Chico César sobre turnê com Geraldo Azevedo: 'É um show para celebrar que estamos vivos'; veja vídeos do ensaio caseiro

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"Professor!”, saudou Chico César, de braços abertos, ao dar de cara com Geraldo Azevedo. O compositor paraibano chegava à casa do artista pernambucano, no Cosme Velho, Zona Sul do Rio, para um ensaio do show “Violivoz”. A dupla estreou a turnê dias atrás, em Recife, passou por Natal, chega a Aracaju no próximo dia 12, segue por outras cidades até aportar em solo carioca dias 4 e 5 de dezembro.

— Nossa, tá chique demais! Rapaz, um dia vou vestir um blazer desses. — elogiou Geraldo, referindo-se ao terno de Chico. — Ó, passei minha camisa, porque não trabalho com esse negócio de empregada, não.

No que Chico tratou logo de avisar:

— Se gostou desse, se prepara só para ver os meus figurinos dos shows...

Era uma segunda-feira chuvosa (“como o Rio é melancólico no frio”, disse Chico), e ele vinha de São Paulo. Assim que chegou, bateu um pratão da comida macrobiótica encomendada para ele (arroz integral, legumes e bolinho de tofu), que é vegano.

Geraldo, por sua vez, estava tenso. Tinha fechado a porta do carro sobre a mão esquerda, que ficou roxa e inchada. É a mão que ele usa para marcar as posições das notas no instrumento. O cuidado com essa parte do corpo é tanto que Geraldo não abre mão de fazer as próprias unhas. Desenvolveu até uma técnica pessoal: corta uma bolinha de pingue-pongue no formato delas e cola por baixo. Ficam mais resistentes para dedilhar o violão.

Mas bastou eles pegarem seus instrumentos para o problema se dissipar (“o violão é a nossa arma, né, Geraldo?”, disse Chico). Sentaram no sofá da sala e começaram um diálogo musical que é a espinha dorsal do show “Violivoz”: dois exímios instrumentistas brincando com seus violões e convidando o público a cantar junto.

— A gente está carente de tocar para e ouvir aquele coro que aquece o coração. Por isso, escolhemos um repertório de hits — explicou Geraldo.

É um sucesso atrás do outro, pinçados da coleção particular dos dois: “Táxi lunar”, “Mama África”, “Deus me proteja”, “Moça bonita”, “Pensar em você”, “À primeira vista”, “Bicho de sete cabeças”, “Dia branco”, “Pedra de responsa”, “Dona da minha cabeça”... Há também duas parcerias: “Tudo de amor”, que nasceu antes da pandemia, durante noitada de violão e vinho na casa de Chico; e “Nem na rodoviária”, composta remotamente.

A admiração mútua dos artistas motivou esse trabalho. Chico, de 57 anos, lembra quando ouviu Geraldo, de 76, pela primeira vez.

— Foi no disco com o Alceu Valença (o primeiro da carreira de Geraldo, lançado em 1972). Além das músicas, que falavam do meu universo, o espírito de partilha e parceria, de fazer algo junto, me chamou atenção, achei bonito — lembrou ele, que já dividiu palco e projetos com estrangeiros como Ray Lema e Pedro Guerra e brasileiros como Paulinho Moska e Zeca Baleiro.

Geraldo também ficou “encantado” com o primeiro álbum de Chico, “Aos vivos” (1985).

— Comprei duas caixas e saí distribuindo. Chico é dessa geração pós a gente. Porque que teve a bossa nova, o tropicalismo e a geração dos nordestinos, nos anos 1980, que infelizmente não teve um rótulo para marcar dentro da história da música brasileira, mas marcou. Fagner, Alceu, Elba Ramalho, Zé Ramalho, Belchior...

Os 20 anos que separam os dois não diminuem a identificação. A musicalidade os aproxima. São dois experts na composição. A origem nordestina, a música sertaneja e todo o caldo cultural regado a Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, baião, coco, bossa nova, Tropicália e Jovem Guarda forjaram a arte de cada um deles, que agora unem suas violas e vozes para comemorar a retomada cultural brasileira.

— É um show para celebrar o coletivo e o fato de estarmos vivos — afirma Chico, que se define como um “otimista incorrigível”.

Geraldo completa.

— Queremos afirmar a beleza do Brasil, apesar desse horror que estamos vivendo na política.

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