Chile avança para a mudança com ampla lista de candidatos constituintes

Paulina ABRAMOVICH
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Advogados, sindicalistas, jornalistas, ativistas sociais, políticos e até militares estão entre os milhares de candidatos que se inscreveram no Chile para integrar a Convenção Constitucional, órgão que, com paridade de gênero e representação indígena, redigirá uma nova Constituição.

Às vésperas do encerramento das inscrições de candidatos, as forças políticas ajustam as últimas peças antes de uma eleição considerada a mais importante da história recente do Chile, em 11 de abril.

Esse processo é fruto do plebiscito de 25 de outubro, quando 79% do eleitorado votou a favor da mudança da Constituição herdada da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

O mesmo percentual optou por que essa nova Carta Magna seja redigida apenas por candidatos eleitos.

Entre os candidatos estão alguns dos protagonistas da revolta social de 18 de outubro de 2019, personalidades da cultura e também militantes de partidos tradicionais.

No entanto, vários analistas e parte da população lamentam que não haja mais independentes, que enfrentam múltiplos obstáculos e têm pouco tempo para coletar as assinaturas necessárias em meio à pandemia e quarentena neste país de 18 milhões de habitantes.

“A pandemia foi um grande obstáculo para os independentes. Na situação atual, os nomes mais conhecidos têm certa posição de vantagem, junto com aqueles candidatos que têm uma máquina partidária por trás”, explicou à AFP o cientista político da Universidade de Santiago Marcelo Mella.

- Referências sem partido -

O psicólogo Benito Baranda, referência no Chile em questões de pobreza por ter dirigido Hogar de Cristo e América Solidaria, busca agora ser membro da Assembleia Constituinte apoiada pelo movimento "Independientes no neutrales".

“Somos pessoas interessadas no que acontece na comunidade e no bem-estar das pessoas”, disse à AFP.

Baranda afirma que, em sua experiência com um Chile que vive à margem do sucesso econômico, percebeu “as lacunas da atual Constituição para salvaguardar os direitos das pessoas e que o Estado tem um papel mais protagonista”.

A partir da Convenção, busca garantir direitos básicos como moradia, educação e saúde.

Entre os aspirantes está Juan Andrés Murillo, um dos denunciantes do “Caso Karadima”, escândalo que abala a Igreja Católica chilena desde 2004 com denúncias de abusos sexuais de menores contra o padre Fernando Karadima.

A "Lista del Pueblo" reúne, por sua vez, lideranças sociais e pessoas que se deram a conhecer nos protestos, como Giovanna Grandón, conhecida como "Tía Pikachú", ou Anita Román, responsável pelo Colégio de Parteiras há 15 anos.

“Somos um povo, não pertencemos a nenhum partido político”, disse Anita à AFP enquanto tentava atrair transeuntes para a Plaza de Armas de Santiago.

Os integrantes dessa lista defendem que são uma opção com base social e trabalho de rua. São “as pessoas que foram agredidas, detidas e torturadas e as principais responsáveis pelo fato de que o Chile está passando por uma transição maravilhosa”, acrescentou.

A uma semana para o término do prazo de inscrição, Anita não coletou nem 40% das assinaturas exigidas num processo que ela define como "a máquina para manter o status quo".

- Direita unida e oposição dividida -

Cerca de 14 milhões de eleitores são chamados a eleger 155 constituintes em um sistema eleitoral proporcional baseado em listas.

O partido de direita no poder está reunido em uma única coalizão, mas a oposição de esquerda se fragmentou em pelo menos cinco listas, o que ameaça estabelecer uma "super-representação" das forças que se opõem à mudança constitucional.

Mella acredita que um sistema eleitoral como o do Chile "privilegia as grandes coalizões e aqueles que constroem unidade, e reduz as oportunidades de candidatos independentes".

Mesmo considerando a força do plebiscito de outubro como uma manifestação política, isso pode favorecer a direita "para ter a chave das reformas", diz Mella, na mesma semana em que dois ministros de Sebastián Piñera deixaram seus cargos para ser candidatos.

Um marco desta convenção é que um critério de paridade de gênero foi estabelecido para sua eleição e pela primeira vez no Chile foram definidos assentos reservados para indígenas, principalmente mapuches.

Natividad Llanquileo, advogada mapuche de 36 anos, busca uma das 17 cadeiras indígenas, com o apoio de “pessoas ligadas à defesa do território e contra os projetos extrativistas”, disse ela à AFP.

“A expectativa é grande, se isso não funcionar ou falhar, também faremos parte dessa responsabilidade. Temos que assumir com muita responsabilidade, porque tem gente que não aguenta mais esse sistema”, alertou.

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