Cidade da Alemanha que passou de superpróspera a carente expõe conflitos da eleição

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GELSENKIRCHEN (ALEMANHA (FOLHAPRESS) - "Esta eleição é uma queda de braço entre o futuro e o presente; a questão é saber se os alemães estão dispostos a pagar o preço de salvar o ambiente", afirma a arquiteta Eva Meier, 52, em frente a um patrimônio da Unesco, a mina de carvão de Zollverein.

O complexo, que surgiu no vale do rio Ruhr, no oeste alemão, com a revolução industrial, remete a um passado de pujança industrial movida a carvão mineral. Extraído de poços com mais de mil metros de profundidade, ele transformou a região numa das mais prósperas da Europa no pós-Segunda Guerra.

Zollverein fechou em 1986, mas seus prédios projetados nos anos 1920 por arquitetos da escola Bauhaus viraram polo de atração. Foi para ver "a mais bela mina do Ruhr" que Eva, moradora de Berlim, percorreu 432 km para o oeste até chegar a Gelsenkirchen.

Embora seja a arquitetura o motivo da viagem, quando o assunto é a eleição deste domingo (26) ela expressa preocupação semelhante à da maioria dos alemães: 81% deles veem uma necessidade muito grande ou grande de ação na proteção do clima, segundo a pesquisa ARD-DeutschlandTrend, de julho.

A tendência aparece em todas as idades e ultrapassa afinidades partidárias. Apenas entre os eleitores da ultradireitista AfD a necessidade de ação não foi citada como, no mínimo, grande. No Politbarômetro, levantamento do Forschungsgruppe Wahlen que pergunta semanalmente quais são os problemas importantes da Alemanha, clima foi citado na semana passada por 47%, na dianteira das preocupações.

Evitar mudanças climáticas, porém, passa por reduzir emissões de gás carbônico, e isso atinge em cheio a economia e a sociedade alemã -é o que explica em parte por que, se tantos alemães veem o ambiente como prioridade, os Verdes são apenas o terceiro colocado nas intenções de voto, com 16%.

Uma parte do custo da transição energética pode ser antevisto nas ruas de Gelsenkirchen, que chegou a ter 400 mil habitantes em suas décadas mais prósperas, atraindo trabalhadores de outras partes do país e do mundo. Nos anos 1960, quando o gás das minas queimava e chaminés de siderúrgicas eram símbolos da liderança na produção de carvão na Europa, Gelsenkirchen era chamada de "cidade dos mil fogos".

A partir dos anos 1980, o aumento da produção de petróleo e novos competidores pressionaram os setores de carvão, ferro e aço da região.

No final do século 20, veio a sentença final: a Alemanha liderou medidas de proteção ao clima, planejando uma transição para energia limpa que passava pelo fechamento da extração do minério.

Em Gelsenkirchen, a última das mil chamas se apagou em 28 de abril de 2000. A data é lembrada numa placa de metal, soldada num carrinho de carvão nos arredores da última resistente, a mina Ewald-Hugo.

O emprego geral na mineração e na siderurgia na região foi reduzido a cerca de um décimo do que era nos anos 1960. E, embora o processo tenha tentado evitar danos sociais, com aposentadorias precoces para os mais velhos e retreinamento para os mais novos, a cidade perdeu mais de 30% de sua população.

A taxa de desemprego do município explodiu, atingindo o topo do ranking no país, 15% em 2019, cerca do triplo da média alemã, e a renda per capita das famílias se tornou a mais baixa da Alemanha, EUR 16.203 (R$ 101 mil por ano), metade da das cidades mais ricas, segundo o departamento de estatística federal.

Houve tentativas de reinventar Gelsenkirchen como um polo de energia limpa. A 500 metros da estação ferroviária central, por exemplo, uma antiga siderúrgica deu lugar ao Parque Científico, onde se instalaram cerca de 60 empresas e institutos de pesquisa. A Shell Solar Deutschland produz células fotovoltaicas, e a cidade tem a maior usina solar da Alemanha. A Scheuten Solar Technology fabrica painéis solares.

"Novas vagas não resolvem sozinhas o problema do desemprego, porque o trabalhador da indústria pesada não se transforma automaticamente em prestador de serviço de tecnologia", diz o desenvolvedor Andreas Laumann, enquanto toma um café no parque que ocupa hoje a área da antiga siderúrgica.

