Cidadão Belchior: o homem enquanto ipê

Alex Antunes

Apesar de ter sido explorado por parte da imprensa como um desses folhetins bestas de celebridades – separação, sumiço, falência –, o drama que cercou os últimos anos da vida de Belchior pareceu se revestir de uma estranha seriedade. Quase uma dignidade emanando da figura do cantor errante em meio ao sensacionalismo.

A sua morte, como uma espécie de prolongamento disso, foi apresentada ora como parte de sua obra – como se o colapso de sua carreira e negócios tivesse algo de existencialmente heroico e/ou de afirmação política –, ora como uma espécie de corolário inevitável de sua poesia angustiada.

A voz destoante foi a das feministas, que lembraram que parte das dívidas deixadas para trás era com pensões alimentícias, de filhos dentro e fora do casamento, para além obviamente da ausência paterna em si mesma. Atrevo-me a arriscar dizer que a resposta tem a ver com tudo isso – sem que nenhuma suposição mate a charada inteira.

Nenhuma das hipóteses, nem a do Belchior voluntarioso, nem a do Belchior exausto, nem a do Belchior irresponsável parece dar conta do que soubemos, ainda que fragmentos disso tudo estejam presentes (e de alguma coisa mais, ou seria alguma coisa menos). O fato é que, armado o escândalo (que recolocou a figura em pauta, redespertando a curiosidade sobre sua obra – e essa é cheia de qualidades), um mero aceno de Belchior resolveria os problemas – pelo menos os financeiros.

Faltou: a) um violão; b) vontade. Considerando que um dos combustíveis do artista era o romantismo – e aí eu uso o termo no sentido estrito, estilístico, não no piegas –, e de que ele era um homem de habilidades de palco, mesmo sozinho, ou com mínimo acompanhamento, uma pequena faísca de entusiasmo bastaria para uma volta catártica. Os produtores que o procuraram – e mesmo os publicitários a serviço de uma marca de automóveis, que poderiam ter-lhe pago uma soma expressiva para dizer algo tipo “com esse carro, até eu volto” – esbarraram em uma negativa. Com a proposta publicitária ele teria ficado inclusive ofendido.

Que “faltou um violão” não é força de expressão. De seu último refúgio, em Santa Cruz do Sul, RS, onde ele conseguiu finalmente passar longos períodos incógnito nos últimos dois anos, sua amiga Malu Muller conta candidamente que “emprestou um violão que tinha em casa” para ele tocar – vamos supor que poderia ser inclusive um instrumento ruim, ou mediano. Mais duas infos interessantes: de que ele estaria disposto a voltar (mas nunca aceitou as abordagens dos produtores), e que estava tranquilo e cordial (o que difere das ocasiões em que foi localizado mais tenso, ou quase paranoico). Na foto com Malu, e com sua última companheira, Edna Prometheu, de fato estavam de boa cara.

O que aconteceu, e que quase todos os leitores já devem saber, é que, ao não recorrer dos processos que começou a perder, desde 2008 (sua pouca disposição com a carreira vinha de um ou dois anos antes), Belchior meteu-se em uma armadilha. Com as contas bloqueadas a pedido de credores (esposa; mãe de uma de suas duas filhas com fãs; seu secretário, a quem largou no escritório sem maiores instruções), além de não ganhar mais nada ainda deixou de ter acesso aos pagamentos de direitos autorais (pouco mais de R$ 70 mil por ano, ou uns R$ 6 mil por mês em média, em valores de 2013 – enquanto se apresentava, obviamente realizava mais que isso; só a pensão principal que pagava era então de R$ 7 mil).

Nesta matéria há uma boa recapitulação da história, até aquele ano. Também surge a figura de Edna, que ele conheceu em 2005. Numa versão simplória, foi Edna que bagunçou a cabeça de Belchior – teoria que um amigo do casal, o também pintor Aguilar (voltaremos a ele) se apressou em desmentir: “Edna não conseguiria sozinha virar a cabeça de alguém inteligente como Belchior. São dois sonhadores, juntaram suas utopias. Deixaram de acreditar neste mundo materialista, objetivo e mesquinho e partiram para um caminho de desapego”, diz ele. O que Aguilar diz faz algum sentido, mas a trajetória deles não seria exatamente búdica.

Na mesma matéria, é narrado um período bem turbulento, entre hospedagens em casas de quase estranhos, em uma instituição de caridade, e calotes em hotéis pelo Brasil, e um no Uruguai. O clima era de perseguição: no começo de 2013, “Edna e Belchior procuraram a Defensoria Pública em Porto Alegre. A história ganhou ingredientes ainda mais estranhos. Os dois alegavam que o bloqueio das contas e os mandados de prisão impediam que ele trabalhasse (…). Mas o comportamento do casal era confuso. Edna falava desbragadamente, enquanto Belchior ficava quase sempre calado. ‘(…) Fizemos um pedido judicial para a suspensão da execução, até que ele conseguisse se restabelecer. Nesse meio-tempo, Belchior sumiu’”, contou a defensora pública Luciana Kern.

A matéria segue: “Nesse mesmo período, Edna ligou para o jornalista gaúcho Juremir Machado, que não conhecia. Disse que Belchior estava escondido na cidade e precisava de ajuda. Ela queria que Juremir os levasse à sede regional da TV Record para fazer uma denúncia delirante. Juremir notou algo de incomum no casal. Eles se escondiam atrás de pilastras e ficavam olhando a movimentação nas ruas antes de entrar em algum lugar, como se fossem seguidos. Na retransmissora da TV, Edna afirmou ter um dossiê contra a TV Globo. O programa Fantástico noticiara o desaparecimento de Belchior em 2009 e a fuga do hotel uruguaio, em 2012. ‘Ela dizia que Belchior era difamado pela Globo e queria justiça. Falou até que havia uma tentativa de matá-lo’, diz a jornalista Vânia Lain, que recebeu os dois. Eles disseram que voltariam na semana seguinte trazendo os documentos, mas desapareceram.

Entre a opinião carinhosa de Aguilar e os relatos paranoicos, a impressão que me dá é que o encontro com Edna não transtornou Belchior, um cara até então extremamente afável e solícito, segundo todos os relatos, mas o ajudou a canalizar uma profunda insatisfação – consigo mesmo, e com os caminhos que a vida tinha tomado. Não quero, com essa afirmação, me alinhar a uma das análises que mais me irritaram, a de Alberto Sartorelli, na revista Outras Palavras. Ela tem lá seus insights, baseados numa busca detalhada de trechos de letras, mas ao mesmo tempo é extremamente ingênua quanto à relação de Belchior com a indústria cultural e a cultura pop – que não foi a de vítima.

Diz o autor: “Em estética, o artista engajado politicamente deve escolher entre dois caminhos: o da forma artística de difícil assimilação – e remuneração! – para o público e para a indústria cultural; ou o da forma mais simples, de fácil assimilação do público e do show business. Ambas as opções estão fadadas ao silêncio político: uma não apela, a outra tem seu apelo anulado pela caricaturização. No fim, a indústria cultural impede que qualquer artista seja levado muito a sério, por seu ostracismo ou por sua redução a uma imagem vendável”. E Sartorelli segue, citando Nietzsche, Adorno, e recorrendo a uma suposta oposição de Belchior, o compositor crítico, a Caetano e sua turma, os “felizes”. Ou à esquerda festiva, “porralouca”, como se dizia nos anos 1960 e 70.

Há, de fato, um ou dois versos em que Belchior alfineta Caetano – ou brinca com essa ideia. Eu conversava sobre isso outro dia com meu amigo Flaviola (pernambucano autor de uma das mais fascinantes experiências da música psicodélica nordestina, o álbum Flaviola e o Bando do Sol, de 1976, mesmo ano do segundo LP de Belchior, Alucinação, considerado sua obra-prima). Um desses versos é o famoso “Mas trago de cabeça uma canção do rádio/ em que um antigo compositor baiano me dizia/ tudo é divino/ tudo é maravilhoso/ (…) mas sei que nada é divino/ nada, nada é maravilhoso/ nada, nada é sagrado/ nada, nada é misterioso, não”, de “Apenas Um Rapaz Latino Americano”, um de seus maiores sucessos, aludindo a “Divino Maravilhoso” (de Caetano e Gil, gravada por Gal em 68).

Acho que há aí um jogo: o compositor cearense (que é apenas quatro anos mais novo que o baiano) canta a frase com a prosódia e a voz fanhosa de Bob Dylan, e esse tem praticamente a mesma idade de Caetano. O que acontece é que, do fim da década de 1960 para o começo da de 70, a barra política pesou. A aparente leveza tropicalista (que, diga-se, não tinha nada de acrítica), ainda que influenciasse a verve de todos os pós-tropicalistas, incluindo o próprio Belchior, foi sendo engolida por um tom mais pessimista, por metáforas mais sombrias.

