Cidades vivem explosão de casos de coronavírus no Rio, e avanço desigual da doença traz desafios à reabertura do estado

Rafael Galdo
O Centro de Angra dos Reis visto a partir do mar: cidade é uma das mais afetadas pela Covid-19 no interior

RIO - Apesar do início da reabertura da capital e da expectativa de que o governador Wilson Witzel comece o relaxar as medidas restritivas até 15 de junho, alguns municípios do Rio vivem agora a explosão dos casos da Covid-19, e a pandemia avança de forma desigual pelo estado. De acordo com levantamento do GLOBO com base nos dados do Ministério da Saúde, entre 13 de maio e 3 de junho, as confirmações da doença cresceram mais que 500% em três das nove regiões de saúde em que o território fluminense é dividido. O número de infectados disparou, sobretudo, no Noroeste (aumento de 763%), no Norte (520%) e na Baía da Ilha Grande (516%), onde estão localizados centros importantes do interior, como Itaperuna, Campos dos Goytacazes e Angra dos Reis, respectivamente.

Em maior ou menor grau, a curva de casos se manteve ascendente nas nove regiões. Já as mortes, chegaram a 6.011 na última quarta-feira. No Norte fluminense, apenas na última semana da análise, elas passaram de 35 para 90, um incremento de 73%. É um quadro que, para especialistas, indica que o isolamento social no Rio deve ser mantido e qualquer afrouxamento precisará levar em conta as diferenças regionais, a exemplo do que ocorreu em estados como São Paulo.

— Cada cidade tem um período epidêmico diferente. No entanto, o que vemos são municípios do interior retomando as atividades econômicas pautados pelas capitais, onde a doença chegou primeiro. No Rio, havendo um aumento de casos nessas áreas, é provável que parte dos doentes impacte, inclusive, a rede de saúde da cidade do Rio — afirma o epidemiologista Diego Xavier, do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde (Icict/Fiocruz) e um dos responsáveis pela ferramenta on-line MonitoraCovid-19.

Diego Xavier defende que é prematuro promover a reabertura, mesmo gradual, neste momento:

— No Brasil, considerando o exemplo da Itália, só poderíamos começar a falar em reabertura a partir da segunda quinzena de junho. Esse processo deveria ocorrer de forma coordenada, considerando as redes de cidades, em vez de deixar as decisões a cargo de cada prefeito — completa ele.

Em termos de casos confirmados, os números do Ministério da Saúde mostram que, proporcionalmente, nas três semaans entre 13 de maio a 3 de junho, as região de saúde do Médio Paraíba foi a que apresentou menor velocidade de disseminação do vírus, com aumento de 138%. Nas cidades do Noroeste, no entanto, os que receberam o dignóstico positivo saltaram de 89 para 768.

Um dos principais municípios da região, Santo Antônio de Pádua criou seu próprio hospital de campanha, instalou uma cabine de higienização na porta do Hospital Municipal Helio Montezano e distribuiu máscaras à população. Três semanas atrás tinha só oito doentes. Na quarta-feira, eles já tinham se multiplicado, para 127. Diante desse cenário, o decreto que estabelece as medidas de distanciamento social no município não tem prazo para expirar. E depois de ter que fechar temporariamente um supermercado ao identificar um caso entre os funcionários, a prefeitura determinou regras mais rígidas até para esses estabelecimentos, como a distribuição de senhas para acessá-los.

Na uma outra ponta do estado, em Angra dos Reis, Paraty e Mangaratiba — as três cidades que compõem a região de saúde da Baía da Ilha Grande —, as confirmações pularam de 210 para 1.293 nas semanas analisadas. Com isso, a taxa de incidência da doença nesses municípios se tornou a mais alta do estado: 443,7 casos para cada grupo de 100 mil habitantes.

Angra teve que voltar atrás no relaxamento de medidas

Em Angra, até quarta-feira única cidade fora da Região Metropolitana com mais de mil casos da Covid-19 (1.057 no total), um decreto estabelece um regime de distanciamento social ampliado até pelo menos 8 de junho, sem previsão ainda de afrouxamento das medidas. No mês passado, pouco antes do Dia das Mães, a prefeitura chegou a relaxar parte das restrições ao funcionamento do comércio. O gabinete de crise local, no entanto, observou um aumento dos casos e maior pressão nos leitos do Centro de Referência Covid-19, que funciona na Santa Casa, no Centro da cidade. A quarentena, então, teve que ser novamente endurecida.

