China reserva munição para sua economia apesar da pandemia

Por Sébastien RICCI
Funcionários descarregam suprimentos médicos trazidos por equipe médica chinesa em Yangon, Mianmar, em 8 de abril de 2020

A China optou por reservar suas principais munições econômicas para mais tarde e, no momento, injeta bilhões para sustentar uma atividade enfraquecida pela pandemia de coronavírus.

A doença paralisou o país em fevereiro, quando milhões de chineses foram confinados em suas casas. E as medidas antiepidêmicas perturbaram seriamente a produção e as operações das empresas.

Agora, a atividade recomeça progressivamente, mas as consequências para a economia serão duradouras.

No entanto, Pequim parece descartar um plano de reavivamento massivo e está optando por medidas pontuais, de acordo com vários especialistas questionados pela AFP.

A pandemia, que paralisa a economia mundial, pesa severamente nas exportações, um setor do qual a China é altamente dependente.

O gigante asiático terá "um crescimento fraco por um longo período", devido à fraca demanda global, diz Houze Song, do think tank MarcoPolo, especializado na economia chinesa.

Uma política de estímulo deve, portanto, "ser reservada para mais tarde" quando a situação melhorar, de acordo com Song.

Agora "a prioridade é evitar falências em cascata e a explosão do desemprego", que subiu em fevereiro ao seu nível histórico mais alto (6,2%), diz Ken Cheung, economista da Mizuho.

- 'Medidas modestas' -

Nos dois primeiros meses do ano, 5 milhões de pessoas perderam o emprego, segundo dados oficiais, que refletem apenas a situação nas áreas urbanas.

E as PMEs (pequenas e médias empresas), as mais dinâmicas em termos de emprego, são hoje as mais vulneráveis: cerca de 460.000 tiveram que fechar no primeiro trimestre, segundo o gabinete Trivium China.

Isso afeta o consumo doméstico - outro motor do crescimento - porque os chineses "preocupados com seu emprego e renda economizam mais e consomem menos", explica Houze Song.

No mês passado, a China destinou 1 trilhão de yuans (US$ 140 bilhões) para ajudar as PME.

Pequim também anunciou várias medidas tributárias, incluindo uma isenção de impostos na compra de veículos, para apoiar o setor automotivo, especialmente atingido.

A China também parece pronta para deixar seu déficit crescer e emitir obrigações para enfrentar o novo coronavírus.

Mas essas medidas parecem "modestas" em comparação com as adotadas pelas principais economias do mundo, segundo o economista Andrew Fennell, da agência de classificação Fitch.

- 'Efeitos secundários' -

Os Estados Unidos anunciaram um plano histórico de dois trilhões de dólares, e o programa da Alemanha, a primeira economia europeia, é estimado em 1,1 trilhão de euros. O Japão, por sua vez, coloca 900 bilhões de euros em cima da mesa.

No entanto, Pequim poderia apresentar medidas "mais vigorosas" na sessão anual do Parlamento, acredita Fennell.

Esse grande evento político, que define as diretrizes econômicas do país, foi adiado em março pela epidemia e pode ocorrer nos próximos meses.

As medidas de recuperação sem precedentes adotadas em todo o mundo serão uma "pressão adicional sobre a China" para seguir esse movimento, opina Ken Cheung.

Na crise financeira de 2008-2009, a China havia investido 4 trilhões de yuans (cerca de meio trilhão de dólares) em grandes projetos de infraestrutura, nem sempre lucrativos, que aumentaram a dívida e geraram excesso de capacidade produtiva.

"Em 2008, Pequim tinha mais espaço de manobra" para reviver sua economia, com crescimento anual de 9,6%, lembra Cheung.

No ano passado, foi de 6,1%, a menor taxa em 30 anos.

Hoje, quando a Organização Mundial do Comércio (OMC) teme "a maior crise econômica de nossa existência", a China quer evitar "os efeitos colaterais" de um plano massivo em suas finanças, segundo Ken Cheung.