China e Rússia ampliam manobras militares e patrulhas conjuntas

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Sob pressão devido aos avanços de Kiev na Guerra da Ucrânia e enfrentando uma crise no estratégico Cáucaso, a Rússia anunciou nesta segunda (19) que irá aumentar sua parceria estratégica na área de defesa coma. China, com incremento no número de exercícios militares e patrulhas conjuntas.

O comunicado foi feito nesta segunda (19) por um dos principais aliados de Vladimir Putin, na esteira do encontro do presidente russo com o líder chinês, Xi Jinping, durante uma reunião da Organização de Cooperação de Xangai no Uzbequistão, no fim da semana passada.

O poderoso secretário do Conselho de Segurança da Rússia, Nikolai Patruchev, viajou à China após o encontro dos líderes na Ásia Central. Encontrou-se com o principal diplomata do Politburo do Partido Comunista Chinês, o influente ex-chanceler Yang Jiechi, em Nanping.

"Ambos os lados concordaram em cooperação militar adicional, com foco em exercícios e patrulhas conjuntas, assim como fortalecimento de contatos entre os seus Estados-Maiores", afirmou Patruchev. Ele e o chinês afirmaram estar consolidando diretrizes acertadas entre Xi e Putin na quinta passada (15).

O encontro chamou a atenção de alguns observadores pelo fato de que o russo disse compreender que a China tinha preocupações com a Guerra da Ucrânia, lançada pelo Kremlin em fevereiro, gerando a leitura de que Putin havia sido admoestado publicamente pelo seu principal aliado.

Ele o foi, na realidade, no dia seguinte por um outro colega, o premiê indiano Narendra Modi, que expressou ser contra o conflito. Xi nunca condenou a invasão, embora seja óbvio que não lhe interessa o prolongamento do conflito --a China tem seus próprios problemas econômicos, e não quer ser vista como patrocinadora da guerra pelo Ocidente.

Patruchev e Yang discutiram a crise ucraniana, a tensão na península coreana (onde apoiam o Norte comunista) e também Taiwan --de forma simbólica, o encontro ocorreu em uma cidade não muito distante da costa do país mais próxima da ilha que Pequim quer absorver como uma província.

Vinte dias antes da invasão da Ucrânia, Putin e Xi haviam se encontrado em Pequim e declarado uma "amizade sem limites", selando a entrada da Rússia ao lado da China na Guerra Fria 2.0 com os Estados Unidos. Só que tal acerto tem alguns limites, inclusive por não se tratar de uma aliança militar.

De lá para cá, as Forças Armadas de ambos os lados se aproximaram ainda mais. A China tradicionalmente participa de exercícios militares com os russos, mas na manobra Vostok-2022, no começo deste mês, voou pela primeira vez com seus caças para operar sobre solo russo.

Na região mais sensível para os chineses, o Indo-Pacífico, Moscou e Pequim têm aumentando as patrulhas conjuntas com bombardeiros e as manobras navais, em oposição à proteção americana a Taiwan e à política de livre navegação de Washington, que a China considera um ensaio para eventual bloqueio de suas rotas marítimas em um conflito.

A China, assim como a Índia, é grande compradora de armas russas. Sua Força Aérea depende de tecnologia de Moscou, especialmente na área de motores. Com a guerra, o presidente americano, Joe Biden, advertiu Xi de que ele não deveria dar apoio militar a Putin, além de não se animar a fazer o mesmo que o russo fez com a Ucrânia em Taiwan.

Na prática, a China tem ajudado a Rússia a driblar as sanções punitivas aumentando a importação de petróleo e anunciando projetos conjuntos na área de gás, uma vez que o mercado ocidental está sendo fechado para Putin.

Putin apoia a reivindicação de Xi sobre Taiwan. No domingo (18), Biden voltou a dizer que defenderia a ilha de um ataque chinês, gerando protestos na chancelaria chinesa. Em troca, se expressou preocupações, Xi nunca fez críticas à guerra do aliado.

Na Ucrânia, o momento é ruim para Putin. Depois de perder áreas ocupadas na região de Kharkiv no começo do mês, o presidente vê forças de Kiev se infiltrarem nas fronteiras de Lugansk, a província que havia conquistado em julho.

Ainda é um avanço tímido, com um vilarejo retomado pelos ucranianos, mas há relatos de que os militares do país cruzaram o rio usado pelos russos como fronteira natural na região. O presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, prometeu nesta segunda só parar quando tiver expulsado os russos.

Lugansk compõe, com Donetsk, a região russófona do Donbass (leste do país). Desde 2014 em guerra civil, a região já era parcialmente controlada por separatistas apoiados por Moscou, e agora ensaiava realizar um referendo para unir-se à Rússia. A situação em solo paralisou o processo.

Para adicionar complexidade ao quadro, Putin ainda vê se desenrolar uma crise na fronteira estratégica do Cáucaso, com a renovada tensão entre sua aliada Armênia e o Azerbaijão, apoiado pela Turquia.

Aqui o russo tem o apoio dos EUA: a presidente da Câmara dos EUA, Nancy Pelosi, foi a Ierevan no fim de semana pedir o fim do que chamou de agressão de Baku, e o secretário de Estado, Antony Blinken, pediu ao governo azeri o fim das hostilidades na região armênia de Nagorno-Karabakh.

Ironicamente, Pelosi foi chamada de provocadora por Putin quando fez sua polêmica visita a Taiwan, em agosto.