O adjetivo “antigo” atribuído a Caetano trata disso, mais do que de um hiato de tempo ou de uma rixa reais. E também da estratégia de dar uma desqualificada nos expansivos baianos, adotada pelos cearenses (como Fagner e Ednardo; ainda que esse “misterioso” do fim do verso também dê uma cutucadinha no Pavão de Ednardo). Eram tempos de transformações intensas – combinadas com as chochações de sempre.

Se há um verso mais ranheta e acusatório nesse sentido, é o de “Fotografia 3X4”, do mesmo Alucinação: “Veloso/ o sol não é tão brilhante pra que vem/ do norte/ e vai viver na rua”, que tenta extrair autoridade de um moralismo mais binário. Mas é só checar o recibão tropicalista que Belchior passa em seu primeiro compacto, “Sorry, Baby” (!), de 1973, para colocar as coisas na perspectiva correta. Neste vídeo, de 1974, um programa da TV Cultura, ele trata aberta e inteligentemente de convergências e divergências (Torquato Neto e Tropicália, cultura agreste e cultura pop, Milton e Hermeto; e poesia e literatura: concretismo, Baudelaire, Rimbaud, Guimarães Rosa, João Cabral).

Insisto um pouco nesse ponto para não situar Caetano e Belchior em polos opostos, naquela briga entre desbundados e comunas. Seria anacrônico. Belchior chegou um pouco depois dessa treta e, se tinha uma qualidade, era estar poeticamente mais ou menos a meio caminho entre Caetano e Chico Buarque, ou entre Caetano e os mineiros do Clube da Esquina – o que era inclusive uma posição bastante confortável (e nisso ele se assemelha a Gonzaguinha e Ivan Lins, que evoluíram na mesma época. Assim como se assemelha, em outro aspecto, a Alceu e a Zé Ramalho, que urbanizaram e abrandaram sua nordestinidade psicodélica, também ao longo dos anos 70).

O barbudo e um tanto tímido hippie do vídeo ganharia enorme desenvoltura nos próximos anos. Seu primeiro álbum, Mote & Glosa, de 1974, ainda tinha alguns cacoetes regionais e vanguardistas, mas em 1976 veio o empurrão de Elis Regina, abrindo o seu disco mais icônico, Falso Brilhante, com duas músicas de Belchior, “Como Nossos Pais” e “Velha Roupa Colorida” (as músicas estavam no espetáculo de mesmo nome, cujo repertório, devido ao sucesso, ganhou uma versão de estúdio)*.

E o empurrão de Vanusa, que emplacou “Paralelas” na trilha da novela Duas Vidas, como tema de Leda (Betty Faria), envolvida com Tomás (Cecil Thiré), Dino (Mário Gomes) e Victor Amadeu (Francisco Cuoco), ou seja, muita emoção. Erasmo Carlos também arriscou sua versão de “Paralelas”, num arranjo bem enxuto e de voz pequena, que confere toda uma delicadeza à intensidade da composição. E, claro, do lançamento de Alucinação, que enfileirava as duas gravadas por Elis com “Apenas Um Rapaz”, “A Palo Seco” (pinçada do primeiro disco e regravada), “Sujeito de Sorte”, “Como o Diabo Gosta”, a faixa-título; todo um repertório poderosíssimo.

O que Belchior discutia em 1974, a necessidade de afirmar toda uma nova geração pronta para substituir a da época mágica dos festivais (que ele pegou raspando, ganhou um Festival Universitário em 1971), era ele mesmo que estava encabeçando, dois anos depois. É essa persona segura – segura e multifacetada – que meu amigo, o músico mineiro Makely Ka, descreve como encontrou, mais tarde, numa postagem do facebook: “O primeiro show que assisti quando cheguei a Belo Horizonte, no extinto Cabaré Mineiro, foi do Belchior. Isso foi em meados de 1990. A casa de shows estava lotada e eu nunca tinha visto uma performance no palco como aquela. Eu tinha 16 anos e fiquei impressionado com aquela postura meio rocker, meio junkie, meio andrógina, com aquelas aberturas de perna, aquela voz anasalada, a poesia como um fio de lâmina afiada”.

E aqui eu inicio minha problematização – ou a do Belchior. Ele chegou numa época de grande profissionalização do showbiz, puxada por um lado pela visão de André Midani, na direção da Polygram, e depois da Warner (eu tento dar uma ideia da coisa neste texto, O Exu Gringo da MPB). E por outro do crescente poder de fogo da rede Globo (“Na Hora do Almoço” mereceu clipe no Fantástico, com o cantor ainda barbado, sem o bigode que o caracterizaria) . Belchior foi um dos artistas que seguiram da Polygram (Alucinação, 1976) para a Warner (Coração Selvagem, 1977), acompanhando Midani. A esse período também corresponde o incremento de uma certa afetação de produção.

Mote & Glosa, pela Chantecler, foi um disco barato. Com direção de produção do próprio Belchior, tinha arranjos do pernambucano Marcus Vinicius. É como se fosse um prolongamento da personalidade de artista, se equilibrando entre algum vigor regional e a influência eclética tropicalista (mais um toque concretista nas duas partes de “Máquina”). Ou seja, sem ser particularmente inspirada, a produção dá conta de acomodar composições que já mostravam bastante potência, como “A Palo Seco”, “Todo Sujo de Batom”, “Senhor Dono da Casa” e (minha predileta) “Na Hora do Almoço”. De quebra, uma declaração de amor a São Paulo, “Passeio”, que remete a Tom Zé. E a linguagem inquietante de “Cemitério” (com algo de Ednardo). Mas Belchior se parece com ele mesmo, e impregna a coisa toda.

Alucinação é um disco mais produzido. Se Elis estava em sua melhor fase musical, com direção de Cesar Camargo Mariano, Alucinação é um pouco o genérico disso. Os arranjos foram entregues pelo produtor Mazzola a um ás dos estúdios da época, José Roberto Bertrami, do Azymuth, mas com a instrução de frear o jazz-soul-samba, e buscar uma espécie de pop mais “folkizado”. Só em alguns momentos, como a intro progressiva de “Como Nossos Pais”, é que Bertrami se solta um pouco. É difícil imaginar se esse repertório tão consagrado, e a que estamos tão acostumados, poderia ter sido produzido de outro jeito – talvez uma dica seja o trato realmente cool que Erasmo deu a “Paralelas”.

Coração Selvagem, o próximo disco, dá mais uma espanadinha no parafuso. Mazzola continua no comando, mas agora há mais cordas, teclados e coros mais frágeis, umas coisas de gosto duvidoso (como o diálogo de sax e gaita que dá uma atrapalhada no clima da regravação de “Todo Sujo de Batom”), e a mixagem em Los Angeles enfatizando essa busca de, err, bom gosto genérico. Em alguns momentos, a própria composição soa a um Belchior genérico, como em “Caso Comum de Trânsito”. Mas o pior é certamente a decisão de vender Belchior como símbolo sexual.

A potência poética está toda lá, em “Pequeno Mapa Do Tempo” (“Eu tenho medo de Belo Horizonte/ Eu tenho medo de Minas Gerais/ Eu tenho medo que Natal, Vitória/ Eu tenho medo Goiânia, Goiás/ Eu tenho medo Salvador, Bahia/ Eu tenho medo Belém do Pará”) e “Galos, Noites e Quintais”. Mas mesmo essas mereceriam arranjos menos equivocados (o que o texto de Sartorelli chama de “teclados engraçados). O álbum conclui a trilogia principal do cantor e compositor. Mas há um certo desarranjo de identidade. O que o próprio tematiza em “Galos, Noites e Quintais”: “Eu era alegre como um rio/ Um bicho, um bando de pardais/ Como um galo, quando havia/ Quando havia galos, noites e quintais/ Mas veio o tempo negro e, à força, fez comigo/ O mal que a força sempre faz/ Não sou feliz, mas não sou mudo/ Hoje eu canto muito mais”.

Mundanamente considerando, ele ia bem. Montou seu próprio selo, para o qual produziu o disco de Aguilar e a Banda Performática. E é aí que sua relação com a música pop é a mais surpreendente. Para além de ser uma “banda de pintor” à moda nova-iorquina, e de ter resgatado o guitarrista tropicalista Lanny Gordin, a Banda Performática, com Arnaldo Antunes, Paulo Miklos e uma formação grandona, de mais de 10 pessoas, foi o embrião dos Titãs (e teve em São Paulo o mesmo papel desbravador/ modernizador que a Gang 90 teve para o Rio). O disco saiu em 1982. Alias os Titãs começaram contratados por seu escritório. Em seu álbum do mesmo ano, Paraíso, ele pinçou uma música de Arnaldo Antunes, “Estranheleza”, e uma de Arnaldo, Aguilar e Nuno Ramos, “Ma”, do repertório da Performática (me parece um pouco com o banho de estúdio mudernex que Caetano tentou dar em Velô, dois anos depois).

