China e outros 14 países formam um dos maiores blocos de livre comércio do mundo

O Globo
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PEQUIM – Em meio à guerra comercial e às incertezas das relações com os EUA do democrata Joe Biden, a China conseguiu reunir outras 14 nações da região da Ásia-Pacífico para a assinatura de um dos maiores acordos regionais de livre comércio do mundo.

O Regional Comprehensive Economic Partnership (RCEP) foi assinado neste domingo, após oito anos de negociações. Além da China, fazem parte do novo bloco Austrália, Japão, Coreia do Sul e Cingapura, e outras dez economias menores: Brunei, Camboja, Indonésia, Laos, Malásia, Mianmar, Nova Zelândia, Filipinas, Tailândia e Vietnã.

O pacto cobre 2,2 bilhões de pessoas, e poderia ser ainda maior caso a Índia não desistisse de participar. Juntos, esses países respondem por 28% do PIB global. Segundo cálculos da Bloomberg, o acordo vai contribuir com 0,5% ao PIB chinês por ano até 2030. Para a Coreia do Sul, o benefício será de 1,4% e, para o Japão, de 1,3%.

O acordo surge no vácuo deixado pelos EUA, que há quase quatro anos, poucos dias após a posse do presidente Donald Trump, abandonou a Parceria Transpacífica. A participação de tradicionais aliados de Washington num pacto costurado por Pequim mostra que o mundo não vai mais esperar a liderança americana, que pode ver seus exportadores perderem espaço.

— Enquanto os EUA continuam focados em preocupações domésticas, incluindo a necessidade de combater a pandemia e de reconstruir sua economia, não estou certa se o resto do mundo vai esperar até a América colocar a casa em ordem — afirmou Jennifer Hillman, do Council on Foreign Relations, em entrevista ao New York Times. — Eu acho que serão necessárias ações responsivas ao que a China está fazendo.

Por causa da pandemia, a assinatura do pacto aconteceu com cerimônias separadas em cada um dos 15 países-membros. Na China, o primeiro-ministro, Li Keqiang, segundo mais poderoso após Xi Jinping, classificou o acordo como “uma vitória do multilateralismo e do livre comércio”, em comunicado divulgado pela mídia estatal.

O pacto vai basicamente formalizar, não reconstruir, os negócios entre as nações. O RCEP elimina tarifas principalmente de produtos já listados em outros acordos de livre comércio. Ele permite que os países mantenham tarifas de importação em setores que considerem importantes ou sensíveis.

Também define regras de quanto de um produto precisa ser beneficiado dentro da região para estar livre de tarifas, o que deve simplificar a formação de cadeias de produção que envolvem vários países.

O acordo não trata de questões caras na relação de Washington com Pequim, como proteções à propriedade intelectual ou limites a subsídios oferecidos pelo Estado. Mesmo assim, disse He Weiwen, ex-funcionário do Ministério do Comércio da China e especialista em políticas comerciais, trata-se de um acordo importante:

— O RCEP, dado o seu tamanho, certamente contribuirá para o livre comércio mundial — opinou.Em nota, economistas do HSBC avaliaram que o acordo “sinaliza que a Ásia continua promovendo a liberalização do comércio mesmo com outras regiões se tornando mais céticas”.

“Isso pode reforçar uma tendência que já acontece há décadas: que o centro de gravidade da economia global continua avançando para o leste”, diz o comunicado.

Ainda não está claro qual será o impacto do acordo nas relações entre Washington e Pequim, sobretudo com o cenário de incertezas na transição do governo americano para o democrata Joe Biden.

— Se isso significa uma mudança na dinâmica regional em favor da China, dependerá da resposta dos EUA — afirmou William Reinsch, do Center for Strategic and International Studies, em entrevista à CNN. — Se os EUA continuarem ignorando ou intimidando os países de lá, o pêndulo da influência oscilará em direção à China.