'Cientistas brasileiros têm produzido conhecimento crucial', diz presidente da Academia Brasileira de Ciências sobre coronavírus

Ana Lucia Azevedo
Físico Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC)

RIO - Está na ciência a única esperança da Humanidade de produzir armas para enfrentar o coronavírus, um inimigo invisível contra o qual bombas são fogos de artifício. Mas, mutilada por cortes de bolsas de pesquisa e esmagada por um orçamento equivalente a um terço do praticado há 10 anos, a ciência no Brasil está na UTI. Ainda assim, cientistas brasileiros estão na linha de frente do combate e têm produzido conhecimento crucial para o enfrentamento da pandemia, afirma o físico Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Ele, porém, alerta que sem ciência o Brasil não terá futuro.

Como a ciência no Brasil tem colaborado no combate da Covid 19?

A ciência, em diversos países, incluindo o Brasil, está desvendando o coronavírus, como ele entra no organismo humano e destrói nossas células. Descobrimos como diagnosticar quem está infectado, as formas de contágio e as estratégias para desacelerar a transmissão na população, testadas com êxito em vários países e que têm como pontos fundamentais o distanciamento social e a testagem em massa. Está em progresso a testagem de diversos medicamentos. Temos aqui no país uma colaboração interdisciplinar, que reúne profissionais de saúde, biólogos, matemáticos e físicos voltados para simulações que permite previsões sobre a evolução da epidemia, engenheiros que constroem novos dispositivos para atendimento hospitalar, cientistas sociais que avaliam qual a melhor forma de proteger os grupos socialmente mais vulneráveis. Uma rede científica de solidariedade, em defesa da vida.

O Brasil reduziu o orçamento para a ciência. Quão drásticos foram os cortes?

Considerando a correção pela inflação, os recursos para pesquisa no MCTIC correspondem, atualmente, a cerca de um terço do orçamento de 2010. O Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o FNDCT, tem contingenciada cerca de 90% da verba destinada à pesquisa e à inovação. Esses recursos, desviados para quitar a dívida pública, vêm de impostos cobrados às empresas, para serem aplicados em pesquisas relacionadas aos interesses dessas empresas. O contingenciamento é um desvio de finalidade.

E o que isso nos traz de atraso?

Os cortes impediram a renovação de laboratórios, levaram jovens pesquisadores a abandonar o país e desestimularam estudantes a seguir uma carreira de pesquisa. A recente redistribuição de bolsas da CAPES perturba a pós-graduação e a formação de profissionais. Isso dificulta o progresso da ciência no Brasil, pois os equipamentos de pesquisa estão obsoletos e os recursos humanos, ameaçados. Sofre também a inovação. O Brasil é a oitava economia do mundo, mas ocupava o 66º lugar no índice global de inovação, atrás do Chile e da Costa Rica. Em 2011, o Brasil ocupava o 47° lugar. Regredimos! Dependemos de outros países para adquirir os insumos para medicamentos, logo o Brasil que possui 20% da biodiversidade mundial.

O governo federal fez o maior corte de bolsas de pós-graduação da história, mesmo antes da Covid 19 explodir. Qual o cenário atual?

A Portaria 34, publicada pela CAPES em 9 de março, mudou radicalmente a metodologia de distribuição de bolsas de pós-graduação, afetando estudantes matriculados. E praticamente manteve o total de bolsas de 2019, que já era menor que o de 2018. A data de publicação contribuiu para a desorganização da pós-graduação, com sérios prejuízos para estudantes selecionados, com promessa de bolsa, muitas vezes provenientes de outros estados.

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