Cia Dos à Deux faz retrospectiva de peças no Nelson Rodrigues

Gustavo Cunha

Há quase 18 anos, “Aux pieds de la lettre” roda o mundo. Segundo espetáculo da companhia franco-brasileira Dos à Deux, a peça acumula mais de 450 apresentações em países da África, América Latina, Europa e Ásia. Agora, volta a ser montada no Rio — no Teatro da Caixa Nelson Rodrigues, no Centro —, onde o premiado grupo também retoma, a partir da próxima semana, o elogiado “Irmãos de sangue”, de 2014, como parte da mostra “Dos à Deux em repertório”.

Um dos nomes pioneiros a aprofundar o que se convencionou chamar de “teatro gestual” — em linguagem que mistura dança e artes cênicas sem o uso da palavra —, a trupe formada por Artur Luanda Ribeiro e André Curti se notabiliza pela criação de irreverentes dramaturgias coreográficas, colocadas em cena com máscaras, bonecos em tamanho real e outros recursos.

As histórias sempre esmiúçam determinada palavra, normalmente com enfoque em figuras marginalizadas. Em “Aux pieds de la lettre” (em tradução livre, “aos pés da carta”, trocadilho com a expressão “ao pé da letra”), o termo escrutinado é a “loucura”.

Derivação de uma imersão de dois anos num hospital psiquiátrico parisiense — que, inclusive, gerou outra montagem com os pacientes —, a narrativa acompanha personagens transtornados em busca de um mundo à parte no espaço obscuro em que estão confinados.

— E aí vêm as seguintes questões: onde se situa a loucura contemporânea? O maluco é quem está dentro desses lugares ou quem está fora? — ressalta Ribeiro.

À época das primeiras sessões (ainda em 2002), as perguntas saltavam de um debate sobre o retorno dos tratamentos com eletrochoque na Europa. Hoje, o assunto ainda se mantém atual, e com novos significados.

— Nossa tristeza é constatar que a peça não se tornou obsoleta. Desde então, parece que vivemos uma descida ao inferno, com a retomada de ideias ultrapassadas, apesar de toda a revolução levantada por Nise da Silveira e outros tantos — diz Ribeiro. — A gente tem uma afeição muito forte por esse espetáculo. Foi um divisor de águas em nossa trajetória.

Com o desejo de se fixar no Rio — em um casarão na Glória onde eles já passam a maior parte do tempo, e que agora se abre como residência a outros artistas — , Artur Luanda Ribeiro e André Curti já se debruçam sobre uma nova obra. Com estreia confirmada para 2020, “Enquanto você voava, eu criava raízes” destrinchará a palavra “medo”, num ensaio sobre paralisias individuais e coletivas.

— Neste momento tão difícil, seria confortável e até simples pegar as malas e ir embora para Paris. Mas achamos importante nos estabelecer por aqui. É preciso resistir, e isso nos dá energia — afirma Ribeiro, que ministrará, sábado e domingo, ao lado de Curti, uma oficina com o tema “corpo poético”, que define a linguagem defendida pela dupla. — A gente sempre espera que o público veja o espetáculo e saia do encosto da cadeira. Para entender, é preciso fazer esse movimento. São camadas diferentes de leitura, que não redundam na palavra. Vai quase para a metafísica, sabe?

Teatro da Caixa Nelson Rodrigues: Av. República do Chile 230, Centro — 3980-3815. Qua a dom, às 19h. Até 22 de dezembro. R$ 30 (balcão) e R$ 40 (plateia). 14 anos.