Com o aperto nas regras do isolamento, a taxa de ocupação nos leitos da Santa Casa recuou. Mas persistem dificuldades no cumprimento do isolamento. Uma das preocupações se volta para o mar, onde a prefeitura não tem autonomia para proibir a navegação, atribuição que compete à Capitania dos Portos. O turismo náutico, contudo, está proibido, e a fiscalização foi intensificada nas praias. Já na Ilha Grande, desde março o acesso é permitido somente a moradores.

'Descoordenação absurda', diz especialista

Professor do Instituto de Medicina Social da Uerj, o médico Mário Roberto Dal Poz critica o que considera uma falta de coordenação nesse processo de arrochos e relaxamentos no distancianamento social no estado. Situação que, para ele, é ainda mais grave quando há falhas no sistema de vigilância sanitária, flagrante no aumento dos registros de óbitos em casa ou na subnotificação de casos.

— No Rio, está cada um por si, cada prefeitura tem adotado sistemas diferentes para a abertura. É uma descoordenação absurda — afirma ele. — Cada pequeno passo deveria ser muito bem planejado. Tomar medidas sem que um conjunto de fatores sejam controlados e monitorados é um risco. Pagamos o preço em vidas.

Na região de saúde do Norte fluminense, Campos dos Goytacazes, a maior cidade do interior do Rio e que estavam em lockdown, foi um dos municípios que recém anunciaram seus próprios planos de reabertura. Desde a última terça-feira, a cidade entrou em lockdown parcial, o segundo mais restritivo dos cinco níveis da retomada planejada pela prefeitura. Nesta fase, além de serviços essenciais, podem funcionar escritórios como os de advocacia e contabilidade, mediante agendamento dos atendimentos.

No município, com 811 casos e 39 óbitos na quarta-feira, a prefeitura implantou um Centro de Controle e Combate ao Coronavírus, atuamente com 29 leitos de UTI e 60 clínicos. No entanto, até agora não há sequer previsão da abertura do hospital de campanha que o estado constrói na cidade.

"A prefeitura vem tentando obter a confirmação do Hospital de Campanha e já ofereceu a rede contratualizada, inclusive hospitais filantrópicos, para utilização pelo Estado - na tentativa de ampliação dos leitos de UTI dedicados à Covid-19 no município. A cidade é um polo regional, e o Hospital de Campanha poderá ser um reforço para salvar vidas não só de moradores de Campos, como também de outros municípios da região", afirma o município, em nota.

Outro drama tem sido em relação aos trabalhadores das plataformas de petróleo na região. No último sábado, uma das vítimas foi o petroleiro João Batista dos Santos Rangel, de 55 anos, que trabalhava embarcado na Bacia de Campos, e que morreu numa unidade de saúde particular da cidade. Segundo o Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense (Sindipetro-NF), as empresas do setor demoraram a tomar medidas de prevenção à doença. Os casos, porém, não tardaram em aparecer.

— Há denúncias de falhas graves no controle. Há um caso, por exemplo, de um trabalhador que foi testado positivo, mas a empresa terceirizada em que ele trabalha o liberou para voltar para casa, sem encaminhá-lo a um serviço médico. Ele saiu da plataforma, pegou um voo para Campos, um Uber para a rodoviária, um ônibus para o aeroporto comercial da cidade, um voo para Vitória e um táxi para Vila Velha, onde mora. Nesse trajeto, teve contato com várias pessoas que podem estar contaminadas porque não teve controle algum — afirma Sérgio Borges, diretor do sindicato.

Na região de saúde do Norte fluminense como um todo, os casos passaram de 357 em 13 de maio para 2.214 nesta quarta-feira. Procurada para esclarecer questões como o prazo para a abertura do hospital de campanha de Campos, as regiões de saúde que mais a preocupam no momento e se as diferenças regionais serão levadas em conta numa futura reabertura do Rio, a Secretaria estadual de Saúde não respondeu.