Chineses já disputam doses de vacinas em testes contra Covid-19

Sui-Lee Wee e Elsie Chen, do NYT
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PEQUIM — A China, primeiro país afetado pelo novo coronavírus, no fim de 2019, tem disponibilizado vacinas candidatas contra a Covid-19 de forma ampla sem garantias de segurança e eficácia destes imunizantes ao longo dos últimos meses. As ressalvas, no entanto, não têm sido um problema para boa parte dos chineses, que já disputam doses e pressionam estoques de laboratórios com a crescente demanda.

A vacinação já é feita em regime emergencial, com autorização da Comissão Nacional de Saúde da China, equivalente ao Ministério da Saúde no Brasil.

Autoridades do governo e executivos das farmacêuticas anunciaram publicamente que se imunizaram, em uma tentativa de campanha pela adesão à imunização em um país com longo histórico de ceticismo com vacinas por conta de escândalos envolvendo a qualidade de imunizantes no passado.

Mas a estratégia talvez tenha dado certo demais: cidades já limitam a aplicação de doses, enquanto outras regiões exigem a comprovação de viagens rotineiras para autorizar a imunização.

A demanda além da capacidade de laboratórios levou inclusive à negociação de indicações para vacinação por cambistas, conhecidos como "vacas amarelas" na China, por até US$ 1.500 (mais de R$ 8.100). Antes da nova oportunidade, esses indivíduos negociavam novos modelos de celulares como o iPhone e passagens vantajosas de trem.

Ethan Zhang, um tradutor chinês de 26 anos que trabalhava na Costa do Marfim até o início da crise da Covid-19, em janeiro deste ano, e ficou em Pequim desde então, viajou até a cidade de Yiwu, a quase 1.500 quilômetros da capital chinesa, para se vacinar. Zhang soube através de amigos que a localidade estava conduzindo uma campanha de imunização. As 500 doses se esgotaram rapidamente, mas ele conseguiu se vacinar desembolsando US$ 30 (R$ 162).

Para o tradutor, o fato da vacina em questão ainda estar em fase de testes não foi motivo de preocupação.

— Eu me sinto mais aliviado agora que estou imunizado. O fato de terem começado a vacinar pessoas no país com base em uma política de uso emergencial mostra que há certas garantias — disse Zhang.

Um dos cambistas que negociam a indicação para a vacinação, que se identificou apenas como Li, temendo ser punido pelas autoridades, disse ao New York Times que tem cooperado com companhias para que seus funcionários sejam vacinados, iclusive com doses da Sinovac Biotech, cuja fórmula é testada no Brasil pelo Instituto Butantan.

— Algumas pessoas estão muito gratas por eu tê-las ajudado — disse Li, reconhecendo, no entanto, que a "ajuda" é ilegal.

Riscos à saúde

Especialistas alertam que a adesão voluntária a imunizantes sem comprovação científica pode representar grandes riscos por diferentes razões. Pessoas que receberam vacinas que posteriormente se demonstrarão ineficazes contra o Sars-CoV-2 podem acreditar que estão seguras e se expor em situações de contágio em potencial. Esses indivíduos também podem ser impedidos de receber doses de uma fórmula eficaz por já terem sido imunizados, além de possíveis efeitos colaterais não serem descartados.

Cópias de um formulário de consentimento obtido pelo New York Times nao faz qualquer menção ao caráter de testes da vacina em questão.

— Esses riscos não têm sido detalhados claramente — reconhece Yanzhong Huang, conselheiro de saúde global no Conselho de Relações Exteriores da China e especialista em saúde pública no país.

Ainda há quem prefira aguardar a conclusão dos ensaios clínicos para se vacinar, no entanto. É o caso da motorista de táxi He Meili, que atua na cidade de Shaoxing. A sua cooperativa, diz, ofereceu ajuda com indicações para assegurar a imunização por US$ 120.

— Mas eu prefiro aguardar e conferir (os resultados da vacina) — disse Meili. — Ainda me sinto insegura.

Confiança nas vacinas

Relatos de efeitos indesejáveis ou de mortes podem servir como gatilho para o histórico de desconfiança em torno das vacinas na China. Não está claro quantos chineses já foram vacinados com imunizantes candidatos no país.

