China ameaça EUA com represálias por promulgação de lei sobre Hong Kong

Por Sebastian Smith
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, junto ao peru Butter, no Dia de Ação de Graças, no Jardim das Rosas da Casa Branca, em 26 de novembro de 2019.

A China reagiu com irritação nesta quinta-feira à promulgação, pelo presidente americano Donald Trump, de uma lei que apoia as manifestações a favor da democracia em Hong Kong, em meio a uma guerra comercial entre os dois países.

O governo chinês, que chamou a lei de "abominação absoluta" e ameaçou adotar represálias, convocou o embaixador dos Estados Unidos em Pequim, Terry Branstad, pela segunda vez em quatro dias.

O vice-ministro das Relações Exteriores da China, Le Yucheng, transmitiu ao embaixador Terry Branstad a "firme oposição" de seu país e pediu ao governo dos Estados Unidos para "corrigir seu erro, não aplicar a lei, para não prejudicar ainda mais as relações e a cooperação sino-americana", informa um comunicado oficial.

Consultado sobre a convocação de Branstad, um porta-voz da embaixada americana em Pequim declarou à AFP que o Partido Comunista chinês "deve manter sua promessa ao povo de Hong Kong, que pede apenas a liberdade".

A resolução, aprovada na semana passada pelo Congresso e promulgada na quarta-feira por Trump, "oculta intenções sinistras", denunciou o ministério das Relações Exteriores. O texto divulgado por Pequim não especifica as medidas que poderiam ser adotadas por Pequim.

O regime chinês acusa a lei americana de "apoiar descaradamente os atos cometidos contra cidadãos inocentes que foram agredidos, feridos e queimados (...) por delinquentes violentos".

Um alto funcionário do Executivo de Hong Kong declarou que a resolução "interfere claramente em assuntos internos de Hong Kong e envia a mensagem equivocada aos manifestantes".

O Escritório de Ligação de Pequim em Hong Kong condenou o que chamou de "conduta repugnante" de Washington, que pode provocar "distúrbios e caos" em Hong Kong.

A lei ameaça suspender o estatuto econômico especial concedido por Washington à ex-colônia britânica caso não sejam respeitados os direitos dos manifestantes.

O estatuto permite que o território fique isento das restrições aplicadas à China continental.

A promulgação de Trump foi recebida com satisfação tanto pelo Partido Republicano como por integrantes do opositor Partido Democrata.

Os ativistas pró-democracia de Hong Kong também elogiaram a medida, por considerar que vai ajudar o consenso internacional a favor do movimento.

O presidente americano havia demonstrado receio de assinar a lei, mas a resolução foi aprovada por ampla maioria no Congresso, o que representava pouca margem de manobra.

"Assinei esta resolução por respeito ao presidente Xi (Jinping), à China e ao povo de Hong Kong", explicou Trump em um comunicado.

"Foi promulgada com a esperança de que os líderes e representantes da China e de Hong Kong saibam solucionar, de forma amistosa, suas divergências", completou.

O território semiautônomo de Hong Kong vive há quase seis meses o maior movimento de protestos desde que o Reino Unido o devolveu à China em 1997.

A nível bilateral, o tema central será o efeito que a ratificação da lei pode ter sobre os esforços para encerrar a guerra comercial entre as duas principais economias do planeta.

O Congresso também aprovou uma legislação que proíbe a venda de gás lacrimogêneo, balas de borracha e outros equipamentos usados pelas forças de segurança de Hong Kong para reprimir os protestos.

O movimento de protesto começou em junho como rejeição a um projeto de lei que permitira a extradição à China continental. Nos últimos meses, as manifestações têm provocado frequentes confrontos entre policiais e manifestantes.

A polícia entrou nesta quinta-feira na Universidade Politécnica de Hong Kong, onde centenas de manifestantes, cercados pelas forças de segurança, permaneceram entrincheirados por 11 dias. Os estudantes já haviam abandonado o local: muitos se entregaram há alguns dias e outros conseguiram escapar das autoridades.

Nos dias anteriores às eleições locais de domingo, a situação ficou um pouco mais calma. A votação resultou em uma grande vitória do campo pró-democracia, um revés para Pequim e a chefe do Executivo de Hong Kong, Carrie Lam.

Os manifestantes pretendem organizar uma mobilização durante a noite por ocasião do dia de Ação de Graças, o grande feriado americano, celebrado nesta quinta-feira, "em homenagem aos que apoiam o movimento".