China diz que mais de 1,3 milhão de pessoas pediram passaportes após reabertura de fronteiras

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Desde que a China reabriu suas fronteiras no último domingo depois de mantê-las fechadas por três anos devido à pandemia de Covid-19, mais de 1,35 milhão de pessoas solicitaram passaportes e vistos no país. São, em média, 270 mil pedidos por dia, e a tendência é de crescimento.

"O número de solicitações de documentos de entrada e saída continuará a aumentar constantemente no futuro próximo", afirmou nesta sexta-feira (13) Liu Haitao, diretor do Departamento de Inspeção e Gerenciamento de Fronteiras da China, depois de divulgar o balanço dos últimos cinco dias.

A reabertura se dá em um momento de alta de casos de coronavírus no país e às vésperas de um dos principais feriados do gigante asiático. O Ano-Novo Chinês tradicionalmente vem acompanhado de um boom no número de viagens e, depois de três anos sob as restrições da política de Covid zero, a expectativa é de que 2023 registre cifras ainda mais significativas.

É o caso de Chu Wenhong, 54, entrevistada pela agência de notícias Reuters. Funcionária de um laboratório, ela mora em Singapura desde 1994 e, pelo menos uma vez por ano, voltava a Xangai para visitar a família. A última visita foi em novembro de 2019, um mês antes de as autoridades chinesas identificarem o primeiro surto de Covid em Wuhan.

Desde então, não conseguiu manter a tradição devido às restrições. As viagens não estavam proibidas, mas envolviam despesas extras com quarentenas que poderiam chegar a três semanas em quartos de hotéis. Mesmo para os que aceitavam encarar o período de isolamento, os voos eram frequentemente cancelados ou custavam muito mais caro que o normal devido à redução drástica na oferta.

"Finalmente posso voltar. Estou esperando por este dia há muito tempo", disse Chu, que vai reencontrar o pai, de 83 anos, e a mãe, de 78. "Não os vejo há três anos, e ambos pegaram Covid. Na verdade, eu me sinto bastante sortuda, porque não foi grave, mas a saúde deles não é muito boa. Então quero ir para casa e vê-los o mais rápido possível."

Apesar de permitida, a viagem de Chu, na prática, contraria uma orientação. Guo Jianwen, membro do Conselho de Prevenção da Pandemia na China, pediu na quinta-feira (12) que os chineses evitem visitar os familiares idosos, justamente devido ao risco de contaminação por Covid para os grupos mais vulneráveis. "Vocês têm diversas maneiras de mostrar que se importam com eles. Não precisam, necessariamente, levar o vírus para suas casas", disse.

Desde que aboliu a Covid zero, o regime de Xi Jinping tem apostado num conjunto de medidas que, segundo as autoridades, busca otimizar a resposta à pandemia. Além de reforçar as campanhas de vacinação, principalmente entre os idosos, grupo em que há uma lacuna maior de imunização, o país tem acelerado a produção de medicamentos utilizados no tratamento da doença.

De acordo com o Global Times, jornal alinhado ao Partido Comunista Chinês, as farmacêuticas chinesas têm avançado em negociações com as americanas, de modo que a Sinopharm, por exemplo, já disponibilizaria medicamentos como o molnupiravir no mercado doméstico ainda nesta sexta-feira. Trata-se de uma preparação "preparando para proteger grupos de alto risco, dadas as possíveis ondas epidêmicas durante o próximo festival do Ano-Novo Lunar", diz a publicação.

A maior preocupação é com as regiões rurais no interior da China, tradicionalmente com menos infraestrutura hospitalar e índices menores de vacinação -e para onde devem ir milhões de chineses das grandes metrópoles durante o feriado. Para Zeng Guang, ex-epidemiologista-chefe do Centro Chinês de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), a estratégia anti-Covid para as áreas rurais é boa, mas ainda há dúvidas sobre a eficácia de sua implementação.

O especialista afirma que grandes cidades como Pequim e Chongqing já alcançaram seus picos de infecção, mas prevê que, em todo o país, o número de casos deve permanecer alto por dois a três meses, devido ao caráter cíclico das contaminações.