China colocará Apple e Qualcomm na lista de entidades "não-confiáveis" do país

Rui Maciel

Depois que Donald Trump manteve o decreto que faz com que a Huawei continue banida dos EUA até 2021 e também de bloquear remessas de semicondutores para a fabricante em questão, a China resolveu contra-atacar. O governo do país asiático deve incluir empresas norte-americanas em uma lista de "entidades não-confiáveis". E isso incluirá companhias do porte da Apple, Qualcomm, Cisco e até a Boeing.

Segundo declarações de uma fonte do governo chinês ao site Global Times,empresas incluídas nessa lista estão sujeitas a investigações por parte de autoridades, bem como a imposição de restrições. No caso da Boeing, a medida doerá no bolso: isso porque as companhias aéreas chinesas terão de interromper a compra de aviões da fabricante norte-americana.

"A China tomará contramedidas vigorosas para proteger seus próprios direitos legítimos", afirmou essa mesma fonte ao Global Times. "´[Isso acontecerá] se os EUA avançarem com o plano de impedir que fornecedores essenciais de chips, incluindo a TSMC de Taiwan, vendam chips para a Huawei"

A inclusão dessas companhias nessa lista estariam de acordo com as leis e regulamentos chineses, seguindo as "Medidas de Revisão de Cibersegurança e Lei Antimonopólio" do país asiático. Para completar, as empresas citadas no primeiro parágrafo são altamente dependentes do mercado chinês - ou de seus pólos de fabricação - e a entrada na relação atrapalharia muito suas operações.

O Ministério do Comércio da China (MOFCOM) anunciou que divulgará em breve sua própria lista de entidades estrangeiras que minam seriamente os interesses legítimos das empresas chinesas. Em 2019, o porta-voz do MOFCOM, Gao Feng, disse em uma conferência de imprensa que a relação de empresas não confiáveis ​​inclui organizações, indivíduos e companhias que bloqueiam ou fecham cadeias de suprimentos, ou tomam medidas discriminatórias por razões não comerciais, e cujas ações colocam em risco os negócios de empresas chinesas, bem como seus consumidores.

Em 1º de junho de 2019, Zhi Luxun, chefe do Bureau de Indústria, Segurança, Controle de Importação e Exportação do MOFCOM, afirmou que a lista também incluirá entidades estrangeiras que causam danos reais ou potenciais às empresas, setores e indústrias chinesas. Colocar em risco ou, potencialmente, pôr em risco a segurança nacional da China também é motivo para inclusão relação. "Depois que uma empresa é listada, ela enfrentará as medidas legais e administrativas necessárias e o público chinês também será avisado contra a possibilidade de reduzir os riscos", disse Zhi.

Bomba nuclear nas empresas de Tecnologia dos EUA

Incluir empresas norte-americanas na relação de organizações não-confiáveis pode gerar um impacto econômico considerável sobre elas. Segundo analistas de mercado, medidas punitivas direcionadas a a companhias de grande porte, como Qualcomm, Cisco e Apple são como uma" bomba nuclear ". Apenas para ficar em um exemplo, no primeiro trimestre de 2020, o faturamento gerado pela China representou 14,8% da receita total da Apple.

Os analistas também observaram que, se os chips fabricados por essas empresas não puderem ser vendidos para o mercado chinês, uma de suas fontes mais importantes de receita, seria extremamente difícil para as empresas de tecnologia dos EUA recuperar o investimento. Alguns podem sofrer perdas difíceis de reverter.

Loja da Apple na China: país asiático é um dos principais mercados da companhia norte-americana

Um matéria do The Wall Street Journal afirma que a indústria de processadores é um dos principais exportadores dos EUA e um dos poucos setores que ainda gera superávit comercial, em grande parte impulsionado pelo crescimento das vendas na China. O texto observa que uma possível restrição chinesa na vendas de chips pode impactar a receita das empresas norte-americanas na casa dos US$ 36 bilhões. "Isso também infligirá também uma reação em cadeia a vários players do mercado, em toda cadeia de produção de chips dos EUA", afirmou uma fonte não identificada ao Global Times.

Golpe duro na Boeing

A inclusão em uma lista chinesa de empresas não-confiáveis pode impactar uma companhia norte-americana em particular: a Boeing. Isso porque a China poderia anular todos os pedidos de compra de aviões atuais junto à fabricante, mesmo que isso signifique que algumas companhias aéreas chinesas tenham que pagar pelos cancelamentos, afirmou uma fonte do setor de aviação ao Global Times.

