China busca postura independente nas questões ambientais

***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 14.11.2019 - O líder chinês, Xi Jinping, durante reunião do Brics, no Palácio do Itamaraty, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 14.11.2019 - O líder chinês, Xi Jinping, durante reunião do Brics, no Palácio do Itamaraty, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - A China usou a edição deste ano da COP, a conferência para o clima da ONU (Organização das Nações Unidas), para mostrar que não depende dos Estados Unidos na condução de sua agenda de sustentabilidade, mas sinalizando boa vontade para retomar a cooperação.

Comandada pelo enviado Xie Zhenhua, a delegação chinesa chegou ao Egito sem tratativas formais com os americanos para o tema.

As conversas estavam suspensas desde a visita da presidente da Câmara, Nancy Pelosi, a Taiwan, em agosto. Na edição do ano passado, em Glasgow, Escócia, houve uma rara declaração conjunta de cooperação com Washington.

Na época, de forma inédita, Pequim destravou o debate em torno das metas de aquecimento definidas na COP26. Enquanto o Acordo de Paris limitava o aquecimento em menos de 2°C acima dos tempos pré-industriais, líderes reunidos em 2021 na cidade escocesa sinalizaram intenção de baixar a meta para 1,5°C.

Na COP27, entretanto, o enviado especial para o clima dos EUA, John Kerry, reclamou da resistência de "alguns países" com o tópico, sem mencionar nomes. Xie Zhenhua disse na segunda (14) que não se opunha.

Embora não tenham realizado reuniões oficiais no Egito, Xie e Kerry foram vistos em conversas informais por pelo menos sete vezes.

Pessoas presentes no evento relataram à Folha que o clima se tornou mais ameno após o encontro de Joe Biden com Xi Jinping às vésperas da cúpula do G20 em Bali, na Indonésia, quando os dois líderes sinalizaram retomada nos diálogos.

Para Taylah Bland, mestre em Estudos Globais na Universidade Tsinghua e pesquisadora residente na Asia Society, a postura da delegação chinesa indica que Pequim estará aberta a cooperar, mas quer sinalizar que não depende dos americanos para implementar a agenda doméstica de sustentabilidade.

A especialista diz acreditar que, com a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris promovida por Donald Trump (Biden posteriormente retomou os compromissos), a China viu uma oportunidade de liderar a agenda para o clima.

Entretanto, Bland destaca que a China não vai ser capaz de cumprir sozinha a promessa de se tornar uma nação neutra em carbono até 2060.

O compromisso foi firmado pelo próprio Xi Jinping na Assembleia-Geral da ONU no ano passado, mas especialistas estimam que alcançar o feito demandariam investimentos na ordem de US$14,7 trilhões nos próximos 30 anos.

"A China pode investir tanto dinheiro e conquistar essa meta sozinha? Não acredito que seja capaz. Eles certamente dependerão de financiamento adicional e ajuda de outros países. Contudo, a esta altura, já está bastante claro que não há solução para a questão climática sem eles", analisa a especialista.

Transferir ajuda para os chineses, porém, pode se mostrar um tópico espinhoso. Enquanto Pequim insiste em se enquadrar como uma economia em desenvolvimento, o que prevê menos compromissos com metas globais, cresce o clamor internacional para que contribua financeiramente como um país desenvolvido.

Em 8 de novembro, o bloco de negociação da Associação dos Pequenos Estados Insulares —formado por países cuja existência está ameaçada pelo aumento da temperatura terrestre— defendeu que China e Índia façam repasses em dinheiro a um fundo de compensação por desastres causados pelo

aquecimento global.

Premiê de Antígua e Barbuda e líder do bloco, Gaston Browne disse à imprensa que "todos nós sabemos que eles são grandes poluidores, e poluidores devem pagar". Os chineses reagiram dizendo que apoiavam a ideia de um fundo "mesmo não sendo obrigados", embora não tenham se comprometido a fazer os aportes financeiros.

Tailah Bland defende a criação de uma nova categoria nas negociações climáticas, que se chamaria "economia em transição". Seria um caso especial em que a China estaria "sujeita a pagar, mas também elegível a receber fundos que ajudem o país a atingir um novo estágio de

desenvolvimento sustentável".

"Precisamos repensar a relação que temos com as mudanças climáticas. A China pode ser uma grande emissora de carbono, mas também precisa de ajuda para fazer mudanças internas. Se não começarmos a ver esse relacionamento como uma via de mão dupla, nenhuma mudança acontecerá e o impasse bloqueará quaisquer avanços", diz Bland.

Ela admite, porém, que uma nova classificação certamente esbarraria na resistência de outros países de renda média que também poderiam receber a mesma denominação.

Pesquisador de assuntos da China na plataforma Cipó, que participou da COP27, João Cumaru avalia que a recusa chinesa em contribuir para este fundo não denota menos compromisso, mas, sim, diferentes prioridades.

Ele explica que a delegação se mostrou mais interessada em "levar diretrizes sustentáveis, diretrizes verdes para investimentos em outros países como o Brasil, por exemplo, do que necessariamente se engajar desta maneira [com compensações financeiras]".

Cumaru, que é coautor de um relatório publicado pela Cipó com sugestões à nova política ambiental brasileira, também afirma enxergar boas oportunidades para o Brasil diante das novas

prioridades chinesas.

"A China pode oferecer expertise, infraestrutura de tecnologia e capacidade em absorver ou transferir investimentos e compartilhar conhecimentos. É mais uma opção, dadas as prioridades sinalizadas pelo presidente eleito Lula [PT], de explorar também linhas de financiamento."