A lacuna é maior porque muitos jovens partiram, diz o cineasta Geremia Carrara, que na última quarta (22) apresentou "Deep in the West - Uma Viagem pela Região do Ruhr", feito a partir de filmagens domésticas de moradores dos anos 1950 aos 1970. "Grande parte da população continua presa a esse passado de pujança industrial, que marcou a cidade e sua identidade coletiva", afirma ele.

No debate depois da sessão, enquanto os mais novos questionavam a falta do ponto de vista de operários --que não tinham câmeras nos anos 1960- e das mulheres, os mais velhos enumeravam os locais que haviam reconhecido e elogiavam a solidariedade entre mineiros e metalúrgicos.

Esse espírito de classe fez de Gelsenkirchen um bastião dos sociais-democratas, o partido do candidato Olaf Scholz, que lidera numericamente as pesquisas para o pleito deste domingo, em empate técnico com Amir Laschet, da União (25% a 22%).

Como os institutos fazem pesquisas por amostragens no país todo, não é possível detalhar as chances de cada partido em um único distrito, mas nas ruas da cidade o número de cartazes de Scholz é muito superior ao de seus concorrentes, numa proporção de 5 para 1.

Na última eleição federal, o distrito 123, que corresponde à cidade, registrou a quinta maior fatia de votos dados ao SPD: 33,3%, na lista que determina o número de deputados de cada partido.

O candidato distrital da sigla, Töns Markus, recebeu 38,3% dos votos, 13 pontos percentuais acima da União (CDU-CSU), partido da primeira-ministra Angela Merkel. Os Verdes ficaram com apenas 5%, cerca da metade da média nacional naquele pleito.

No caso de Gelsenkirchen, a discussão sobre "o custo do futuro" ganha um outro prisma, o da rede de proteção social, também uma política defendida pelo SPD. O partido centrou sua campanha no aumento de 32% do salário mínimo, para 12 euros por hora (R$ 75).

Scholz também defende a volta de um imposto sobre o patrimônio, o investimento estatal na construção de casas, a reformulação do seguro-desemprego e o aumento do salário de profissionais de saúde.

Potencial beneficiária dessa política, a cuidadora Nadia Jabor, 22, vê na política alemã um outro conflito entre futuro e presente, que passa pelo bem-estar econômico. "Os mais velhos ainda valorizam um estilo de vida do século passado, em que ter carro, uma casa espaçosa e viajar de avião são importantes", diz a neta de imigrantes turcos, que vota nos Verdes.

É entre os jovens que os ambientalistas encontram apoio mais forte, mas a demografia joga contra eles: eleitores com menos de 30 anos são apenas 14,4% do eleitorado, contra quase 58% com mais de 50 anos.

Veja diferenças entre os programas dos principais candidatos Em 1 minuto (como eles se apresentaram nos debates)

Olaf Scholz, do Partido Social-Democrata (SPD), integra a ala mais centrista do partido de centro-esquerda. Prometeu salário mínimo mais alto e aposentadorias seguras e estáveis. Quer aumentar a "solidariedade" e o "respeito" no país e se apresentou como o sucessor natural de Merkel, de quem é vice-primeiro-ministro, embora de partido rival.

Armin Laschet, da União Democrata Cristã (CDU), apoia as políticas conservadoras do partido de centro-direita. Retratou seu partido como uma âncora de estabilidade e confiabilidade durante tempos incertos e difíceis. Prometeu reduzir a burocracia e defender as liberdades individuais dos cidadãos: "Não vou lhe dizer como você deve pensar ou como você deve viver".

Annalena Baerbock, dos Verdes, faz parte da corrente mais pragmática e menos dogmática do partido ambientalista. Prometeu pôr fim aos "anos de paralisação". Apresentou-se como a candidata da "mudança real" e da transição verde socioecológica, enquanto os outros são "mais do mesmo".

MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Scholz afirma que a proteção climática só pode ter sucesso se for impulsionada pela inovação e que a indústria deve fazer parte da solução. Defende mais regulamentação e investimento em rede elétrica de alto desempenho e aumento de geração de eletricidade limpa. Defende cortar as emissões de CO2 em 65% até 2030, 88% até 2040 e 100% até 2045 e diz que a eletricidade deve vir de fontes renováveis até 2040.

