China adverte EUA contra instalação de mísseis na Ásia

Por Patrick BAERT
(28 de jul) O diretor do departamento de Controle de Armas da chancelaria chinesa, Fu Cong

A China alertou nesta terça-feira os Estados Unidos sobre a instalação de mísseis na região Ásia/Pacífico, uma advertência que recorda a crise dos mísseis em Cuba durante a Guerra Fria.

Sem uma menção direta, diplomacia chinesa atacou o novo secretário de Defesa americano, Mark Esper, que no sábado afirmou ser favorável à instalação de novos mísseis americanos na Ásia "o mais rápido possível".

"A China não ficará de braços cruzados e será obrigada a adotar medidas caso os Estados Unidos instalem mísseis de médio alcance nesta região do mundo", advertiu o diretor do departamento de Controle de Armas da chancelaria chinesa, Fu Cong.

Fu não explicou, no entanto, que medidas Pequim poderia adotar, mas afirmou que todas as opções estão sobre a mesa.

O gigante asiático, que já está envolvido em uma guerra comercial, tecnológica e monetária com os Estados Unidos, denuncia com frequência a presença militar americana na Ásia, promovida por países aliados de Washington, como Japão, Coreia do Sul e Austrália.

"Apelamos aos países vizinhos para que mostrem prudência e não permitam a instalação de mísseis americanos em seu solo, porque isto não estaria de acordo com sua própria segurança nacional", completou o diretor.

Questionado sobre a reação chinesa, Esper tentou suavizar suas declarações de sábado e afirmou que não há nenhum país que deve receber mísseis.

"Ainda estamos muito longe disso. Vai levar alguns anos antes que possamos instalar mísseis operacionais", disse.

Alguns analistas acreditam que Washington poderia instalar os novos mísseis em sua ilha de Guam, no Pacífico. Fu alertou que isto seria o equivalente a posicioná-los "na porta da China".

"Se instalarem mísseis em uma faixa de terra como Guam, isto será interpretado como altamente provocador por parte dos Estados Unidos. Seria muito perigoso", avisou o funcionário chinês.

Guam fica a quase 3.000 km da China.

As declarações de Fu recordam a crise dos mísseis soviéticos em Cuba em 1962, quando o mundo ficou à beira de um conflito nuclear, depois que Washington se recusou a aceitar que Moscou instalasse mísseis perto de seu território (a apenas 150 km).

O governo dos Estados Unidos se retirou na sexta-feira do Tratado de Desarmamento Nuclear INF, um acordo assinado entre Washington e Moscou durante a Guerra Fria para vetar os mísseis de médio alcance (de 500 a 5.500 km).

Ao abandonar o INF, Washington fica livre para tentar conter o arsenal de Pequim, que inclui modelos proibidos por este tratado, do qual o regime chinês nunca foi signatário.

Fu Cong criticou a saída dos Estados Unidos do tratado e disse que era "uma nova prova de unilateralismo, que pode apenas ter consequências negativas".

O representante chinês disse que Washington abandonou o tratado apenas para poder "desenvolver suas capacidades balísticas" e não por causa do arsenal chinês ou por Moscou ter violado o texto, como alegou o governo americano.

Ele disse ainda que Pequim não participará em negociações trilaterais sobre a redução do armamento com Moscou e Washington, como desejam os americanos, por não considerar a iniciativa "equitativa", em função da diferença entre o arsenal nuclear da China para os Estados Unidos e Rússia.

Na região Ásia-Pacífico, Pequim e Washington travam uma disputa pelo Mar da China Meridional, uma zona que os chineses reivindicam com sua, com a construção de instalações militares em ilhas que países vizinhos consideram parte de seu território.