Cidade no Amazonas foi ‘palco’ para uso de remédio não autorizado contra a Covid-19

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Fevereiro começou de forma terrível nos hospitais do Amazonas. O estado mal havia acabado de superar a crise do oxigênio e já enfrentava novo pico da pandemia. As mortes tinham aumentado 7 vezes em janeiro e continuavam a crescer. No Hospital Regional de Itacoatiara, a 270km de Manaus, faltavam equipamentos de ventilação não invasiva. Até que se anunciou a chegada de um remédio “revolucionário”, capaz de reduzir as mortes no hospital em 3 ou 4 dias: a Proxalutamida.

Foi o que prometeu o presidente da rede privada de saúde Samel, Luís Alberto Nicolau, em entrevista transmitida pelo YouTube da porta do hospital. “Trouxemos a medicação para ser utilizada em todos os pacientes”, disse Nicolau, irmão de um deputado estadual do PSD e pré-candidato ao governo do estado chamado Ricardo Nicolau. E explicou que os resultados dos estudos com a proxalutamida ainda não haviam sido publicados — ou seja, não tinham sido validados por ninguém além deles próprios: “Nós não queremos esperar. Queremos colher os benefícios agora, porque estamos aqui com 106 pacientes internados e esses pacientes não irão esperar 30, 60, 90 dias”.

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O médico Michael Correia Nascimento, do corpo clínico do hospital, oferecia a oportunidade de participar de um novo estudo com o medicamento milagroso, que logo ficou conhecido como “remédio da Samel”.

Uma das pacientes era a aposentada Zenite Gonzaga da Mota, internada “andando e se sentindo bem, só para fazer exames”, de acordo com a sobrinha Alessandra Saar. Ela vinha sendo tratada com antibióticos, dipirona e oxigenação, e se sentia bem, mas, como outro doente com sintomas leves foi liberado 5 dias após tomar o “remédio da Samel”, a filha concordou em assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para incluí-la no estudo. A promessa era curar Zenite também em 5 dias. Não foi o que aconteceu.

Os parentes não receberam uma via e não sabiam que o termo de consentimento não trazia informações obrigatórias. Não dizia que parte dos voluntários receberia placebo, nem descrevia riscos e benefícios. O EXTRA só conseguiu acesso a uma cópia do documento porque ele consta em um inquérito aberto pelo Ministério Público Federal. Há ainda um inquérito criminal.

Familiares estranharam ao ver que quem tinha que administrar o remédio não eram os pesquisadores, mas eles mesmos. A inalação da cloroquina era feita em paralelo.

— A gente não sabia que era cloroquina que minha tia inalava três vezes ao dia.

O tratamento não estava adiantando. A aposentada começou a ter falta de ar, e, segundo a sobrinha, ficou com braço roxo, bolhas subcutâneas e arritmias.

— Mesmo assim não pararam com as medicações — diz Alessandra. — Foi um extermínio. Presenciei, todos os dias via pessoas morrendo ao lado (da minha tia), estavam bem e de repente pioravam.

Zenite teve duas paradas cardíacas. Acompanhantes insistiram para transferi-la para Manaus, e Michael não permitiu.

— A gente percebia que estavam segurando os pacientes em Itacoatiara por causa do estudo.

Só depois de 34 dias de internação, o médico autorizou a remoção. Era tarde demais: Zenite morreu em 13 de março, três dias depois de dar entrada no Hospital Delphina Aziz, na capital amazonense. A família só descobriu Zenite aspirava cloroquina depois de requisitar o prontuário. Foi aí que a filha denunciou o caso à polícia Civil. O inquérito que apura só a nebulização de cloroquina até hoje não foi concluído.

Estudo sem aval do Conep

Outra coisa que ninguém em Itacoatiara sabia era que o estudo também não tinha autorização da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep). O endocrinologista Flavio Cadegiani, que liderou a pesquisa, havia protocolado um pedido de autorização para o ensaio, mas para ser feito em Brasília.

Só no fim de abril, os pesquisadores fizeram novo pedido para estender a pesquisa a cidades no Amazonas, onde já havia até acontecido: Manaus, Itacoatiara, Parintins, Maués, Manicoré, Coari e Manacaparu. Num grupo de WhatsApp chamado Entre Médicos, Michael Nascimento relatou que “Itacoatiara foi o palco da proxa (a proxalutamida)”. Nas mensagens do grupo a que o EXTRA teve acesso, ele diz que “recrutou 80 dos 120 para o estudo PROXA”.

A Conep negou autorização para estender o ensaio clínico ao Amazonas, pois a emenda não poderia ter sido realizada após o início do estudo. Àquela altura, ele já estava sob suspeita. Os pesquisadores haviam anunciado em uma live resultados supostamente fantásticos, com eficácia de 92% em pacientes graves. Segundo eles, 141 haviam morrido no grupo placebo, enquanto só 12 no grupo que havia tomado o remédio. Posteriormente, informaram à Conep 178 mortes no total e, por fim, 200. À Procuradoria-Geral da República, a comissão afirmou que os quadros clínicos dos voluntários que morreram não foram relatados e nem suficientemente detalhados. Por isso, não seria possível “descartar a possibilidade de morte provocada por toxicidade medicamentosa ou por procedimentos da pesquisa”.

Procurado, o médico Michael Correia Nascimento não atendeu as ligações e ignorou mensagens enviadas. A rede Samel não respondeu aos questionamentos do EXTRA. O prefeito de Itacoatiara, Mário Abrahim, não retornou as ligações e a Secretaria de Saúde da cidade não quis atender.

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