Cidade francesa de Calais, chocada por naufrágio de migrantes

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Membros de associações de apoio aos migrantes se reúnem perto de um cartaz com o número de mortos e desaparecidos na Place Richelieu, em Calais, 25 de novembro de 2021 (AFP/FRANCOIS LO PRESTI)

A cidade de Calais, no norte da França, amanheceu abalada nesta quinta-feira (25), no dia seguinte à morte de 27 migrantes em um naufrágio em frente à sua costa, um evento "dramático" que "não acabará nunca".

A tragédia é a mais mortal desde a aceleração das travessias pelo Canal da Mancha em embarcações improvisadas a partir de 2018, devido ao controle mais estrito do porto francês de Calais e do túnel ferroviário submarino, usados até então por migrantes que tentavam chegar à Inglaterra.

Entre as vítimas estão 17 homens, 7 mulheres e 3 jovens, bem como dois sobreviventes, segundo uma fonte judicial francesa. Um adolescente e três crianças estão entre as vítimas, informou uma fonte policial.

"Sinto pena por estas pessoas, é terrível", disse Christian, muito emocionado, no porto de Calais. Ele foi levar o cachorro para passear perto do porto.

Atrás dele, os ferries continuavam seu ritmo matinal, alheios à tragédia ocorrida nas mesmas águas na noite de quarta-feira.

Há anos Christian assiste na primeira fila ao drama dos exilados que chegam a esta cidade na esperança de cruzar para a Inglaterra.

"Aqui cada um tem sua opinião sobre esta crise migratória. Mas diante deste drama... É terrível, impensável", acrescentou o aposentado.

"Infelizmente", esta "catástrofe" ia "acontecer" e "voltará a acontecer", pois os migrantes estão "mais do que determinados", continuou.

Prova disso é que apesar do drama da quarta-feira, 70 exilados tentaram cruzar novamente durante a noite em Calais. E foram encontrados congelados pelo frio na estação ferroviária e depois abrigados em caráter de urgência em um local protegido.

Um deles, Armed, estava a par do drama. Mas este sudanês de 30 anos tentou a sorte de qualquer jeito.

"É terrível, mas vou tentar de novo quantas vezes for necessário. Não tenho outra opção. Sei que é perigoso. Sei que arrisco a minha vida, mas não tenho outra opção", reiterou.

"Enquanto os migrantes continuarem pensando que na Inglaterra terão uma vida melhor, estes dramas vão continuar acontecendo", disse Anaïs, de 26 anos.

- "Indesejáveis" -

"Mas o que a Inglaterra faz?", perguntou indignado, um pouco mais longe, Sylvestre Huygens. "Por causa dos acordos de Touquet, a fronteira é aqui e os ingleses não fazem nada! É terrível, se joga com a vida das pessoas", disse, alarmado, este empresário de 55 anos.

Era de se esperar, avaliou, assim como muitos outros, que este drama acontecesse. Ele espera que se apliquem as "condenações mais fortes" para os traficantes de seres humanos apontados por autoridades francesas e britânicas.

"Trata-se de deixar a responsabilidade ao outro, quando a maior responsabilidade pelo ocorrido provém das políticas aplicadas!", afirmou Philippe Demeestère, capelão do Resgate Católico e que em outubro passou 25 dias sem comer para pedir um tratamento mais humano aos migrantes.

"As pessoas exiladas arriscam tudo, já que em território francês dizem que são indesejáveis!", denunciou o sacerdote.

Desde a noite de quarta-feira, cerca de 50 pessoas se reuniram com velas nas mãos, emocionadas e irritadas.

"Calais, tratamentos desumanos e degradantes", "Calais, direitos humanos ultrajados, rompidos, martirizados", diziam alguns cartazes. E os manifestantes repetiam palavras de ordem contra o ministro do Interior francês: "Darmanin, asassino, você tem sangue nas mãos".

A prefeita de Calais, a direitista Natacha Bouchart, criticou o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, pela falta de "coragem", pois "obriga" os moradores de Calais a "sofrer com este tráfico de seres humanos".

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