Christopher Plummer assumiu papel de Kevin Spacey em filme após acusações de assédio

O Globo
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Morto nesta sexta-feira, aos 91 anos, por complicações após uma queda, Christopher Plummer teve um enorme desafio já nos últimos anos de carreira. Aos 88 anos, no fim de 2017, ele foi convidado às pressas, por Ridley Scott, para regravar as cenas de Kevin Spacey no filme "Todo o dinheiro do mundo". Na época, Spacey foi acusado de assédio sexual sete semanas antes da estreia, o que obrigou o diretor a procurar um novo talento para o longa. De forma inédita em Hollywood, Christopher Plummer refez, uma a uma, todas as cenas em que Spacey aparecia. Pelo trabalho, ele se tornou, naquele ano, o mais velho ator a ser indicado ao Oscar.

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— O processo todo foi histérico, mas ainda adoro correr riscos. Minha única questão foi confiar na minha memória a esta altura do campeonato: entenderia o texto todo em prazo tão curto e conseguiria mergulhar nos gigantescos arcos morais propostos por Ridley? — contou Plummer ao O GLOBO, na época. — Ele me disse que, na sua cabeça, o personagem só podia ser feito pelo Kevin ou por mim. Aí fiz uma pausa proposital no telefone, até finalmente dizer que topava ler o roteiro. Ué, né?, por que ele não me chamou de primeira?

Plummer pegou um avião e encontrou com o diretor de 80 anos em Los Angeles para entender “o tamanho da pedreira”. Na manhã seguinte, estava a bordo do projeto. O ator canadense já é o mais velho a vencer um Oscar — em 2012 foi o melhor coadjuvante por “Toda forma de amor”, em que vive de forma tocante um sujeito com câncer terminal que decide sair do armário na terceira idade — e deu ao thriller de Scott um tom diferente da interpretação mais cínica e fria, característica de Spacey.

O diretor, que celebrou meio século de carreira durante as refilmagens, calculou por alto a perda financeira com os dias extras de set e percebeu o tamanho da enrascada:

— No momento em que soube do Kevin, tomei a decisão: vamos fazer tudo de novo. Sabia que tinha a capacidade de filmar rapidamente todas as 22 cenas, já as tinha na minha cabeça. A Sony, os produtores, todos pensaram o mesmo: o risco financeiro para um investimento daquele seria ainda maior se não fizéssemos a mudança. Arregacei as mangas, convoquei os atores, convenci o Christopher e comecei tudo de novo. E não é que deu certo?