Famílias separadas se abraçam em fronteira que "desaparece" por 3 minutos

El Paso (EUA), 29 out (EFE).- Pela segunda ocasião em menos de três meses, famílias separadas pela fronteira entre os Estados Unidos e o México puderam se abraçar neste sábado durante três minutos nas imediações do rio Grande.

A atividade binacional, chamada "Abraços, Não Muros", organizada por uma ONG de direitos humanos, teve a participação de mais do que o triplo de pessoas que a primeira edição, realizada em 10 de agosto, disse a porta-voz da organização, Gabriela Castañeda.

De acordo com ela, cerca de 3.500 pessoas, provenientes dos dois lados da fronteira, foram a este ponto da divisa entre El Paso (EUA) e Ciudad Juárez (México).

"Temos 300 famílias, da última tínhamos pouco mais de 120, então o desafio é maior. Há gente que vem da Califórnia, da Pensilvânia, de Denver (...), de muitos lugares do interior", disse.

Quando os coordenadores permitiram que eles se encontrassem, as pessoas se aproximaram caminhando ou correndo entre a lama do leito do rio e alguns gritavam, se abraçavam, tiravam fotos e choravam.

Karina Román, de 19 anos, contou que esta ação permitiu que ela abraçasse, pelo menos durante três minutos, seu irmão e seu tio, os quais não via há 12 anos.

"É uma experiência que não se pode explicar", disse ela com lágrimas nos olhos e a voz trêmula. "Sei que só foram três minutos, mas isso ninguém pode tirar. Três minutos que valem muito, porque não se compara com nada", acrescentou a estudante, que deseja ser enfermeira nos Estados Unidos, apesar de estar ilegal.

Desta vez participaram pessoas que foram ao rio em cadeiras de rodas ou apoiadas em andadores. Como música de fundo, em alto-falantes colocados do lado americano, eram ouvidas músicas mexicanas, incluindo algumas do recém-falecido cantor Juan Gabriel, que era natural de Ciudad Juárez.

"Estou muito feliz de ter visto minha família, que não via há muitos anos. Netos que não conhecia. Três minutos inesquecíveis. Não se compram com nada; isto não tem preço", disse Soledad, de 56 anos, que caminhou pelo lodo com um andador metálico porque espera se submeter a uma cirurgia no joelho.

Os organizadoresvdisseram que o evento responde a uma campanha para denunciar que as estratégias de deportação feriram mais de 2 milhões de famílias nos Estados Unidos.

A iniciativa recebeu o apoio do congressista pelo Texas Beto O'Rourke, o prefeito de Sunland Park (Novo México), Javier Perea, e representantes do condado de El Paso.

"Estas famílias são as de quem Donald Trump (candidato à presidência dos EUA) e os republicanos têm medo, e não precisamos sisso. Não merecemos isso", disse O'Rourke à Agência Efe.

O político democrata afirmou que atividades como a realizada hoje na fronteira mostram o quão urgente é a necessidade de mudar as leis de imigração nos Estados Unidos.

"Não podemos dividir as famílias. Precisamos oferecer uma alternativa que seja segura para nosso país e nossas comunidades. Mas não podemos fazer isso antes que a mente dos Estados Unidos mude", acrescentou.

Com o encontro no rio, a ONG Red Fronteriza por los Derechos Humanos disse que critica a falta de vontade do governo americano para aprovar uma reforma migratória.

O evento aconteceu perto da Ponte Internacional Paso del Norte, a cerca de 300 metros de distância do lugar onde, em junho de 2010, um mexicano de 15 anos morreu baleado por um agente da Patrulha de Fronteira.

Ramiro Cordero, porta-voz da Patrulha de Fronteira de El Paso, disse que os agentes compreendem a importância do ato binacional para as famílias separadas pela fronteira.

"Todos os agentes somos humanos. Somos membros desta comunidade (...) O importante é fazer a separação, porque como agentes fizemos um juramento de fazer valer as leis dos Estados Unidos", declarou Cordero, que expressou seu apoio a este tipo de evento. EFE