Cidade mais perto de SP sem Covid-19 contrata seguranças e desencoraja turistas

MARCELO TOLEDO

RIBEIRÃO PRETO, SP (FOLHAPRESS) - Embora pequena, o fluxo de veículos que passa por ela é grande, já que é rota para motoristas que se dirigem para o sul de Minas Gerais ou para cidades como Campos do Jordão. Não bastasse, aos finais de semana tradicionalmente recebia grupos de até 70 motociclistas, além de ciclistas, em busca de seus atrativos turísticos.

Apesar disso, Monteiro Lobato (a 129 km de SP) passou até aqui incólume à pandemia do novo coronavírus é a cidade mais próxima da capital a não registrar, até esta quarta-feira (13), casos confirmados ou mesmos suspeitos da Covid-19.

A cidadezinha de pouco menos de 5.000 habitantes era distrito de São José dos Campos até 1948, quando se emancipou, ganhando o nome atual no ano seguinte, em homenagem ao escritor, que viveu na Fazenda do Buquira.

A propriedade rural mudou de nome e passou a se chamar Fazenda do Visconde e, depois, Sítio do Pica-pau Amarelo, um dos principais atrativos do município, que se transformou numa espécie de ilha, cercada por municípios paulistas com casos da doença.

São José dos Campos tem 407 casos, com 18 mortes, segundo a Secretaria de Estado da Saúde, seguida por Taubaté (51), Caçapava (15), Santo Antônio do Pinhal (4) e Tremembé (1). O estado de São Paulo tem 54.286 casos, com 4.315 óbitos, em 433 dos 645 municípios.

Como isso foi feito? Entre outras medidas, a prefeitura contratou seguranças para dispersar as pessoas --entre elas os turistas-- que tradicionalmente ocupam as duas principais praças da cidade e informalmente adotou um slogan para os visitantes: "Não venham agora".

A prefeitura da cidade turística restringiu também o comércio, que funcionava até 22h em alguns locais, e passou a exigir máscaras.

As medidas foram tomadas, segundo a Secretaria da Saúde, também para evitar que casos graves sejam registrados e os pacientes precisem ser transferidos para São José dos Campos.

A secretária de Saúde local, Cláudia Mara Darrigo, diz que lhe "tira o sono" pensar em transferência. "Muitos criticam as medidas, dizem que é exagero já que não há casos, mas pedimos a Deus que nunca aconteça à família de ninguém. Continuamos fazendo o isolamento, nada foi flexibilizado."

Monteiro Lobato não tem leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) nem respirador em sua única unidade básica de saúde, que atende apenas casos de baixa complexidade.

DISPERSÃO

Os seguranças foram contratados como forma de conscientizar as pessoas e evitar aglomeração nas esquinas, segundo a secretária.

A cidade tem acesso rodoviário a São Francisco Xavier, distrito de São José dos Campos, ao sul de Minas Gerais e a cidades como Campos do Jordão e Santo Antônio do Pinhal.

Boa parte dos motoristas que vão para esses locais passam pela área urbana de Monteiro Lobato.

os finais de semana, a cidade tinha muito fluxo de turistas nas praças, o que também não ocorre mais. Comércio que ficava aberto até mais tarde e pode seguir em funcionamento agora fecha às 18h durante a semana e às 13h aos sábados.

O município também está fechando aos finais de semana os estacionamentos, o que significa que as pessoas não têm onde parar para tomar café. "Como somos um corredor [de veículos], sabemos que não dá para fechar totalmente, mas conseguimos diminuir a questão de motociclistas, grupos de até 70 pessoas, que paravam na praça", disse.

Os seguranças utilizam duas motos e três carros e são acionados também para atender denúncias como jogos de futebol irregulares ou para orientar o fluxo de pessoas em supermercados --atividades essenciais estão permitidas.

Segundo dois comerciantes da cidade ouvidos pela reportagem, a maior preocupação é com os moradores de outras cidades que passam por ela e também com quem precisa se deslocar a São José dos Campos.

SEM RESPIRADOR

A prefeitura informou que tentou comprar um respirador, mas não conseguiu encontrar o equipamento no mercado, em meio à busca generalizada.

"Nossa preocupação é que nós somos uma unidade básica de saúde, temos como fazer só os primeiros atendimentos, não há alta complexidade. Por isso, temos de nos proteger, ficando em casa."

Até aqui, todas as pessoas com síndromes gripais testadas --e cujos resultados já saíram-- tiveram resultado negativo para Covid-19.