Cia das Letras, crianças escravizadas não brincavam em navios negreiros

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  • O fato de um livro que romantiza a infância escravizada ser publicado expõe a sórdida estrutura social, política e econômica que faz a manutenção do racismo no Brasil

  • "ABECÊ da Liberdade: A história de Luiz Gama" foi escrito por dois autores brancos: José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta

  • A obra foi recolhida pela editora após repercussão negativa

Por Juca Guimarães

Um livro dedicado ao público infantil, o "ABECÊ da Liberdade: A história de Luiz Gama", lançado pela maior e mais conceituada editora do Brasil, apresenta uma narrativa de crianças negras africanas em um navio negreiro brincando de ciranda e pega-pega numa viagem descrita como “tranquila”. “Não houve tempestade e o navio quase não balançou”, diz um dos trechos.

Em outra cena, é possível ver crianças negras achando graça em brincar de escravos de Jó enquanto navegavam rumo à escravidão. A obra foi recolhida pela Cia. das Letras, mas o fato de ela ter sido escrita, ilustrada, aprovada, produzida e ter parado nas livrarias expõe a sórdida estrutura social, política e econômica que faz a manutenção do racismo no Brasil.

O apagamento da luta dos africanos escravizados e dos afrodescendentes por dignidade e reparação é uma marca constante em toda história brasileira, assim como é notório o esforço de reescrever com simpatia e inverdades as atrocidades do período de escravidão para sustentar a perniciosa tese gilberto-freyriana de "democracia racial" - expressão que mancha o sentido da palavra "democracia".

Como nos ensinou o sábio Abdias Nascimento, em seu livro "O genocídio do negro brasileiro - processo de um racismo mascarado", não há trégua, o racismo cria todos os tipos de ilusões para se enconder e continuar dando a tônica das construções sociais, por meio da inferiorização e desarticulação da população negra.

Cria-se eufemismos como “morenidade”, “metarraça”, “co-colonização das terras brasileiras entre africanos e europeus”, entre outras fantasias, para promover a falácia do igualitarismo racial e negar os genocídios dos povos originários e dos africanos escravizados - duramente castigados nas minas de ouro, nas plantações e nas construções de cidades.

O racismo não se atreve a mostrar a cara e se esconde por trás da máscara do "mal-entendido", da "liberdade de expressão", da "brincadeira". Enquanto a dor de outros povos choca, "a nossa gera piada'', diz o rapper Emicida na letra da canção "Bang", do álbum "Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa”, de 2015.

Em 2003, o governo brasileiro aprovou a lei 10.639 que acrescentou na LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) o ensino da história e da cultura africana e afro-brasileira nas escolas públicas e particulares.

A educadora negra Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva, doutora em ciências humanas, foi indicada pelo movimento negro para fazer parte do Conselho Nacional de Educação e foi a autora do parecer para a regulamentação da lei, a partir de 2004. Ela defende que crianças brancas e negras devem aprender sobre a cultura afrobrasileira e ter uma formação antirracista.

Durante todo o século 20, diversas professoras negras lutaram para que a educação abordasse a questão da racismo e que os alunos tivessem a oportunidade de discutir o período da escravidão de forma crítica.

O letramento racial e o combate ao racismo é uma obrigação de toda a sociedade, incluindo as pessoas brancas, as editoras de livros e o sistema de educação. Os brancos não são culpados pelo que os seus antepassados fizeram, mas têm a obrigação de combater o legado deixado por eles.

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