Da reunião de 22 de abril ao desacato na Barra da Tijuca: ninguém é cidadão?

·5 minuto de leitura
Fiscal alvo da hostilização é doutor em Ciências Veterinárias na área de Sanidade Animal pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (Foto: Reprodução/TV Globo)
Fiscal alvo da hostilização é doutor em Ciências Veterinárias na área de Sanidade Animal pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (Foto: Reprodução/TV Globo)

O estado do Rio de Janeiro já tinha perto de 120 mil pessoas contaminadas e 10 mil mortos por coronavírus, só nas contas oficiais, quando o prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) liberou a reabertura de bares, restaurantes e academias da capital fluminense na última quinta-feira (2).

Não era ele quem daria a cara a tapa para fiscalizar normas de segurança como a ocupação de 50% das mesas, a distância de dois metros entre elas, a proibição de self-service e, claro, o uso adequado de máscaras. Eram os funcionários da prefeitura, mandados para o front como quem atravessa uma área bombardeada.

Vinte e quatro horas depois, as imagens das aglomerações irregulares correram o mundo. O Brasil passava de 60 mil mortos na pandemia.

E nos siga no Google News:

Yahoo Notícias | Yahoo Finanças | Yahoo Esportes | Yahoo Vida e Estilo

Na fatídica reunião de 22 de abril, Jair Bolsonaro afirmou que queria mandar um recado contra esses “bostas” de prefeitos que criavam normas para manter a população em casa. O recado veio em forma de um decreto que ampliou o acesso a armas e munição. “Um bosta de um prefeito faz um bosta de um decreto, algema, e deixa todo mundo dentro de casa. Se (o povo) tivesse armado, ia pra rua.”

Bolsonaro acenou para seus eleitores, mirou nos prefeitos e governadores, de quem boicotou todos os esforços para evitar a disseminação da doença pelo isolamento, e acertou no guarda e no fiscal da esquina.

O casal que hostilizou o médico-veterinário Flávio Graça, superintendente de Educação e Projeto de Vigilância Sanitária que fazia ações de conscientização nos bares da Barra da Tijuca, não estava armado, mas devidamente municiado pelo espírito da reunião de 22 de abril. Sobrou para o fiscal e também para a equipe da TV Globo que gravava uma reportagem no local.

Empoderado pelo discurso do presidente, e investido de uma falsa autoridade que não reconhece lei, o casal lançou mão da velha carteirada para colocar os profissionais da saúde e da imprensa, dois arquétipos diariamente atacados física e simbolicamente pelos apoiadores do presidente, em “seu lugar”. Esse lugar, por esse raciocínio, é a subserviência calada dos pequenos espaços de poder, ali medidos pelo flagrante das câmeras de calibres desiguais.

Leia também

“Cidadão, não. Engenheiro. Formado. Melhor que você”, disse a companheira do sujeito que tentava registrar a cena como flagrante de um direito açoitado. Ali o direito do consumidor, do eu pago/eu posso, eu quero/eu faço falava mais alto.

Era uma imitação barata do modus operandi das classes dominantes -- às quais nem um nem outro pertencia. Fora daquela câmera e da autoridade insuflada, ambos estavam no corre, inclusive com auxílio da renda emergencial.

Não eram “a elite brasileira” como alguns quiseram crer.

Eram reflexo dela.

Reflexo do dono do casarão de condomínio de luxo em Barueri que humilha o policial quando denunciado por agredir a companheira, da primeira-dama que acha que as pessoas “gostam” de ficar na rua porque é um atrativo, da dona da casa grande que despacha o filho da empregada para a morte e diz ter feito “tudo o que podia” por ele. Tudo isso reverbera também na ação do sujeito que faz buzinaço na frente de hospitais porque seu negócio não pode parar por uma gripezinha, do ativista que enfia o dedo na cara de enfermeira e estoura rojões na frente do STF -- como se dentro dos hospitais houvesse uma cena teatral para destroçar o direito de ir e vir, e não “só” a maior crise sanitária do século.

“Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor”, lembra?

Esse sonho é um palito de dente erguido na ruína de uma ideia de cidadania -- daí o rechaço em ser chamado de “cidadão” ou imaginar que currículo confere ao seu detentor o posto de autoridade com selo de distinção.

Se não fosse, ninguém mentiria tanto no currículo para galgar postos que não alcançariam num país onde acesso e oportunidade são conceitos massacrados pela lenda da meritocracia -- aquela que sobe na vida, recolhe a escala e compra a própria lei humilhando quem deveria fazê-la ser cumprida e ainda exige ser chamado de “doutor”.

Num sintoma de uma sociedade que lacra demais e pensa de menos, o casal destituído da consciência de que está no mesmo barco do guarda e do fiscal, um peão com eles, foi facilmente triturado pelo sistema que pensa ocupar o topo. Pois esse moedor de carne mostrou os dentes através da empresa que demitiu a mulher para não sujar sua imagem. Aqui, o dilema entre ser e parecer, pensar e vocalizar, fazer e produzir provas contra si valeria um parêntesis que não terminaria tão cedo.

Esse dilema não é novo, ou pareceriam proféticos, e não registros históricos, os versões de Gil e Caetano na música “Haiti” sobre um país atraído, deslumbrado e estimulado pela grandeza épica de um povo em formação para o qual não importa nada, nem o traço do sobrado nem a lente do “Fantástico”: ali ninguém, ninguém é cidadão.

Nada disso nasceu agora, mas essa cidadania torturada nunca foi tão bem vocalizada pela autoridade máxima do país que num dia defende tiros contra prefeitos e governadores, no outro provoca aglomerações e se diz imune ao resfriadinho, no outro se nega ou desobriga seus cidadãos a usarem máscaras, no outro celebra 65 mil mortos numa confraternização sem proteção ou distanciamento com os parças da embaixada americana e no outro revela sintomas da doença cujos efeitos negou até então.

Houve quem, diante da ironia, corresse para as redes para fazer piada do que é só tragédia, do começo ao fim. Nada que cause espanto a essa altura das fraturas expostas. Este é só mais um sintoma de um país que, como diz outra música, aprendeu a rir quando deve chorar e não vive, apenas aguenta.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos