseia em uma nova canção (“Que tal um samba?/ Puxar um samba, que tal?... Um desafogo, um devaneio/ Um samba pra alegrar o dia”) e tem uma estrela dividindo os holofotes com o cantor de 78 anos: Mônica Salmaso. Entre diferenças e semelhanças, o verão carioca: “Caravanas” chegou à mesma casa no Aterro do Flamengo no dia 4 de janeiro de 2018, há cinco anos. E em Brasília...

— Chico chegou a dizer que não sabia se a turnê continuaria se Bolsonaro fosse reeleito — diz Bia Paes Leme, tecladista que acompanha o cantor tricolor há 25 anos, hoje com menos tarefas ao microfone do que habitualmente, exatamente devido à presença de Mônica. — Era um show de campanha mesmo, a gente via a esperança nos rostos e nas vozes das pessoas, e agora temos um sentimento de alívio, além da alegria de sempre.

“Que tal um samba?” estreou em João Pessoa, na Paraíba, no dia 6 de setembro do ano passado, e passou por Natal, Curitiba, Belo Horizonte, Fortaleza e Recife, antes de chegar ao Rio. Os shows em Salvador, que seriam realizados em novembro, foram adiados por causa da morte da amiga Gal Costa, no início daquele mês, e porque Chico contraiu Covid. Além da capital baiana, em abril, o cantor faz temporada em São Paulo, em março, e no meio do ano segue para a Europa.

— Foi surpreendente para todos nós — diz Jorge Helder sobre a turnê sem disco, além do intervalo menor em relação à excursão anterior. — Mas o mercado da música é diferente hoje, muita gente nem tem mais onde ouvir CDs, as pessoas prestam atenção nos singles que chegam às plataformas digitais.

Jorge e seu contrabaixo completam 30 anos ao lado de Chico em 2023.

— Quando ele me chamou para gravar “Que tal um samba?” (lançada em junho, a música tem participação do bandolinista Hamilton de Holanda), eu senti um cheirinho de turnê — brinca o músico.

O violonista Luiz Cláudio Ramos é, mais uma vez, o responsável pela direção musical do show. Mesmo com a presença de Mônica Salmaso (uma “surpresíssima”, na definição de Bia Paes Leme) e um mergulho maior no repertório, pela ausência de músicas novas, o maestro garante que tudo se mantém sob controle.

— Dá um pouco mais de trabalho, porque quando a gente tem um disco novo, os arranjos estão frescos, as músicas acabaram de ser registradas — conta ele, que acompanha o amigo desde a década de 1980. — Mas com o Chico tudo é feito com calma, de forma organizada. Foram seis ou sete semanas de ensaios antes da estreia.

Louvada por todos como um reforço musical e emocional, Mônica é a mais animada da trupe. Ela começa o show cantando cinco músicas sozinha, até recebê-lo em “Paratodos”, antes de uma série de duetos. Só então Chico tem o palco para si.

— Nem alucinando forte eu poderia supor que receberia um convite como esse — diz a cantora, de São Paulo. — Acho que a ideia veio depois que Chico gravou uma música comigo, durante a pandemia (os dois cantaram “João e Maria” para a série “Ô de casas”, de colaborações remotas). Ele levou séculos para aceitar, eu mandava as outras gravações, ele agradecia, eu chamava e ele dizia não, não, não (risos). Depois que tivemos esse pequeno convívio para a gravação, acho que ele acabou pensando em mim.

Segundo os companheiros, Chico pensa no roteiro, sem deixar de lado um bom debate democrático.

— Ele ouve todo mundo, pede sugestões, opiniões, mas já vem com o show na cabeça — diz Luiz Cláudio. — Eu sugeri “Roda viva”, porque achava que tinha a ver com o momento político, mas ele não quis.

Depois da morte de Gal, o repertório ganhou uma canção em homenagem a ela, “Mil perdões”, além do dueto com Mônica em “Biscate” e de outras gravadas pela baiana, uma das intérpretes favoritas do compositor. A cantora paulista, claro, teve direito a uma parte no latifúndio.

— Chico me disse para pensar no que cantaria, e apenas avisasse a ele — conta ela, lembrando da brincadeira. — Ele já tinha pensado nesse desenho, em que o show começa comigo, depois vêm os duetos, aí ele canta sozinho, e eu volto no fim.

Mônica começa o show com “Todos juntos”, aquela mesma dos “Saltimbancos”, em mais um recado político de “Que tal um samba?”. E ainda canta “Mar e lua”, “Passaredo” e “Bom tempo”, antes de chamá-lo em “Paratodos”.

— Eu tive a preocupação de não fazer nada longo demais, para não cansar as pessoas — conta ela. — E, ao mesmo tempo, prepará-las para a chegada do Chico.

E o mestre, então, enfileira mais de 20 dos seus clássicos, como “Bastidores” ou “O meu guri”.

Mônica é mais uma a destacar a importância do show no atual momento político do Brasil, com sua mensagem de esperança, depois a tensão, principalmente entre os turnos, e a vitória de Lula.

O primeiro show após o segundo turno foi justamente em Brasília, onde o público recebeu o espetáculo de forma “elétrica, quase histérica”, na definição de Bia.

— O Brasil inteiro está no show — continua Mônica. — Já saí chorando várias vezes. É muito intenso ver duas ou três mil pessoas cantando, querendo as mesmas coisas, ao som de músicas que falam das vidas de todos nós. A gente canta com alívio, raiva, cansaço, tudo junto. É muito lindo. Para você ter uma ideia, esse show, neste momento, é mais importante do que o próprio Chico.