Documentário explica enchentes em SP: 'é coisa que nós inventamos'

Homem caminha pela Marginal Tietê alagada após as chuvas em São Paulo. (Foto: REUTERS/Rahel Patrasso)

Quem tentou sair de casa na manhã desta segunda-feira (10) deparou-se com uma Grande São Paulo totalmente paralisada por conta das fortes chuvas. Marginais dos rios Tietê e Pinheiros intransitáveis, quilômetros e quilômetros de lentidão, pontos de alagamentos, quedas de árvores e desmoronamentos. O retrato de uma metrópole cercada pela água.

Uma das razões para esse comportamento de bacia da cidade de São Paulo quando chove está justamente em sua urbanização. E é a relação entre a expansão da antiga Vila de São Paulo de Piratininga com os cursos dos rios que a cercam que é objeto de estudo no documentário “Entre Rios”.

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Dirigido por Caio Silva Ferraz e produzido pelo Coletivo Madeira, o filme mostra o surgimento da vila de São Paulo a partir da chegada dos jesuítas, que se instalaram entre o Rio Tamanduateí e o Ribeirão Anhangabaú. O local foi escolhido pela facilidade em encontrar água para consumo, além de fácil acesso ao Rio Tietê, propício para navegação.

Com o passar dos anos, os rios passaram a ser vistos como obstáculos para os projetos de expansão da cidade e foram sendo aterrados ou canalizados, priorizando a abertura de avenidas e privilegiando o transporte por automóveis.

“A urbanização de São Paulo foi uma coisa tão violenta que ocupou o lugar do rio. Então enchente é coisa que nós inventamos, é produto da urbanização”, reflete a geógrafa Odete Seabra, em um trecho do documentário. Os 25 minutos de história contam com depoimentos de arquitetos, geógrafos, historiadores e engenheiros, que ilustram como a metrópole lidou e ainda lida com problemas como as enchentes dessa segunda-feira.

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A capacidade de drenagem do sistema não foi planejada para chuvas como as que caíram nesta segunda, detalhou o secretário estadual do Meio Ambiente de São Paulo, Marcos Penido.

"Fevereiro é um mês chuvoso normalmente, a gente fala em torno de 220 mm de chuva o mês inteiro -66% foi nessa madrugada. Você tem um sistema de drenagem previsto para essa média histórica", afirma Penido. "Todo modelo de drenagem é baseado nos modelos matemáticos em função das médias históricas. Isso aqui não tem nada a ver com nenhuma média histórica nem a forma como ocorreu."

BALANÇO DAS CHUVAS

De acordo com o Corpo de Bombeiros, até às 15h a Grande São Paulo tinha registrado 857 chamados por conta de enchentes, 151 ocorrências de desabamentos e desmoronamento, e outras 134 quedas de árvore.

De acordo com o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), a cidade de São Paulo registrou entre a tarde de domingo (9) e a manhã desta segunda (10) o segundo maior volume de chuva em 24 horas no mês de fevereiro dos últimos 77 anos. 

A medição recorde, até o momento, foi registrada no dia 2 de fevereiro de 1985, quando choveu 121,8 mm.  Entre 9h de domingo e as 9h desta segunda, choveu na capital paulista 114 mm. Considerando todos os meses do ano, o volume foi o oitavo maior acumulado da história.

O maior volume até agora foi de 123,6 mm, registrados no dia 5 de julho de 2019. 

Ainda segundo o Inmet, o volume de chuvas dos dez primeiros dias de fevereiro somam 299,6 mm, superando a medição comum para esta época do ano, de 249,7 mm. Nas regiões central, sul e leste de São Paulo, o volume variou entre 70 e 100 mm. 

GRANDE SÃO PAULO

Em Barueri, cidade da Grande São Paulo, também houve recorde. A cidade registrou maior volume dos últimos 7 anos, com 145,8 mm. Em Osasco, também na Grande São Paulo, um deslizamento de terra atingiu casas.

Segundo informações do Corpo de Bombeiros, entre a meia-noite e 11h30 a corporação foi acionada para atender 546 ocorrências de enchentes, 88 desabamentos e 97 quedas de árvores.

Ao meio-dia, a cidade tinha 85 pontos de alagamento, 66 deles intransitáveis. Trechos de vias importantes como as marginais Pinheiros e Tietê e a avenida Roberto Marinho ficaram alagados e foram interditados. 

marginal Tietê foi interditada devido a alagamento na altura da ponte da Casa Verde, no sentido Cebolão, por volta das 5h30.

Na marginal Pinheiros também houve interdições, com trechos totalmente alagados e veículos parcialmente cobertos pela água. Na região da Barra Funda, prédios residenciais ficaram ilhados.  

No início da manhã, a Prefeitura de São Paulo anunciou que o rodízio de veículos está suspenso nesta segunda-feira.  

Escolas foram afetadas. Ao menos cinco colégios cancelaram as aulas: Aubrick, Castanheiras, Porto Seguro, Santa Cruz, São Domingos.

Na rede estadual, as aulas foram suspensas em 37 das 5,1 mil unidades. O conteúdo deverá ser reposto posteriormente.

O porta-voz do Corpo de Bombeiros, capitão Marcos Palumbo, pediu para as pessoas que podem trabalhar de casa evitar sair nesta manhã. "Pedimos para as pessoas fiquem em casa, não é o momento para deslocamentos", afirmou o secretário estadual de Infraestrutura e Meio Ambiente, Marcos Penido, em entrevista ao Bom Dia São Paulo, da TV Globo.  

A previsão para esta segunda-feira é de mais chuva forte na capital e outras regiões do estado.

com informações da EBC Agência Brasil