'Chorei' - o amargo retorno ao Palácio do Planalto após a depredação

Pisos sem as pedras originais, vidros quebrados, móveis parcialmente submersos na água e um cheiro persistente de gás lacrimogêneo. O estado do Palácio do Planalto, sede da Presidência em Brasília, depredado por bolsonaristas, arrancou lágrimas de seus funcionários.

"Eu chorei", disse, nesta segunda-feira (9), uma funcionária ao voltar ao trabalho no edifício vandalizado, um dia depois da invasão de uma multidão de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Equipes de limpeza varriam e começavam a erguer poltronas e outros móveis deixados na frente do prédio, alguns atirados sobre o espelho d'água do edifício de espaços amplos, ícone da arquitetura modernista.

Enquanto isso, funcionários do governo tentavam recuperar parte da normalidade após a invasão, no domingo, das sedes dos Três Poderes, na capital federal, uma semana depois da posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Os bolsonaristas, que pediam uma intervenção federal para tirar Lula do poder, pularam as barreiras policiais e invadiram o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal, na Praça dos Três Poderes, destruindo muito do que encontraram pelo caminho.

- Fotos de ex-presidentes no chão -

Exceto pela presença de alguns membros das forças de ordem, questionadas por sua atuação durante o ataque, o coração de Brasília, cujo acesso foi fechado, estava deserto na manhã desta segunda.

Os incidentes de domingo deixaram fachadas marcadas com pichações e vidraças quebradas; no interior, portas e janelas foram danificadas e alguns gabinetes foram depredados.

No Planalto, os invasores arrancaram pedras do chão para usar como munição contra a polícia e as vidraças da fachada desta joia projetada por Oscar Niemeyer para a capital federal, inscrita na Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade.

Mangueiras de incêndio, cadeiras e outros móveis, como uma grande mesa de madeira entalhada, foram deixados expostos à intempérie, juntamente com restos de projéteis e bombas de gás lacrimogêneo usados pelas forças de ordem para dissipar os invasores.

Um leve cheiro de gás podia ser sentido nos arredores do prédio, mais de doze horas após os incidentes.

Mas o clima era de tranquilidade, com um punhado de seguranças de terno vigiando as portas, sem rastro dos policiais da tropa de choque que ocuparam o local na noite de domingo.

No lobby do palácio, as fotos dos ex-presidentes jaziam no chão com as molduras quebradas, com a parede de mármore onde costumam ficar penduradas como testemunha silenciosa da fúria dos bolsonaristas.

- "Atentado à democracia" -

Ainda eram visíveis rastros de sangue nos gabinetes do térreo, segundo um funcionário.

O acesso ao interior do Planalto estava restrito devido aos danos causados às máquinas de raios X. Ali, Lula e seus ministros se reuniram com os líderes dos outros poderes para avaliar sua pior crise em apenas uma semana no poder.

O gabinete presidencial foi um dos poucos locais aos quais os bolsonaristas não tiveram acesso. Sua ação foi considerada "terrorista" em uma declaração conjunta de Lula com os dirigentes do Congresso e do STF.

Outra sala próxima não teve a mesma sorte: um grupo de funcionários verificava os danos causados à tela "As Mulatas", de Di Cavalcanti, perfurada várias vezes, supostamente com facas.

O Palácio do Planalto abriga mais de uma centena de pinturas e esculturas, além de móveis do próprio Niemeyer.

"Praticamente todas as obras de arte estão danificadas", afirmou uma funcionária, que pediu para ter sua identidade preservada.

No Congresso Nacional, o panorama era similar: vidros quebrados espalhados pelo chão, fios pendurados e mobiliário destruído. A porta de acesso ao Senado estava em frangalhos.

"É uma tragédia", disse à AFP Tiago Amaral, de 34 anos, funcionário do gabinete do senador petista Jaques Wagner. "A destruição vai além do dano ao patrimônio público, é um atentado à democracia".

rsr/raa/mvv