Ciência tem de ser descentralizada

Nos últimos 40 anos, o apoio das agências federais e estaduais às instituições que fazem pesquisa foi responsável pela consolidação da ciência brasileira. Sua eficiência é avaliada pelo número de artigos publicados em revistas científicas de ampla circulação. A relevância da contribuição acadêmica pode ser medida pelo índice de impacto.

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O esforço tem sido acompanhado pelo aumento da produção científica. Ocupávamos as posições de número 28, 22, 18 e 13 em 1981, 1997, 1998 e 2012, respectivamente. Hoje continuamos variando entre a 13ª e a 14ª posições .

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Como explicar a estagnação da produção científica brasileira? Certamente, há vários fatores. No entanto o que parece mais importante é a forte concentração da atividade nas instituições localizadas nas regiões Sudeste e Sul, apesar de algum crescimento de estados do Nordeste. A participação da Região Norte é ainda pequena, 6,2% da produção nacional, com destaque para o Pará.

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É de alta prioridade concentrar esforços, sem deixar de manter o devido apoio às outras regiões, e estimular o trabalho das instituições localizadas na Amazônia Legal, que representa 61% do território do país, com uma rica biodiversidade e constituindo um celeiro de temas de potencial interesse científico, com possibilidades reais de geração de recursos na área da bioeconomia.

A produção científica depende do potencial de recursos humanos disponíveis e do volume de recursos financeiros investidos. É de conhecimento geral que as instituições na Amazônia Legal, com poucas exceções, não têm infraestrutura adequada. Recentemente, visitei várias e constatei que muitos jovens doutores que nelas atuam ficam à espera de oportunidades em centros mais desenvolvidos por não terem condições de continuar os projetos iniciados na fase de formação.

É fundamental fortalecer a infraestrutura científica dessas instituições por meio de um programa arrojado e bem planejado, com foco nas vocações regionais. O principal programa de infraestrutura científica do país vem sendo conduzido desde 2002 pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), com recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), tendo investido cerca de R$ 8 bilhões. Apenas 5,6% foram para a Região Amazônica, equivalente ao que apenas duas instituições da Região Sudeste receberam.

É essencial haver uma mudança de postura, como proposto recentemente pela Academia Brasileira de Ciências, com investimento elevado na região — conjugado ao apoio das fundações estaduais de amparo à pesquisa dos vários estados — para um ousado programa de formação de recursos humanos e atração de lideranças científicas do país e do exterior.

Uma ação coordenada poderá mudar significativamente o cenário científico da região e levar a uma ampliação da atividade no Brasil.

*Wanderley de Souza, professor titular da UFRJ, é membro da Academia Nacional de Medicina, da Academia Brasileira de Ciências e da U.S. National Academy of Sciences

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