China tenta destruir os vínculos entre uigures e seus antepassados

Por Eva XIAO con Pak YIU y Andrew BEATTY en Sydney
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Cemitério tradicional uigur destruído pelas autoridades em Shayar, na região de Xinjiang, noroeste da China

Ossos espalhados no chão em meio a todo tipo de destroço. Neste cemitério muçulmano no noroeste da China, as escavadeiras apagaram brutalmente qualquer ligação entre os uigures e sua memória da vida após a morte.

Em Shayar, reduzidos a alguns tijolos, os túmulos pontilham a paisagem. O espetáculo é repetido em mais de uma dúzia de cemitérios visitados no mês passado pela AFP em Xinjiang, principalmente na região muçulmana, sujeita ao rígido controle de Pequim.

Os jornalistas confirmaram a presença de ossos ao ar livre em três cemitérios antigos.

O regime chinês reforça as medidas de vigilância em Xinjiang há cerca de dois anos em nome da luta contra o separatismo islâmico e o terrorismo.

Os mais de 10 milhões de uigures, principal grupo étnico da região, recebem atenção especial.

Segundo organizações de direitos humanos, nada menos que um milhão de uigures foi internado em "campos de reeducação".

Pequim nega esse número e explica que esses são "centros de treinamento vocacional", destinados a combater a radicalização islâmica.

- Imagens por satélite -

Segundo imagens por satélite analisadas pela AFP com a associação Earthrise Alliance, pelo menos 40 cemitérios uigures foram arrasados desde o ano passado nesta região.

Em Aksu, um grande cemitério se transformou no chamado "Parque da Felicidade", que inclui um lago artificial e brinquedos para crianças.

O local era venerado pelos uigures, porque abrigava o túmulo de um de seus poetas do século XX, Lutpulla Mutellip.

"O lugar era como um santuário para o nacionalismo uigur", explica à AFP Ilshat Kokbore, que visitou o país nos anos 1990 e vive exilado nos Estados Unidos.

Não se sabe o destino dos restos de Mutellip.

Um novo funcionário do cemitério, de onde os corpos foram transferidos, disse não saber o que aconteceu com as cinzas do poeta. Procuradas pela AFP, as autoridades de Aksu não quiseram se manifestar.

"O governo chinês se esforça em destruir todo sentimento uigur de pertencimento a essa terra", acusa Aziz Isa Elkun, militante exilado no Reino Unido. Os cemitérios são "um vínculo entre a antiga e a nova geração".

Em setembro, três jornalistas da AFP visitaram pelo menos dez cemitérios destruídos em quatro comunas, assim como três novos locais de sepultamento.

Durante a visita a um antigo cemitério em Shayar, os jornalistas eram vigiados por um grupo de 11 pessoas. Algumas delas explicavam que as ruínas das tumbas eram, na verdade, as de casas antigas, fornos de pão, ou simplesmente montes de areia. Mesmo com os ossos encontrados pelo chão, os funcionários se negavam a assumir a evidência.

"É muito longo para ser de um humano", afirmavam, colocando um fêmur contra sua perna para fins de comparação.

Especialistas entrevistados pela AFP confirmaram que os restos fotografados no local pela reportagem eram humanos.

- Cortando as raízes -

A demolição de cemitérios em Xinjiang não é novidade. Imagens de satélite revelam destruições que remontam há mais de uma década. As operações iniciadas nos últimos dois anos são mais flagrantes, porém, porque são acompanhadas da destruição de cerca de 30 mesquitas e outros locais religiosos, como revelou em junho uma investigação da AFP baseada em outras fotos por satélite.

Em documentos internos consultados no ano passado pela AFP, os funcionários explicaram que esses centros deviam transformar seus internos em melhores cidadãos chineses "cortando sua linhagem, suas raízes, seus vínculos, suas origens".

Os ativistas uigures no exílio acham que isso explica por que os cemitérios foram atacados. "Isso se inscreve em uma ofensiva para erradicar todo rastro do que somos e nos transformar em Hans", etnia majoritária na China, diz Salih Hudayar, que afirma que o túmulo de seus bisavós foi demolido.

- Melhor ordenação -

A justificativa oficial para demolições varia de um lugar para outro. Em Urumqi, capital regional, um cemitério próximo ao aeroporto foi destruído para beneficiar um projeto de reconstrução do bairro.

Em Shayar, trata-se de "ganhar espaço e proteger o ecossistema", como explica um anúncio publicado na entrada de um novo cemitério. "Os novos cemitérios são limpos", diz Kadier Kasimu, vice-diretor do Departamento de Assuntos Culturais de Shayar.

"Os antigos estavam espalhados, agora está mais bem ordenado", acrescenta.

Os locais recém-construídos são, sem dúvida, mais uniformes do que os cemitérios uigures tradicionais, observa Tamar Mayer, especialista em Ciências da Terra no americano Middlebury College, que estuda santuários uigures.

"Os novos espaços não têm individualidade", completa.

"Nestes cemitérios, os túmulos, todos iguais, estão alinhados um contra o outro. Não há lugar para luto nessas instalações", insiste.

- Dois dias para mudar -

Os deslocamentos dos cemitérios parecem terem sido feitos abruptamente. Em Hotan, no sul da região, os habitantes tinham apenas dois dias para recuperar os corpos, segundo um aviso que foi fotografado em maio pela AFP.

"Túmulos que não forem reivindicados durante o período de registro serão transferidos como corpos abandonados", dizia o aviso.

Em outras partes da China, a explosão urbana e o desenvolvimento econômico custaram caro à propriedade.

Muitos cemitérios foram destruídos, o que às vezes causou a ira dos habitantes. O regime comunista é acusado de não respeitar as tradições funerárias, como na província de Jiangxi (centro), onde autoridades destruíram caixões no ano passado para forçar os habitantes a recorrerem a cremações.

De acordo com uma norma publicada no ano passado pelo Ministério de Assuntos Civis, o Estado deve "erradicar certas práticas funerárias" para a proteção do meio ambiente. No momento, os uigures e outras minorias estão isentos de aplicar certas medidas - entre elas a cremação obrigatória.

As autoridades estão reforçando o tom, porém, de acordo com Rian Thum, especialista em História e Cultura Uigures da Universidade de Nottingham (Reino Unido).

O especialista, que ajudou a AFP a confirmar a destruição dos locais de funeral, afirma que, "no momento, está sendo promovida qualquer política que ataque a cultura uigure".