Laschet também defende cortar as emissões de CO2 em 65% até 2030, 88% até 2040 e 100% até 2045. É contra a proibição dos carros a diesel e a implementação de limites de velocidade nas rodovias, como querem os adversários. Diz que elevará incentivos de mercado para que a indústria acelere a transição verde, com dedução no imposto de investimentos em eficiência energética. Afirmou que vai priorizar o hidrogênio como fonte renovável.

Annalena quer cortar as emissões em 70% até 2030 e usar apenas fontes de energia renováveis até 2035. Quer que as metas do Acordo de Paris sejam incluídas na Constituição e que todas as leis sejam revistas para ficarem compatíveis com as metas ambientais. Defende a eliminação progressiva do carvão até 2030, em vez do atualmente obrigatório 2038, e a proibição da venda de carros movidos a combustíveis poluentes até 2030. Afirmou que os Verdes não querem proibir voos, como dizem seus rivais, mas defendem a expansão da rede ferroviária para que se transforme em alternativa factível à aviação.

Annalena é a única candidata que não se opõe, em princípio, à vacinação obrigatória de certas categorias.

Economia

Laschet é o mais liberal e pró-negócios dos três. A proteção à indústria foi carro-chefe de seu governo estadual e, no debate do final de agosto, apresentou-se claramente como candidato das empresas. É a favor da eliminação total da sobretaxa de solidariedade –que financia investimentos na Alemanha Oriental– e de redução dos impostos sobre empresas.

Scholz priorizou a rede de proteção social: defende salário mínimo de 12 euros por hora, habitação mais acessível e pensões estáveis.

Annalena focou o combate à pobreza, considerando inaceitável que 1 em cada 5 crianças alemãs vivam hoje nessa condição. Defende que haja uma renda de segurança para pais pobres com filhos pequenos.

Impostos

Scholz é contra o corte de impostos para empresas no atual quadro de endividamento alemão e defende mais equilíbrio na cobrança, aumentando em três pontos percentuais a alíquota sobre rendas maiores: "Quem está na minha faixa de renda [200 mil euros por ano] ou acima deveria pagar um pouco mais".

Laschet manteve seu mantra de que os aumentos de impostos são o "caminho errado" e podem sufocar uma economia que ainda está se recuperando da pandemia. Diz que sua abordagem sobre impostos é a "diferença fundamental" entre ele e os outros candidatos.

Annalena diz que sua prioridade é lutar contra a evasão fiscal e aliviar parte do fardo daqueles que não ganham muito dinheiro. Para tal, propõe aumentar o imposto sobre rendas anuais acima de 100 mil euros.

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CHINA

Laschet tem priorizado as exportações industriais alemãs nas relações com o país asiático e disse que não há nada a mudar em relação à política atual de Angela Merkel.

Annalena é a candidata mais dura em relação à China. Quer que a UE imponha barreiras mais duras às importações chinesas para evitar guerra de preços e desrespeito a padrões ambientais. Pediu mais apoio do estado em áreas como licitações públicas para campeões industriais europeus ou consórcios que fornecem tecnologias essenciais, para reduzir a dependência de fornecedores chineses.

UNIÃO EUROPEIA

Com exceção da ultradireitista AfD, os principais partidos defendem a União Europeia, o euro e a Otan (aliança militar entre Europa e norte-americanos);

Scholz e Laschet defendem o fortalecimento da Europa como ator global, num cenário de retirada do apoio dos EUA.

AFEGANISTÃO E REFUGIADOS

Laschet disse que deveria ser evitada "uma situação como a de 2015" e adota a posição dos conservadores, de aumentar a deportação de imigrantes irregulares.

Os Verdes defendem a ampliação do programa de refúgio alemão.

Os três candidatos disseram que a retirada dos EUA no Afeganistão mostra a necessidade de fortalecer a política de segurança alemã e o papel do país na segurança europeia.

SEGURANÇA

Laschet pretende criar um novo Conselho de Segurança Nacional, aumentar a penalidade mínima para agressões a trabalhadores de emergência e instalar mil novas câmeras por ano em estações de trem.

Scholz disse que a videovigilância é uma possibilidade que já está sendo usada e que ele defende.

Annalena critica a ênfase em videovigilância e defende equipar mais a polícia e manter abertas as delegacias em zonas rurais.

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