Cidades do próspero Brasil do agronegócio dão força ao bolsonarismo

Canavial no Estado de São Paulo

Por Gabriel Stargardter

CATANDUVA, São Paulo (Reuters) - O pequeno município de Catanduva, no cinturão agrícola do Estado de São Paulo, tem estado à frente da tendência política no Brasil.

Em 1996, a cidade elegeu o político de esquerda Félix Sahão como seu primeiro prefeito do PT, seis anos antes de Luiz Inácio Lula da Silva se tornar presidente do Brasil, estabelecendo quase 14 anos de governo petista.

Mas o governo de Sahão foi marcado por escândalos financeiros, prenunciando a vasta investigação de corrupção que prendeu Lula, abalou a reputação do PT e abriu caminho para a política militarizada do presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro (PL).

Os moradores de Catanduva, beneficiados pela forte demanda chinesa por commodities brasileiras, agora estão totalmente a favor de Bolsonaro. Eles são atraídos por sua mistura única de conservadorismo social, fervor evangélico e Estado mínimo, semeado nos solos férteis de um agronegócio em expansão e regado de ódio ao PT "comunista".

Assim, mesmo que o presidente perca para Lula no segundo turno das eleições deste domingo, conforme apontam as pesquisas, o ronco dos tratores e as carteiras abarrotadas de cidades prósperas e conservadoras como Catanduva sugerem que o bolsonarismo veio para ficar.

A maior parte da campanha de Bolsonaro tem sido financiada por líderes do agronegócio e no primeiro turno o candidato conquistou o maior número de votos em seis dos sete Estados agrícolas que mais produzem no Brasil. Em Catanduva, cercada por canaviais, pomares de citros e pastagens de gado, o presidente obteve mais de 62% dos votos, mais do que o dobro de Lula.

"Hoje, Catanduva reflete uma situação que está ocorrendo em todo o Brasil", disse o prefeito da cidade, padre Osvaldo Oliveira, sacerdote católico do PSDB, que também apoia Bolsonaro e seu candidato Tarcísio Freitas (Republicanos), que lidera a corrida pelo governo do Estado de São Paulo.

Oliveira disse que os gastos sociais mais generosos e as políticas econômicas estatais do PT já foram úteis, mas não mudaram em 30 anos, enquanto a "proposta atualizada" de Bolsonaro oferece uma chance de libertação: "Um resgate da autoestima dos brasileiros, do patriotismo, do civismo."

Desde que Sahão deixou o cargo em 2005, o PT passou quase duas décadas fora do poder na prefeitura de Catanduva. Nos últimos anos, o centro político, que tem predominado no comando da capita, alinhou-se a Bolsonaro.

"BOOM" AGRÍCOLA

O primeiro turno das eleições mostrou que as pesquisas subestimaram o apelo duradouro de Bolsonaro em Catanduva e em outros municípios alimentados pelo agronegócio, que tem se tornado o motor da economia do país.

O agronegócio contribuiu com 27,6% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil no ano passado, de acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo, o maior percentual desde 2003, e acima dos 20% em 2018, quando Bolsonaro foi eleito.

“Nossa região é movida pelo agronegócio”, disse o prefeito de Catanduva. "Com a indústria aquecendo, isso significa que a cidade está indo bem, a economia está se movendo."

As taxas de juros em mínimas recordes durante a primeira metade do mandato de Bolsonaro ajudaram os agricultores brasileiros a investir em capital, enquanto um real fraco e uma demanda global robusta tornaram as exportações de commodities altamente lucrativas.

O apoio de Bolsonaro aos direitos de propriedade e sua flexibilização das leis de armamento também atraem produtores rurais que associam o PT aos sem terra que invadem áreas improdutivas, disse Allim Bassitt, um produtor de cana e gado de 65 anos.

A primeira vereadora negra de Catanduva, Taise Braz, do PT, disse que os bolsonaristas mais ferrenhos podem ser encontrados entre a elite da cidade, formada por fazendeiros e empresários ricos. Embora seus números sejam relativamente pequenos, ela disse que seus pontos de vista têm uma influência descomunal em uma classe média que aspira tal posição.

O bolsonarismo é amplificado por meio de grupos cívicos respeitados como Lions International, o Rotary Club e os maçons, que têm se tornado pontos focais de apoio ao presidente, disse Beth Sahão, deputada estadual do PT e irmã do ex-prefeito.

As igrejas evangélicas da cidade desempenham uma função semelhante entre a classe trabalhadora, acrescentou ela, promovendo um conservadorismo empreendedor que o PT não tem conseguido combater.

"As pessoas pensam: 'Tenho um emprego porque conquistei, tenho minha casa própria porque trabalhei para isso'", disse Sahão. "Então elas começam a se afastar das políticas públicas, das políticas sociais."

MUDANÇAS EM TODOS OS LADOS

Os ataques de Bolsonaro contra o PT atingem com força particular Catanduva, onde poucos se esqueceram dos escândalos de desvio de verbas públicas da época do ex-prefeito Sahão.

Sahão disse que não fez nada de errado e que foi "perseguido pela promotoria. A cidade sabe disso".

O candidato para substituí-lo do PT ficou em último lugar na votação de 2004. Beth Sahão concorreu e perdeu nas quatro eleições para a prefeitura desde então, recebendo menos de 10% dos votos em sua primeira tentativa.

O abalo nacional do PT veio mais de uma década depois, quando uma investigação de corrupção revelou enormes esquemas de propina em contratos públicos, seguidos pela pior recessão econômica já registrada no Brasil e pelo impeachment da sucessora escolhida a dedo por Lula.

A Suprema Corte anulou as condenações que vinculavam a figura de Lula aos escândalos de corrupção, e seus talentos políticos têm ressuscitado sua carreira, mas muitos brasileiros ainda hesitam em perdoar os erros do PT.

Uma década atrás, o PT era um dos três partidos que mais governavam as cidades do Brasil. Agora não está nem entre os dez primeiros.

Mas esse não é o único partido tradicional assolado pelo bolsonarismo.

O PSDB, por muito tempo a força mais poderosa na política paulista, tem encontrado dificuldades em se manter relevante, já que Bolsonaro abalou fortemente a centro-direita e ofereceu uma oposição mais radical à esquerda. Em São Paulo, inúmeros deputados estaduais e prefeitos do PSDB, como o padre Oliveira, de Catanduva, se aliaram a Bolsonaro.

Após vencer todas as disputas governamentais no Estado desde 1994, o candidato do PSDB, atual governador Rodrigo Garcia, não conseguiu nem chegar ao segundo turno deste domingo.

Pesquisas mostram que Freitas, ex-ministro da infraestrutura de Bolsonaro, deve vencer o candidato do PT, somando-se à série de governadores que apoiam Bolsonaro, que inclui Romeu Zema, de Minas Gerais (Novo), e Claudio Castro (PL), no Rio de Janeiro.

Se Freitas for eleito, as três maiores economias estaduais do Brasil serão controladas por aliados de Bolsonaro.

Bassitt, o agricultor, disse que os valores conservadores de um Brasil rural e de cidade pequena são agora a força motriz da política nacional. Essas crenças "se encaixam muito bem com o bolsonarismo", disse ele. "Elas não combinam com Lula e o socialismo do PT."