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"Se a Boeing perder os pedidos da China, a empresa - que já vem enfrentando sérias dificuldades financeiras - só poderia recorrer ao governo dos EUA para obter ajuda no final", disse essa mesma fonte. "Vale lembrar que a China é a maior compradora de aviões do mundo e poderia pedir mais de 100 aviões da empresa americana, o que injetaria mais de US$ 4 bilhões em seu caixa por ano.

Pequenas empresas também sofrerão

E não serão apenas as gigantes da Tecnologia que sofrerão as dores da inclusão na lista chinesa. Companhias americanas de menor porte devem sentir as consquêcias ainda mais, já que elas são mais vulneráveis ​​a incertezas. "A maioria das empresas americanas a serem incluídas é altamente dependente de organizações chinesas, como as agências comerciais dos EUA", disse Gao Lingyun, especialista da Academia Chinesa de Ciências Sociais de Pequim, próximo ao governo chinês aoo Global Times. "Elas são vulneráveis ​​a medidas restritivas. Uma vez que as autoridades chinesas lhes impõem sanções, essas pequenas empresas serão levadas à beira do colapso", completa o especialista, qye observou que essas contramedidas poderiam servir como um aviso de "primeiro nível" ao lado americano.

"A China deve implementar essas contramedidas na medida em que os EUA não ousem pedir vantagens depois de darem uma série de restrições", disse He Weiwen, um ex-alto funcionário do Departamento de Comércio chinês e membro do conselho executivo da Sociedade Chinesa para Estudos da Organização Mundial do Comércio. "A China deve realizar investigações completas sobre empresas americanas relevantes e deixá-las sentir a dor ".

"A China iniciará uma série de investigações intermináveis sobre essas empresas, com espadas pairando sobre suas cabeças. Isso diminuirá a confiança dos investidores e reduzirá a renda dessas compnhias no mercado chinês", disse um membro do governo ao Global Times, que preferiu permanecer anônimo.

Parceiro pouco confiável

"As novas restrições à Huawei são um lembrete firme de que Taiwan não se pode ter os EUA como um parceiro comercial ou econômico confiável", disse Tom Fowdy, analista britânico de relações políticas e internacionais, observando que a Casa Branca pressionou a TSMC a investir nos Estados Unidos. e, poucas horas depois de conseguir, passou a restringir seus negócios com a Huawei.

A Taiwan Semiconductor Manufacturing Co., ou TSMC - a terceira maior fabricante de chips do mundo - anunciou na sexta-feira que planeja construir uma fábrica de semicondutores de US$ 12 bilhões no Arizona, com a construção sendo iniciada no próximo ano. E o Departamento Comercial dos EUA exigiu que empresas estrangeiras, como a TSMC, que usam instalações e tecnologias território norte-americanas, solicitassem uma licença antes de enviar componentes para a Huawei.

"O que o governo dos EIA está efetivamente fazendo é forçar a TSMC a confiar mais nos EUA e, ao mesmo tempo, minar seus negócios na Ásia. Isso é extremamente traiçoeiro e desprezível", observou Fowdy.

Sede da TSMC em Taiwan: empresa pode ficar impedida pelo governo dos EUA de fazer negócios com a Huawei

Os EUA falharam em "matar" a Huawei com a inclusão da empresa na lista suja do seu Departamento de Comércio e que a impediam de fazer negócios com empresas norte-americanas. A proibiçãodurou mais de um ano e impactou as próprias empresas americanas, que tinham na Huawei um parceiro comercial dos mais importantes.

No último dia 07 de maio, a agência de notícias Reuters informou que o Departamento de Comércio dos EUA está perto de assinar uma nova regra que permitiria que empresas baseadas nos EUA trabalhassem com a Huawei na definição de padrões para redes 5G de próxima geração. Em vez de interpretar a mudança como um gesto de boa vontade, analistas chineses disseram que isso mostra apenas que os EUA perceberam o custo de se recusar a cooperar com o maior proprietário do mundo de patentes para a tecnologia 5G. As empresas americanas estão ficando trás da Huawei na implementação da quinta geração de dados móveis.

A China "gravou na memória" as habituais ameaças e táticas de repressão do governo Trump contra suas empresas, incluindo a Huawei. Com isso, o governo do país asiático começa a lançar mão de amplas contramedidas para atingir com precisão a economia dos EUA. "A China, adotando essas contramedidas, acabará por beneficiar as relações China-EUA. Pois somente derrotando a pequena parcela de políticos americanos que prejudica as relações bilaterais entre os dois países é que tudo pode voltar ao normal".

Fonte: Canaltech