'Choro todas as vezes que me lembro': vida de vítima de estupro após o parto virou de cabeça para baixo

Quando escolheu o Hospital da Mulher, em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, para dar à luz, X. se sentiu acolhida. Ela só não imaginava que o anestesista Giovanni Quintella Bezerra, de 31 anos, recém-contratado na unidade, destoaria tanto da equipe médica que a atendeu. Na véspera do parto, ela e o marido combinaram de tirar fotos do momento mais aguardado: a amamentação. Isso não aconteceu. Mas imagens de um celular escondido em um armário, na sala de cirurgia, flagraram Giovanni colocando o pênis na boca da paciente sedada. Depois que soube do estupro, ela se deu conta de que havia engolido o esperma do abusador. Para evitar uma doença sexualmente transmissível, tomou um coquetel de medicamentos, o que a impediu de dar leite ao bebê.

O relato da primeira vítima ao se sentar de frente para o juiz para contar que sofrera estupro por parte do anestesista, logo após o parto no centro cirúrgico, é estarrecedor. Ao EXTRA, ela contou, com riqueza de detalhes, o que ocorreu em 10 de julho do ano passado, no dia do nascimento de seu filho, e como sua vida virou de ponta-cabeça desde então.

— Eu choro toda as vezes que me lembro. É muita covardia uma pessoa se aproveitar de outra totalmente vulnerável. Toda a expectativa que eu criei para amamentar exclusivamente meu bebê, ele tirou de mim. Não pude dar de mamar por três meses ao meu filho, apesar de o leite escorrer e pingar pelo chão. É muito triste, porque os médicos disseram que seria prejudicial ao bebê por causa dos remédios que fui obrigada a tomar para evitar doenças sérias. Ele (anestesista) destruiu as nossas vidas — desabafa a vítima, referindo-se a ela, ao marido e aos outros dois filhos.

‘Tive que fingir estar feliz’

O trauma psicológico beira o extremo de a vítima ficar desconfortável com o simples carinho de um filho. Nos primeiros meses do nascimento do bebê, ela não conseguia sequer brincar com a criança. Se antes era pessoa de sorriso fácil, a partir do que aconteceu se transformou numa mulher de olhar triste.

— Quando cheguei com o meu bebê nos braços, meus outros filhos não se aguentavam de tanta ansiedade e alegria para ver o irmãozinho. Eu tive que fingir que estava feliz — relembra.

Durante o pré-natal, ela conta que viu no Hospital Estadual da Mulher Heloneida Studart — conhecido pela qualificação dos serviços de saúde para a mulher — o local ideal para ter seu filho. Segundo ela, “parecia um hospital particular”. Por ter contraído diabetes gestacional quando esteve grávida dos filhos, ela se sentiu segura na unidade de saúde. Trata-se de uma doença metabólica caracterizada pela intolerância à glicose que se inicia durante a gestação em pessoas com glicemia normal antes da gravidez.

— Por ser uma gravidez de risco, fui a muitas consultas. Sempre fui muito bem atendida. No dia marcado para o parto, cheguei às 6h12. Seria a primeira a ir para o centro cirúrgico, mas acabei sendo a terceira. Estava em jejum e me sentindo fraca por estar há muitas horas sem me alimentar. Um dos primeiros a me atender foi o anestesista. Ele foi atencioso, explicou o procedimento e disse que aplicaria a sedação comigo sentada. Senti aquele gelado descendo pelas minhas costas. Era o álcool. Em seguida, veio a picada — recorda-se.

A voz dele era baixa e tranquila, como se quisesse passar confiança, conta a paciente. Como a sala era gelada, ela sentiu vontade de ir ao banheiro, mas Giovanni não permitiu. Foi ele quem colocou uma sonda nela, e, inclusive, fez a higiene em suas partes íntimas. Embora tenha estranhado tal prática ser feita por um anestesista, X. teve receio de reclamar. O marido, presente à entrevista, fica indignado:

— Isso é um absurdo! Como um homem toca nas partes íntimas de uma mulher? Quem deveria fazer isso é uma enfermeira! — diz ele, que está desempregado desde que a mulher sofreu o abuso. — Sou eu quem a levo para o hospital e ajudo a cuidar do nosso filho.

‘Senti algo na minha boca’

X. retoma o assunto, explicando que acompanhou o parto, mas que, em seguida, sentiu que a sedação começou a fazer efeito. Ela lembra do marido na sala, tirando fotos, e do médico mostrando o bebê. Já o pai da criança recorda-se de ouvir uma voz masculina pedindo que ele se retirasse, mas não sabe se era de Giovanni. Ele obedeceu. Apesar de estar dopada, a vítima sentiu falta de ar:

— Ele tirou a máscara de oxigênio do meu rosto. Senti falta de ar, apesar de sair um vento vindo de uma borrachinha, apoiada em um lençol. Estava perto do meu nariz, que tinha uma máscara de pano. Apaguei e não vi mais nada. Não sei quanto tempo dormi. Tentava abrir os olhos, mas estava grogue. Só via sombras. Senti algo na minha boca. Não sabia se era vômito ou saliva. Acabei engolindo. Que nojo!

Segundo ela, a atitude de duas funcionárias do hospital lhe chamou a atenção:

— Senti que algo estava errado. A minha desconfiança aumentou quando vi duas enfermeiras abraçadas. Uma delas chorava. Perguntei: “Por que dormi tanto? O que aconteceu?”. Uma delas respondeu que havia recebido uma má notícia — rememora ela, que só depois, no quarto, foi informada do que ocorreu de verdade.

Desconfiados do comportamento de Giovanni, funcionários decidiram esconder um celular filmando dentro de um armário com vidro escuro, na sala onde houve a cirurgia. Os profissionais de saúde chamaram a polícia, e o anestesista foi preso e autuado em flagrante no próprio hospital. O médico continua sob custódia e responde a processo por estupro de vulnerável. No dia 12 de dezembro deste ano, teve início a audiência de instrução e julgamento do caso, na 2ª Vara Criminal de São João de Meriti, interrompida por causa do recesso do Judiciário.

Durante as investigações, a titular da Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam) de São João de Meriti, delegada Bárbara Lomba, descobriu que o anestesista começou o ato sexual 50 segundos após o marido da vítima sair da sala de parto. O trecho da filmagem dura dez minutos. É possível ver que, após o estupro, o homem limpa o rosto da mulher e depois joga no lixo o que parece ser uma gaze.

— Quando vi pela TV a delegada dar voz de prisão para aquela pessoa, eu me senti representada. Lembrei que, antes do parto, pedi a Deus para colocar as pessoas certas no meu caminho. E essas pessoas apareceram: a delegada, os médicos e enfermeiras. A equipe que me atendeu foi corajosa. Gostaria de poder agradecer a todas essas pessoas — diz a vítima, que está sem atendimento psicológico.

O advogado de X., Francisco Bandeira de Lima, também elogiou os funcionários do hospital:

— Eles trouxeram à tona o submundo da violência obstétrica. Quem imaginaria uma situação dessas, em um momento tão especial para uma mãe, que é dar vida a um bebê?

A Defensoria Pública, que representa Giovanni, não se pronunciou porque o processo corre em segredo de Justiça.

Também atuam no caso os advogados Francisco Valdeir de Almeida e Robson Dias Santiago