Não vou reclamar das produções dos anos 1980 (ainda que no caso Belchior tenha antecipado um pouco a tendência), já que a MPB como um todo sofreu muito com isso. Mas, quando assisto ao vídeo de 1974, fico imaginando como, por conta de uma certa vaidade, Belchior se entregava ao jogo mundano – ao mesmo tempo em que tematizava e criticava nas letras. O fato é que, com o boom do rock nacional, Belchior passou a ser visto como um artista meio brega (pecha que pegou em outro cara de inicios experimentais, Gonzaguinha), uma repulsa que só se reverteria com o apreço de Los Hermanos pela música brasileira, na virada para o novo século. Eles tocavam “A Palo Seco”. Houve também uma redescoberta de artistas sessentistas e setentistas, de Mutantes a Jorge Ben, de Novos Baianos a Tim Maia, mas essa só chegaria a realmente Belchior por via do escândalo.

É possível que, ao encontrar Edna Assunção de Araújo, ou Prometheu, já beirando os 60 anos, Belchior tenha sentido o impacto da inevitável decadência. O encontro se deu no atelier de seu amigo, o pintor Aldemir Martins. Ele mesmo um homem nordestino, que abandonou uma família para constituir outra, e abandonou essa segunda, por um tempo, por uma namorada, já na maturidade . Em 2006, Belchior encontrou um Aldemir já alquebrado, que morreria no ano seguinte. E encontrou Edna, com 15 anos menos, que não foi mais um casinho da “idade do lobo”.

É interessante que as convicções sociais de esquerda dela, e seu sobrenome artístico, Prometheu (do arquétipo do martírio do justo), podiam mesmo apontar para um fim das frivolidades. Mesmo que se essa escapada se parecesse inicialmente com uma frivolidade. É preciso entender que Belchior, um ex-seminarista, um hippie e intelectual refinado, e um dândi, era no fundo um nordestino às antigas. Na foto o vemos (à direita) com sua família de 23 irmãos (!), em Sobral, 1966, ainda vestido de seminarista franciscano (último ano antes de sair do seminário para seguir medicina).

Como neurótico que sou, entendo que ele tenha dito ao seu empresário, quando mandou parar de marcar shows, em 2006, que precisava de tempo para pintar, e para traduzir os 14.230 da Divina Comédia, de Dante. E não dizer que ia descansar, ou algo assim prosaico. Na verdade tudo indica que ele precisava era marcar um encontro consigo mesmo. As dificuldades e os inimigos imaginários que surgiram no caminho provavelmente estavam apenas retardando esse encontro.

Como um Bartleby (o escrivão personagem de Melville), ele disse o seu “Prefiro não” (“I prefer not to”). Nada que uma faísca de vontade não resolvesse – mas a vontade estava toda investida em não fazer. Dizem os relatos que, conforme se aproximava da morte, Belchior se apaziguava, alcançava a antiga tranquilidade afável. Ele tem uma música de 1980, o compacto do álbum Objetivo Direto, “Ypê” (e que aliás tem uma produção bem mais sóbria que o resto do disco), que diz:

“Contemplo o rio, que corre parado
e a dançarina de pedra que evolui,
completamente sem metas, sentado.
não tenho sido e eu sou não serei nem fui.
A mente quer ser, mas querendo erra;
pois só sem desejos é que se vive o agora.
vêde o pé de ypê, apenas mente flore,
revolucionariamente
apenso ao pé da serra”

Mais do que imagens de versos que cortam como facas, de alucinações que consistem em suportar o dia-a-dia, do sinal fechado pra nós porque eles venceram, do depender do violão da Elis para gravar (em meados da década de 70 ele estava morando de favor, sem um instrumento), eu o fico imaginando nesse exercício de parar a vida. Como parado corre o rio da letra zen. Nem voluntarioso, nem exausto, nem responsável ou irresponsável por nada, ainda que essas diferentes facetas apareçam se olhando de um lado e de outro. Apenas sendo revolucionário como o ipê.

*Elis já havia gravado em 1972 uma sua parceria com Fagner, “Mucuripe”, que em 1975 seria também gravada por Roberto

Imagem de abertura por Ababelado Mundo. Escrito com insights de Bráulio Tavares e Ludmila Hashi

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