Confusão de debate presidencial mantém cenário de incerteza na França

Ángel Calvo.

Paris, 5 abr (EFE).- A confusão pela configuração inédita do debate presidencial de terça-feira à noite na França, que pela primeira vez reuniu os 11 candidatos, não modificou de forma significativa o cenário da campanha nem deixou claro se serviu para convencer os muitos indecisos tentados pela abstenção.

O centrista Emmanuel Macron e a líder ultradireitista Marine le Pen mantêm assim seus postos de favoritos para passar ao segundo turno desses pleitos no próximo dia 7 de maio.

Segundo destacaram alguns dos candidatos ao Palácio do Eliseu e os porta-vozes que reagiram nesta quarta-feira, esse debate de quase quatro horas transmitido pela televisão não contribuiu para mudar o panorama por conta da cacofonia de vozes muito variadas que, pelas regras de igualdade de tratamento, tiveram o mesmo tempo de palavra, embora sua representatividade fosse mínima.

O candidato socialista, Benoît Hamon, reconheceu à emissora de rádio "France Culture" que houve momentos "interessantes", mas considerou o debate "frustrante", porque saiu com a impressão de não ter podido tratar os temas com profundidade.

Luc Chatel, um dos porta-vozes do líder conservador, François Fillon, destacou que a igualdade de palavra "semeia confusão" e que, além de dar visibilidade aos candidatos com baixas intenções de voto, "escamoteia" um debate mais profundo.

Em um momento em que se preludia um alto nível de abstenção, o programa de ontem não serviu para oferecer clareza de posições, acrescentou o porta-voz à emissora de rádio "France Info".

Nessa linha, Bruno Cautrès, do Centro de Pesquisas Políticas da Sciences Po, afirmou nessa emissora que "os indecisos ficaram na vontade", e duvidou que se modifique a situação de sua última pesquisa, segundo a qual só 66% dos franceses sabe em que votará, uma porcentagem que não se movimentou em um mês.

Dado que nas últimas eleições presidenciais de 2012 houve 20,5% de abstenções no primeiro turno e 16% em 2007, isso faz suspeitar que no primeiro turno do próximo dia 23 de abril se registre um nível recorde.

Na lembrança está o número de 28% dos eleitores que não compareceu às urnas em 2002, o que deixou fora do segundo turno o socialista Lionel Jospin e permitiu a passagem do então presidente da Frente Nacional, Jean-Marie Le Pen (pai da atual candidata ultradireitista), finalmente vencido por Jacques Chirac.

O fato é que ontem à noite havia 6,3 milhões de pessoas diante de seus televisores, número muito inferior às mais de 10 milhões do primeiro debate em 20 de março, no qual participaram apenas os cinco principais candidatos - Macron, Le Pen, Fillon, Jean-Luc Mélenchon e Hamon.

De acordo com uma pesquisa realizada pelo instituto Elabe imediatamente depois da transmissão, foi o líder da esquerda radical, Mélenchon, quem pareceu mais convincente para 25% dos telespectadores, seguido por Macron (21%), que há semanas é o favorito das pesquisas para se transformar no próximo presidente da França.

Bem mais longe ficaram tanto o ex-primeiro-ministro conservador Fillon (15%), como Le Pen (11%) e Hamon (9%).

As investigações judiciais que assombram Fillon e Le Pen voltaram a ter destaque, sobretudo na forma do golpe de efeito desferido pelo candidato trotskista Philippe Poutou, que, quebrando o protocolo, falou de "políticos corruptos".

Poutou acusou ambos de "colocar a mão na caixa" e disse que, no procedimento no qual o líder conservador está acusado por ter pagado com dinheiro público empregos supostamente fantasmas de sua mulher e dois de seus filhos, "quanto mais se aprofunda, mais cheira a corrupção".

O protagonismo alcançado por este candidato do Novo Partido Anticapitalista (NPA), cujas intenções de voto até agora se situavam abaixo de 1%, poderiam levar ele e outros a exigir um novo debate com os 11 em 20 de abril, um projeto questionado por sua proximidade com o primeiro dia de votação, três dias depois. EFE