‘A ciência do genoma precisa de diversidade’, diz geneticista que está à frente do projeto DNA do Brasil

Rafael Garcia
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SÃO PAULO — Nesta semana, cientistas comemoram 20 anos do sequenciamento do genoma humano, o primeiro esboço funcional do mapa de genes que guarda as informações sobre as pessoas no DNA.

Em 2001, esse avanço veio cercado de promessas e temores, muitos dos quais se mostraram justificados nas décadas seguintes. Uma esperança do projeto, porém, se frustrou: não se conhece bem, duas décadas depois, o fundo genético da maior parte das doenças comuns.

Um obstáculo a essa ambição é a desigualdade: a maior parte dos indivíduos com DNA sequenciado até hoje é de origem europeia. Essa falta de diversidade compromete a compreensão do papel de cada gene.

Uma das cientistas que mais tem contribuído para preencher essa lacuna de conhecimento é Lygia da Veiga Pereira, professora do Instituto de Biociências da USP. À frente do projeto DNA do Brasil, a geneticista coordena um esforço de sequenciamento de 15 mil genomas brasileiros para alimentar pesquisas na área.

Em entrevista ao GLOBO, ela faz sua reflexão sobre o vigésimo aniversário do esboço do genoma humano.

Após duas décadas, o genoma cumpriu a promessa de elucidar doenças e possibilitar terapias?

O sequenciamento do genoma humano teve um impacto muito grande nas doenças que a gente chama de mendelianas, causadas por mutação em um gene só, em geral doenças raras como fibrose cística ou distrofia muscular. O genoma facilitou a descoberta dos genes envolvidos nessas doenças, e a partir daí foram desenvolvidos, para algumas, terapias mais eficientes.

Mas com as doenças comuns — diabetes, Alzheimer, hipertensão etc — foi diferente, porque elas têm um componente genético e também ambiental, de estilo de vida. E a genética delas é muito mais complexa. Em vez de você ter um gene só determinando se a pessoa vai ter ou não a doença, são centenas ou milhares de pequenas variantes genéticas que fazem a pessoa ter um risco aumentado de desenvolver aquela doença. O grande desafio da genética do século 21 é determinar quais variantes genéticas são essas associadas às doenças comuns.

Talvez seja uma decepção para as pessoas que a gente ainda não tenha testes genéticos precisos para cravar sua predisposição para essas doenças comuns. Essa é uma das promessas do projeto genoma humano que ainda não foram cumpridas, e ela segue em andamento.

Como isso está sendo resolvido?

A gente teve uma revolução a partir de 2007 com o desenvolvimento de outros métodos de sequenciamento, que permitem hoje a gente obter um genoma humano por US$ 500 em 24 horas. O primeiro genoma humano demorou uns 15 anos e custou US$ 3 bilhões.

Isso vem permitindo que a gente gere os dados para poder, um dia, resolver as genéticas das doenças comuns, porque permite sequenciar o genoma de milhões de pessoas. A gente precisa desse volume, que dá poder estatístico para identificar as variantes genéticas associadas às doenças comuns.

Com relação às terapias, parte dessas promessas começa a ser cumprida na área de oncologia. Para alguns tipos de câncer, quando o DNA do tumor é sequenciado, você sabe que se um ou outro tipo de quimioterapia vai ser mais eficaz.

Os genomas não europeus são ainda poucos no banco global para pesquisa. Como isso vai ser corrigido?

Nosso projeto, o DNA do Brasil, endereça exatamente essa falta de diversidade, porque se tem uma coisa com a qual o Brasil pode contribuir é com a diversidade e a miscigenação.

E qual é o problema da falta de diversidade? Por exemplo: já existem artigos científicos mostrando variantes associadas a um maior risco de doença cardiovascular, mas isso foi descoberto usando os genomas de populações europeias. Quando se aplica isso a populações de outras ancestralidades, os resultados não são tão precisos. A genética das doenças complexas varia entre diferentes populações, por isso é fundamental ter diversidade nos estudos.

Como está indo o projeto?

Lançamos o projeto em dezembro de 2019, e já conseguimos fazer 2.100 genomas. Estamos de fato encontrando uma quantidade de novas variantes de DNA que ainda não foram descritas em outras populações. O DNA do brasileiro tem muito a contribuir com a ciência do mundo inteiro. Quando a gente sequencia o DNA brasileiro a gente está sequenciando DNA africano e indígena que nunca tinha sido sequenciado.

Em 2001, um temor era a iniciativa privada se apropriar do conhecimento do genoma. O receio durou?

Esse era um receio pertinente. Na época, o Craig Venter [empresário e biotecnólogo] estava tentando patentear todos os genes que ele descobria, sem nem saber para que serviam. Aí criou-se todo um entendimento legal de que aquilo não fazia sentido. Em vez de existir uma disputa “público x privado”, o que ocorre mais hoje é o público fazer parcerias com o privado.

E o receio da manipulação genética de humanos?

Na época eu achava exagerado. O que eu já achava mais complicado, e ainda acho, é a seleção de embriões. É compreensível que quem tem uma doença degenerativa na família não queira ter um filho afetado e queira selecionar embriões.

Mas, e se um dia quiserem selecionar embriões com base em genes que influenciam o QI ou a capacidade atlética? Isso a gente segue discutindo, até porque a gente ainda não conhece bem esses genes.

E, agora, além disso, o Crispr [técnica moderna de alteração de genes] dá a capacidade de fazer alterações genéticas em embriões, como um grupo chinês fez. A ferramenta é segura o suficiente? Não. Mas, e quando for segura? Em que situações a sociedade vai aceitar que seja feito? Essas discussões todas voltaram, e com muito mais urgência.

Como é fazer pesquisa genômica no Brasil hoje? Em 2001, o país investia muito, mas cientistas reclamavam da burocracia para importar equipamento e insumos.

A gente vive um período muito difícil da história da ciência no Brasil, com diminuição progressiva das verbas de pesquisa. E continua a burocracia. A gente conseguiu na USP uma verba no ano passado para fazer células de pulmão humano com células-tronco, que serviriam para pesquisa com Covid-19.

Acontece que, para isso, a gente precisava de alguns reagentes novos. Eu tinha dinheiro e fizemos a encomenda, mas demorou seis meses para o reagente chegar. É muito tempo. Se demorasse 15 dias ou um mês, seria um grande avanço. Aumentaria muito a agilidade e a competitividade da ciência brasileira.

Quanto o projeto genoma humano contribuiu para o combate à Covid-19?

A ciência do genoma humano permeia qualquer estudo sobre saúde humana hoje. Por exemplo, por que algumas pessoas com Covid-19 têm casos graves e outras são assintomáticas? Sabemos que, por exemplo, obesos tem mais propensão a ter complicações, mas tem gente obesa que não sofre, e tem gente saudável que contrai uma doença horrível.

A gente está estudando quais variações genéticas das pessoas podem estar associadas a isso. E a gente só consegue fazer isso porque existe a sequência do genoma humano em bancos de dados. O genoma humano hoje é onipresente na pesquisa biomédica.