A China disponibilizou três das quatro fórmulas desenvolvidas no país que se encontram na terceira e última fase dos ensaios clínicos para dezenas de milhares de funcionários públicos de estatais, agentes de governo e executivos de companhias desde julho. Governos locais indicam, no entanto, que planejam ampliar ainda mais a oferta das vacinas em teses.

A tendência observada no país asiático contrasta, por exemplo, com os EUA, onde pesquisas de opinião indicam que um crescente número de americanos não pretende se vacinar contra o coronavírus. Segundo um levantamento global publicado em outubro na Nature, chineses deram a maior proporção de respostas positivas quando questionados se aceitariam ser imunizados com uma "vacina comprovadamente eficaz e segura".

— Há na China uma tendência de pensar que "todos estão se vacinando, então quero ser imunizado também" — avalia Jennifer Huang Bouey, pesquisadora da RAND Corporation. — Já os americanos provavelmente precisarão se planejar em como evitar um motim contra uma eventual vacina, não necessariamente em como implementá-la.

Zheng Zhongwei, um dos principais oficiais da Comissão Nacional de Saúde da China e responsável pela divisão de vacinas, tem defendido publicamente a abordagem chinesa. No fim de outubro, o representante disse que o uso emergencial "é muito necessário para a proteção da vida e da saúde das pessoas", levando em conta os picos da Covid-19 em outros lugares no mundo.

O presidente do laboratório Sinopharm, Lu Jingzhen, anunciou na ocasião que cerca de 100 mil pessoas receberam a vacina candidata desenvolvida pela companhia e que nenhum efeito adverso havia sido identificado até então. Jingzhen afirmou também que 56 mil deles viajaram ao exterior e não contraíram o novo coronavírus.

Protocolos frágeis

A narrativa do governo para encampar a imunização antecipada carrega tom nacionalista, bem como a de setores da população nas redes sociais. Wang Mingtao, funcionário de uma companhia de mineração em Gana, publicou no Douyin — a versão chinesa do TikTok — um vídeo de uma fila de pessoas na sede da Sinopharm, em Pequim, para serem vacinadas.

"Meu país é poderoso", enfatizou Mingtao no material divulgado na rede social.

Wang Mingtao, que viajou da cidade de Xian para ser imunizado em Pequim (uma distância de cerca de 1.200 km), disse que não se preocupar com o fato de as vacinas serem experimentais. Ele pagou US$ 150 (R$ 812) por uma dose do Instituto de Produtos Biológicos de Pequim, uma subsidiária da Sinopharm.

As doses não são administradas conforme a recomendação dos próprios laboratórios em todos os casos. Wang, por exemplo, recebeu duas doses no mesmo dia, em 26 de setembro. A segunda inoculação, no entanto, deveria ser aplicada entre 14 e 28 dias após a primeira aplicação. Ele justificou que não queria viajar novamente para voltar à capital chibesa.

O presidente da Sinopharm afirmou ao jornal chinês Guangming Daily que as duas doses podem ser administradas ao mesmo tempo, em cada braço, "sob circunstâncias especiais". O intervalo entre as doses, no entanto, serve exatamente para gerar uma resposta imunológica mais potente, alerta Clarence Tam, professor assistente da Escola de Saúde Pública da Universidade Nacional de Cingapura.

Atraso na entrega

A vacinação emergencial também pode representar outro problema para a China: o atraso na entrega da fórmula que eventualmente se demonstre segura e eficaz contra o coronavírus. A demanda tem pressionado estoques, a exemplo da Rússia com sua vacina Sputnik V.

Wendy Zhang, profissional de saúde de 26 anos, só recebeu sua segunda dose de um dos imunizantes experimentais da China 57 dias após a aplicação da primeira justamente por falta de unidades disponíveis.

Eden Huang, estudante de 19 anos que recentemente chegou de Amsterdam, na Holanda, aplicou quatro vezes para o programa de imunização da Sinopharm depois de tomar conhecimento que a companhia abrira inscrições para cidadãos que estudam no exterior, mas não teve sucesso. Huang também procurou quatro hospitais na provincia Zhejiangs, sem retorno.

— Estou bastante ansioso. Os governos europeus não levam a Covid-19 tão a sério quanto o da China — acredita o estudante, que disse não temer ser imunizado com uma fórmula em fase de testes. — Essa vacina me traria mais benefícios do que danos (para a saúde).