Cientista político analisa falhas na articulação do último ato contra Bolsonaro

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SÃO PAULO — As imagens da Avenida Paulista com uma presença modesta de manifestantes contra Jair Bolsonaro rodaram as redes, utilizadas à esquerda e à direita como mostra do insucesso do protesto. Para o cientista político Carlos Melo, do Insper, os organizadores cometeram um erro ao realizar um ato com baixa adesão — e isso pode cobrar um preço. Mas isso, diz ele, não representa o potencial eleitoral dos grupos políticos. Melo diz que o esvaziamento do protesto começou em contradições na própria convocação e que a carta elaborada por Michel Temer, publicada via Palácio do Planalto, arrefeceu o sentimento de que seria preciso uma resposta rápida a um iminente golpe por parte de Bolsonaro. Para o cientista político, a centro-direita precisa se "fulanizar" em torno de um nome antes de buscar uma união com a esquerda: "enquanto a chamada terceira via não tiver um rosto, a dispersão é natural".

A reprovação ao governo federal é aproximadamente o dobro da aprovação, de acordo com as últimas pesquisas. Mas o ato do domingo, convocado por MBL, Vem Pra Rua e Livres contra Bolsonaro, não conseguiu encher mais de duas quadras da Avenida Paulista. Por que essa dificuldade?

Me parece ter um problema com a convocação do ato, que desde o princípio foi convocado para ser "nem Lula nem Bolsonaro". Depois de quarta-feira (pós 7 de Setembro), ele muda sua natureza, então já tem um problema aí. Estamos falando de apenas quatro dias (até o domingo da manifestação). Além disso, existiram vetos cruzados em todo esse antibolsonarismo. Vimos pessoas do PT dizendo que não participariam de atos junto do MBL, Vem Pra Rua, mas também houve pessoas como o (deputado federal) Marcel van Hattem (Novo-RS) dizendo que "o ato que era para ser 'nem Lula nem Bolsonaro' se transformou em 'fora, Bolsonaro' e daqui a pouco vira 'volta, Lula'". Por fim, houve acordos que não foram cumpridos. O sujeito de esquerda que se prepara para sair de casa (e ir ao ato) e vê aquele pixuleco enorme (boneco inflável de Bolsonaro equiparado a Lula), ele não vai mais. Esse foi um ponto de divergência entre os organizadores.

Bolsonaristas debocharam do ato de domingo. Vale a pena botar carro de som na rua para encher duas quadras na Paulista?

Não vale a pena. É um erro que tem consequências. Cobra um preço político. O que que as pessoas razoáveis fazem diante dos erros? Avaliam e tentam corrigir. Claro que os adversários vão tirar sarro dos seus erros. Encontrar a justa medida, o timing certo para sair às ruas, é uma arte. Agora eles deveriam tentar fazer um balanço sincero, às vezes doloroso, dos erros que cometeram, e corrigir.

Na matéria completa, exclusiva para assinantes, Melo avalia a influência do recuo de Bolsonaro para desarticulação do ato, se o protagonismo do MBL interferiu na baixa adesão, os deboches dos bolsonaristas, e o que esperar dos próximos atos que, para ele, tendem a levar mais pessoas às ruas.

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